São Paulo = reacionarismo + desenvolvimento econômico

Nos últimos dias, vi no jornal duas notícias que se chocam profundamente.

Dia 30 de março, no Rio de Janeiro, aconteceu um debate intitulado “1964 – A verdade”. Dezenas de militares ficaram sitiados no Clube Militar por causa da revolta de manifestantes que exigem que seja instaurada a Comissão da Verdade que julgará crimes ocorridos durante o período militar.

No dia seguinte, aqui em São Paulo, ocorre uma comemoração  tranquila de 48 anos do golpe de 1964 com o filho do general Médici presente. Roberto Nogueira Médici, o filho do general mais linha dura do período militar, estava lá autografando exemplares de um livro de nome: Médici – A Verdadeira História, do general reformado Agnaldo Del Nero Augusto. Imaginem qual será a proposta desse livro?

Entrevistado, Médicinho diz que “a Comissão da Verdade vai ‘mutilar a tradição nacional do perdão’ (oi!?!?!) e é apenas um pretexto para instaurar processos e punir militares e civis que colaboraram com o regime. ‘Se fosse só para isso (recuperar a verdade histórica e os corpos de militantes desaparecidos), nós mesmos soltaríamos rojões’, afirmou.” (fonte: Estadão – blécate!).

Logo abaixo da notícia o comentário lindo de uma leitora (sic): Eu era feliz na DITADURA MILITAR E NÃO SABIA. TODOS TINHAM DIREITOS DE IR E VIR. NÃO HAVIA TANTO LADRÕES, CORRUPTORES, NAS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS. A ANISTIA É PARA OS DOIS LADOS, OS GOVERNANTES APÓS A DITADURA, ROUBARAM O MAXIMO DOS COFRES PÚBLICOS, E AINDA QUEREM MAIS, TEM QUE SER FUZILADOS, VIVA OS MILITARES, VIVA A DITADURA, ABAIXO O COMUNISMO, FORA DILMA, LULA, GENOÍNO, JOSE DIRCEU, FHC, JOSE SERRA, TINHAM QUE SER MORTOS HA 40 ANOS ATRAS, MAIS ESCAPARAM. MAIS AINDA É TEMPO. COMANDANTES DAS TRES FORÇAS ARMADAS, JOGUEM OS TANQUES DE GUERRA CONTRA ESSES VAGABUNDOS QUE BATERAM NOS IDOSOS DA RESERVA. VIOLARAM A LEI DOS IDOSOS. TEM QUE SER PRESOS E NÃO SER SOLTOS. SÃO TODOS VAGABUNDOS, PAGOS PELOS PARTIDOS COMUNISTAS E COMPANHIA. CRITICA DE UM APOSENTADO FALIDO, REVOLTADO, APOSENTADO DO INSS. OUTRA INSTITUIÕES DE LADRÕES. QUERO MEU DINHEIRO DE VOLTA. E CORRIDO DURANTE 30 ANOS.”

Chega a ser engraçado, não é? A ditadura deu muito certo no nosso país. Transformou as pessoas nisso aí. Convenceu-as de que ela foi ótima para o Brasil, de que foi um período de avanço e que agora a gente tá na merda porque o PT tomou o país e está fazendo as maiores estripulias no governo. O PT está sim fazendo diversas estripulias, mas na ditadura também era um rombo atrás do outro. No fim das contas, por que mesmo que o regime não se sustentou? Pelo buraco nos cofres públicos causado pelos 20 anos de desvios de divisas.

É realmente impressionante. Uma vez li um texto do Xico Sá dizendo que foi em um evento no nordeste e afirmou que o estado de São Paulo é o estado mais reacionário do país. Só faltou os paulistas o apedrejarem em praça pública de tão indignados com uma afirmação assim tão… tão… correta.

Fico pensando, parace que o avanço capitalista e retrocesso político são diretamente proporcionais. Não duvido. As pessoas aqui são tão focadas em enriquecer, crescer nos negócios, fazer uma faculdade que lhes dê condições de consumirem e consumirem (afinal, na nossa sociedade, a única liberdade intocável é a liberdade de consumo) que acabam se tornando cada vez mais individualistas. Coerente com esse individualismo, a opinião geral diz que cada um tem que cuidar do seu próprio nariz e garantir sozinho as suas condições para quê? Para enriquecer. E esquecem que nem todas as pessoas tiveram as mesmas oportunidades na vida e que para algumas delas é sim necessário uma atenção maior por parte do governo. A expressão máxima do discurso neoliberal-individualista é aquela que diz que se você não venceu na vida (seja lá o que isso signifique), a culpa é inteiramente sua, já que você não se esforçou, sendo que todos tem as mesmas condições. E não há afirmação mais falaciosa. É preciso sim, que se dê um suporte para que as pessoas façam e aconteçam neste mundo. É preciso também lembrar que só dinheiro não significa avanço total. Avanço econômico não é avanço intelectual. Crescimento econômico para alguns não é melhora nas condições sociais gerais.

Paulistas (assim como muitos outros) votam no PSDB porque este tem uma postura condizente com tal tipo de pensamento. Este partido pouco se importa com as minorias, com educação de qualidade e com assistencialismo para os mais pobres. O PSDB é o partido dos cursos técnicos, do cancelamento de aulas de reforço, da aprovação compulsória, do desrespeito a decisões judiciais, da PM do gás lacrimogêneo, da bala de borracha, da invasão de propriedade privada, da ocupação militar na universidade pública. E, a cada dois anos, continuamos elegendo o mesmo partido. Ano após ano o estado de São Paulo enriquece, mais pessoas vem para cá e se tornam cada vez mais parecidas e tecnicamente iguais. Por fim, dia após dia desaprendemos a pensar politicamente. E é por isso que um Naji Náhas tem aqui facilmente sua terra desocupada, que a universidade mais importante do país aos poucos tem sido tomada pela polícia.

Que aprendamos algumas coisas com o Rio de Janeiro: o estado em que pessoas fizeram greve de fome contra a ação da PM no Pinheirinho, que se revoltaram contra a comemoração do golpe. Que aprendamos a não aceitar tudo como uma realidade imutável, que paremos de culpabilizar o indíviduo pelos problemas sociais. Que tenhamos um pouco mais de humanidade.


Libertas tamen…

O melhor de Minas são os mineiros. Foi essa minhha constatação depois de nove dias na terra do queijo e da cachaça. Posso até ter tido a impressão errada, ou melhor, a impressão primeira que eles mesmos tentam passar. Em todo caso, a sensação que ficou foi a de que eles são uns amores, e é isso que quero guardar.

Cheguei em Confins no aeroporto e logo de cara já houve um conflito de dialetos. Mineiros me parecem tão calmos e tranquilos que até acham desnecessário falar as palavras inteiras. “Cent” é centro e eu tive que pensar uns 3 segundos para entender o que a mulher da banca de informações me dizia.

Belo Horizonte é uma graça (essa foto aí do lado é do Museu Inimá de Paula na Rua da Bahia, perto de onde ficamos), com seu caos de cidade grande sim, principalmente em relação aos motoristas que são extremamente descuidados e fazem o que bem entendem. É que lá a “CET” é empresa particular e não pode multar, então imagina. BH foi a terceira capital do Estado de Minas Gerais, a que deu certo. Com algumas ladeiras sim, mas estava mais pra Perdizes do que para o terror que nos tinham botado dizendo que o Estado só era feito de morros. Mas os morros estão por toda parte, é verdade, as paisagens nas estradas são incríveis. Bem diferente das daqui de São Paulo.

Logo no primeiro bar em que sentamos, esses simpáticos mineiros já nos abraçaram. No boteco sem ter onde sentar, fomos convidadas a desfrutar da companhia de um cara que estava sozinho. Ao sairmos a mesa já estava composta por 8 pessoas. Alguns deles sambistas, o que fez a conversa ser muito agradável. BH é mais barato que São Paulo e o dinheiro rende mais. E bem, a cachaça mineira que aqui custa 8 reais a dose, lá é 3.

O Mercado Central é uma tentação constante. Dá vontade de comprar tudo. E em vez da gente experimentar frutas as mais diversas como acontece no mercadão em São Paulo, nós degustamos cachaças as mais diversas. Daí já dá pra imaginar o resultado. Saímos do Mercado um tanto quanto cambaleantes com queijos, doces e cachaças penduradas por todos os lados.

Ah, é bom deixar registrado aqui o quanto nos deliciamos com as escolhas gastronômicas do meu irmão. Uma comida aparentemente comum – arroz, bife e taioba – nos surpreendeu enormemente. Saímos de lá com a certeza de que comeríamos muito bem em solos mineiros.

Ah, Inhotim… um mundo à parte. As plantas de todos os tamanhos, de todas as cores, de todos os jeitos. A arte contemporânea surpreendente, comum, interessante, inimaginável. Só indo até lá pra entender. Experiência única na vida. Impressionante demais. A gente tem a impressão de estar num planeta de ETs. Aquela árvore suspensa (essa aí do lado) me deixou extasiada. A galeria da Adriana Varejão é insana, dentro e fora. No Galpão Cardiff & Miller, Janet contando seu sonho. Coisa de doido. Crianças amputadas, máquinas de moer gatos, sangue. Este é pra se escutar com os olhos fechados. Acho que um dia ainda faço um texto só sobre Inhotim porque são sensações demais pra se resumir em um só parágrafo. Inhotim é surreal…irreal até.
Em BH, andamos pela Praça da Liberdade à noite. O tempo que à tarde estava extremamente quente fica suave à noite. Uma brisa fresca e confortável passava pelos nossos rostos. Uma delícia!

De lá, partimos para Ouro Preto. Uma surpresa boa! Foi aí que finalmente entendemos a paciência do mineiro. As ladeiras são realmente assustadoras. Para se chegar a algum lugar é preciso ter calma, muita calma. É necessário subir a passos lentos. Mas ao menos por lá há muito o que contemplar. Ouro Preto é dourada, antiga, religiosa, linda.

São igrejas para todos os lados, em todos os picos. Uma virada pra outra, uma de costas pra outra. Numa cidade daquele tamanho me pergunto como que aquele monte de igrejas ficava cheio durante as missas. Ainda mais porque boa parte da população na época era formada de escravos e eles tinham seus próprios templos porque não podiam participar das missas dos brancos. Curiosa essa latente contradição. O Jesus Cristo de Ouro Preto soube escolher muito bem quem ele quis amar no seu amor incondicional e sem acepção de pessoas. Escolheu os brancos ricos. A matriz da cidade, a Igreja do Pilar, é ornamentada com mais de 400 quilos de ouro. Não muito longe dali, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos contrasta com sua simplicidade. Libertas quae sera tamen…é sacanagem essa frase da bandeira, né não? Como se conquistar a liberdade, mesmo que tardia, compensasse os séculos de escravidão. Mas enfim…

Dentro das Igrejas existe um degrau que separava os ricos dos pobres. Obviamente que a parte dos ricos era menor e mais estreita, já demonstrando que a desigualdade social sempre esteve presente aqui no Brasil, ainda mais numa sociedade escravista. O mais curioso é que até mesmo na Igreja dos pretos existe a tal separação. Já deixando também escancarado o racismo com que vivemos até hoje, entre negros, entre brancos, entre pardos, etc (que não dá pra resumir o Brasil IBGEmente em 5 etnias).
Aleijadinho era o artista-mor. Suas obras estão em todos os cantos, sempre aquelas carinhas de anjinhos nos fitando por onde quer que andemos.

Ouro Preto ganhou esse nome porque o ouro de lá era encontrado junto com o ferro. Vi um pedaço do minério pesado marcado por alguns pontinhos de ouro. Ouro Preto porque além do ouro encontrado com esse ferro, tinha outro ouro preto que à época era escravizado (mas essa utilização do nome é coisa minha). E é claro que existem várias minas visitáveis por lá. Escolhemos a Mina da Passagem que fica no caminho para Mariana. Um carrinho nos levou a 120 metros de profundidade. Antes, levava a mais de 300, mas isso não é mais possível e por um motivo lindo! A água do lençol freático subiu e inundou boa parte da mina, agora a parte inundada é só para mergulhadores. Imagina que lindo deve ser!

Antes, porém de visitarmos a mina, passamos o dia em Mariana. A cidade é bem menor, as ladeiras menos íngremes do que as de Ouro Preto. E esta foi a primeira capital do Estado de Minas Gerais. O nome da cidade foi dado em homenagem à esposa do rei Dom João V a pedido dele mesmo. Sua esposa se chamava Dona Maria Ana da Áustria. Claro que a cidade para mim não poderia ser mais poética. Mariana é o nome da minha irmã mais velha e o meu nome, escolha dela, veio de uma inspiração que ela teve do próprio nome. Um pouco egocêntrico, mas uma coisa linda de irmã mais velha. Ela tinha 4 anos quando nasci. Foi lá que encontrei uma pedra transparente, foi de lá que minha irmã, há mais de 15 anos, me trouxe uma pedra bem parecida como lembrança da cidade.

Mariana é pequena, lenta. E Drummond latejando na minha mente: “Um burro anda devagar, um cachorro anda devagar, devagar as janelas olham… Eta vida besta, meu Deus”.

Mariana também tem igrejas, muitas. Há mesmo uma praça em que duas igrejas ficam juntinhas, uma ao lado da outra. Imagina se não era uma competição entre os corais naquela época. O mais surpreendente da cidade é a catedral da Sé. Ela é torta! Sim, torta, aberta. Imagine uma pessoa com os braços abertos aos céus como se louvasse a alguém, ou como se recebesse gotas de chuva no rosto, pois bem, as pilastras da igreja são assim, abertas assim: \o/. Entendeu?

Voltando para Ouro Preto, no sábado fomos aproveitar nossa última noite. Aquela lua…e só faltou um conhaque. Ficamos comovidas como o diabo, olhando o céu, as estrelas, a paisagem. Deitadas na cama com a janela aberta lembramos que no dia seguinte seria hora de partir. Despedimo-nos da cidade abraçadas com o alento do vento frio que passava pelo quarto.


Fabulário do Cotidiano: sobre a saudade e a nostalgia

“Se fosse possível rasgar e jogar fora o passado, como o rascunho de uma carta ou de um livro. Mas fica sempre aí, manchando a cópia passada a limpo, e eu acho que isso é o verdadeiro futuro.” (Julio Cortázar)

Ser acometida pela nostalgia é estar no meio de uma viagem e encontrar moedas de chocolate à venda num posto de beira de estrada. Moedas de chocolate, junto com pastilhas de cor pastel e mini chiclets, doces que representam minha infância. Um tempo feliz, porém muito triste. Eu sabia que acabaria. E sabia que, com seu fim, eu finalmente poderia soltar algumas amarras que me machucavam e me prendiam a situações e pessoas que, de algum modo, eu previa que não fariam mais sentido.

Mas apesar de libertadora, essa constatação inconsciente não deixava de ser triste. É triste, de repente, se dar conta que aquilo que se cultivou não faz mais sentido. Amizades, relações, coleções de bonecas. Simplesmente, perdem sua função na dinâmica da nossa vida. O que foi que me mudou? Desde quando eu comecei a pensar desse modo? Porque tanta impaciência? É como se o cotidiano dessa cidade que um dia conheci tão bem se transfigurasse num sonho. Às vezes, num pesadelo. As orações escritas num papel amarelado, as receitas trabalhosas , as pessoas com quem pensei compartilhar a história de uma vida inteira. Voltam, gravitam em torno de mim.

Em alguma época, eu fui muito feliz nesse meu lugar no espaço-tempo. Mas não, não consigo encontrar sentido. A sabedoria que se adquire com os atos consumados não permite volta. Não permite esquecimento. Fica tudo amarelado pelo tempo, de algumas lembranças a gente até muda a cor para que fiquem mais bonitas. Todo mundo precisa de um pouco de poesia. Seja recordando fatos que aconteceram de outro modo, seja aplicando um filtro poético numa foto digital. Com a maturidade, as apostas ficam mais altas. Os sonhos se tornam mais perigosos. O risco, a dor que vem da falta de sentido é maior e mais amarga. Talvez esse seja o sentido. Sentir saudade e deixar que o tempo teça sua poesia silenciosa feita de fragmentos da nossa vida.


Carnaval, Pinheirinho e a teoria de Roberto da Matta

Hoje li uma notícia que me deixou chocada: o comandante da polícia que esteve à frente da invasão do Pinheirinho foi condecorado. Um assassino, sanguinário, mandante de um massacre, foi condecorado e mesmo que não declaradamente, louvado pelos seus atos de crueldade.

Temos observado como bandidos e corruptos tem sido repetidamente coroados nos últimos tempos. Por exemplo: Dirceu e Delúbio Soares há alguns meses foram ovacionados por militantes do PT numa das reuniões do partido. Mesmo sendo eles também militantes do PT, surpreende-me que uma massa de pessoas minimamente politizadas – pois fazem parte de um partido político – possam, simplesmente, passar por cima de todas as acusações e provas contra estes dois e os louvem por… pelo que mesmo?

Ano passado peguei um livro do Roberto da Matta para ler chamado “Carnavais, malandros e heróis” (link pra baixar o livro). No capítulo III, intitulado “Carnaval de igualdade e hierarquia”, Da Matta compara o Carnaval do Brasil com o dos Estados Unidos, em Vew Orleans. As diferenças são diversas, mas quero chamar atenção para a questão da inversão presente no Carnaval brasileiro e inexistente no Carnival norte-americano.

A sociedade americana é uma sociedade individualista, marcada pela ideologia igualitária nos âmbitos político, econômico, moral, social. Isso não quer dizer que a sociedade seja homogênea, mas que a igualdade é um ideal compartilhado por cada indivíduo lá presente. O indivíduo é por si só um “representante de toda humanidade” e deve ser tratado como tal. Nesse contexto social, o Carnival de New Orleans, estudado pelo autor, é um carnaval aristocrático. Quebra-se a igualdade presente na sociedade, e os tão iguais se tornam diferenciados numa hierarquização que é encenada nas festividades. Para maiores detalhes é melhor ler o livro.

No Brasil, porém, o indivíduo não é um todo, ele é uma parte. Como escreve da Matta: “Em nosso sistema, então, tudo parece estar realmente parado e seguindo o próprio ritmo. Enquanto a fábrica acorda, os boêmios começam a dormir; e, enquanto muitos trabalham, alguns podem, – precisamente por isso – gozar da liberdade do próprio trabalho. [...] É, na realidade, uma surpresa tremenda para muitos descobrir que o mundo individualizado em que vivem deve sua existência a uma ideologia que é coletivamente mantida. Raros são os momentos em que percebemos o poder e o peso da totalidade com sua rede de ultradeterminações.” (DA MATTA, p. 159, 160). Um desses momentos é justamente durante o Carnaval.

O Carnaval aqui no Brasil é o momento da bagunça, um momento sem leis, um momento livre. Uma época em que as regras são modificadas e as pessoas podem se expressar livremente. No entanto, durante todo o ano os mais pobres sofrem e ralam enquanto a classe média e alta usufrui das vantagens de ter dinheiro, no Carnaval, a situação se inverte. “Os membros das escolas de samba sabem que são pretos e pobres (a maioria é parte do enorme mercado de trabalho marginal do Rio de Janeiro), mas estão altamente conscientes do fato de que nos seus ensaios e durante o carnaval são eles os “doutores”, os “professores”. Com essa possibilidade, podem inverter sua posição na estrutura social, compensando sua inferioridade social e econômica, com uma visível e indiscutível superioridade carnavalesca. Essa superioridade se manifesta no modo ‘instintivo’ de dançar o samba que o senso comum brasileiro considera um privilégio inato da ‘raça negra’ como categoria social.” (p. 167)

O carnaval é o momento de coroar o malandro de quebrar a hierarquização que reina durante todo o resto do ano. Essa sociedade fortemente hierarquizada está intimamente ligada ao rito do “sabe com quem está falando?”. Rito autoritário que coloca o indivíduo “no seu devido lugar”. “Aqui cada um já sabe o seu lugar (ou melhor: cada qual busca sempre estar no lugar social adequado), o que significa que o princípio da hierarquia é sempre aplicado, pois o maior temor social no Brasil é o de estar fora de lugar, estar deslocado.” (p. 171). A ordem das coisas mantida por todos/as, tem uma quebra temporária durante as festividades carnavalescas. Após o Carnaval, porém, tudo volta a seu lugar.

Agora retomando o caso narrado no primeiro parágrafo, a inversão de valores manifestada na condecoração do comandante do massacre somente perpetua a hierarquização da sociedade que ignora o valor das pessoas e condecora aquelas que já estão muito bem alocadas no topo da pirâmide. A condecoração de uma pessoa que comanda um massacre manifesta uma profunda inversão de valores. O princípio é o mesmo, embora as pessoas – o malandro e o comandante sanguinário – não possam ser colocados no mesmo patamar. Não analiso as pessoas – o malandro e o comandante, mas a situação de confusão. Chamo a atenção aqui para o fato de que tudo está fora do seu lugar, a falta de clareza em relação ao que deveria ser exaltado e ao que é de fato.  O Carnaval é uma ilusão e a condecoração desse policial a poucos dias do evento demonstra o sadismo implícito no sistema em que vivemos, capaz de premiar com prestígio e honras esse comandante, em nome da manutenção da hierarquia da sociedade brasileira. Quem está no topo, portanto, deixa claro para todos/as nós que está lá para ficar.


Notas sobre o caos

Post para ser lido ao som de: http://www.rainymood.com/ 

Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo

São São Paulo – Tom Zé

***

Chorar no ônibus, pra mim, é quase um hobby. Algo um tanto quanto inevitável, já que quando viajo para o interior passo 4 horas sentada, ouvindo música, lendo, e pensando na vida. Aliás, a viagem de ônibus anda meio esquecida, coitada. Com essa tal de ascensão da classe média, todo mundo pode comprar carro com o IPI reduzido ou arrematar facilmente uma passagem área através de um site de descontos e dividir em seis vezes sem juros. Quer saber? Eu acho é que todo mundo tem um medo danado de ficar sozinho consigo mesmo. Sentado, pensando. Por horas.

***

Deixo São Paulo com chuva, às 18h de uma sexta-feira. O trânsito se transfigura em paisagem na minha imaginação. Completa a paisagem um céu de matrix, sempre avermelhado, uma cor que fica entre o fúcsia e o mostarda, se fosse possível definir. Acho incrível que eu tenha me acostumado tanto com a falta de céu. São Paulo parece sempre estar envolta numa névoa. E cá pra nós, eu tenho certeza que essa névoa deve ser composta por partículas especiais que fazem com que o tempo passe de um modo diferente. É incrível como sempre parece que acabei de chegar, forasteira do interior que sou. Ora me sinto uma bandeirante aventureira, ora me sinto um membro especial de um grupo muito seleto. Mais estrangeira no lugar que no momento, pra citar Caetano (que também menciona São Paulo como túmulo do Samba, mas isso é uma outra história).

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Insano São Paulo. São Paula. Paulada. Lâmpada na cara. Acampamento na poética esquina também cantada pelo mano Caetano, nos lembrando de que existem diversas cidades dentro da cidade dentro da cidade. Olha lá a Matrix de novo. E depois ainda dizem que São Tomé das Letras é que abriga passagens para outros mundos. Aqui, se você quiser caminhar em outros mundos, basta abrir um pouco os olhos e escolher a esquina certa pra dobrar.

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Todos os dias, acordo cedo, coloco o pão na torradeira, escolho meio a esmo a roupa pra sair. Não há despertador mais eficiente do que a 23 de Maio congestionada, que vem me presentear com uma aguda sensação de urgência antes mesmo que eu tenha aberto meus olhos por completo. Abro a janela e lá estão os monstros de lata a buzinar e buzinar. Como não se cansam? São Paulo é se acostumar ao atraso, e por isso também se acostumar a planejar. Mas como é que se planeja uma epifania?

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Todo mundo vem em busca do sucesso. Mas o sucesso anda muito concorrido. O pobrezinho não aguenta mais tanto processo seletivo, já preencheu quase todas as vagas que restavam. Até ele, que é tão multitarefa, anda achando que esse mundo é muita informação pra digerir. Por fim, todo mundo se conforma à vida que se tem pra levar, cheia de juros de cheque especial, aparências, pisões no pé, alguns sonhos escondidos entre uma e outra hora de trabalho ou de amor.

***

Durante a semana aquele calor poluído, sujo. É difícil respirar. Mas todos os dias cai a chuva do fim da tarde. Chuva de verão, rápida, ácida, intensa e devastadora. Todos os anos as mesmas calamidades, as mesmas tragédias, na mesma época do ano, e nada é feito, como se fosse impossível prever a natureza que se repete a cada ano.

“São Paulo é uma calamidade
Eu disse: chuva!
Inundou a cidade” (Giovani Baffô)

***

É fim de semana e a chuva não cessa. É bloco de carnaval molhado na rua, é gente que se programou e queria desistir de tudo por conta da chuva. Mas São Paulo, nos primeiros meses do ano é pura chuva, fazer o quê? Desistir da vida? Não dá.

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O fato é que não há lugar tão inspirador quanto São Paulo. Não se enganem, essa Nova Iorque dos trópicos inspira poesia tão inesperada e intensamente quanto inspira revolta com seus contrastes. É preciso entender a ordem secreta que existe no caos, os códigos misteriosos nas entrelinhas desse cotidiano aparentemente sem sentido. São Paulo simplesmente não se esgota.


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