Humor / Horror

Que faríamos nós sem os estereótipos?

Esbarro em estereótipos todos os dias, ao acordar, ao deitar pra dormir. Chego em casa e há um baterista famoso de certa banda adolescente na cozinha, amigo de longa data de uma das roommates. E eu já o julguei antes mesmo de ouvir sua voz me cumprimentando, pois, afinal de contas, ele é o baterista de uma banda cujo tipo de música considero ruim.
Gisele Bundchen, tida como símbolo de nosso “brazilian dream”, estrela uma campanha publicitária considerada por pessoas sensatas como sexista (o que de fato é), tendo por base um estereótipo de mulher brasileira. Por conta desse estereótipo, também propagado por certa série de comédia da tevê portuguesa, muitas brasileiras sofrem preconceitos e agressões gratuitas pela Europa afora.

Os ditos comediantes, por sinal, são os que mais propagam estereótipos e preconceitos. É certo que, sem estereótipos, não há o gênero comédia. Mas cabe aqui uma questão de outros gêneros. Uma questão pós-gênero. Uma questão de contexto, de bom senso. Se hoje temos liberdade de expressão, é reflexo da luta de nosso povo num passado não tão distante. Se hoje temos lei Maria da Penha, é fruto de uma extensa luta de nossas mulheres num passado mais recente ainda. Num país sem um histórico significativo de lutas (vide como foi feita a abolição da escravidão ou a concessão dos Direitos Civis), essas conquistas, ainda que parciais, representam muito.

Mas aí vem o Rafinha Bastos, humorista (em minha opinião, deveria ser “horrorista”) famoso e personalidade do twitter, e com algumas piadas menospreza, de certa forma, todas essas lutas. Seus defensores se escondem sob a bandeira anti-censura, mas há que se duvidar do conceito de censura que tais elementos adotam. Liberdade de expressão não é a liberdade de dizer atrocidades e fazer apologia a estereótipos sexistas impunemente. Liberdade de expressão é diferente de incentivar as mulheres a usar o corpo para barganhar vantagens com os homens. A luta pela liberdade de expressão é sim uma luta contra a censura, mas não uma luta pelo “falar o que eu quero sem responsabilidade alguma”.

É preciso dizer que esse não é um texto otimista. É triste, mas deve-se reconhecer que a recente polêmica envolvendo o horrorista e a propaganda da Hope refletem padrões de pensamento de nossa sociedade. É fato que existem muitas pessoas defendendo Rafinha e o CQC, pessoas que, de uma maneira ou de outra, corroboram com os atos de seus irresponsáveis integrantes. Isso evidencia que, em nosso país, a consciência coletiva ainda é um tanto quanto retrógrada, pelo menos no que diz respeito às questões envolvendo o sexismo. É uma consciência que se sustenta na repetição de jargões lançados por pessoas famosas e acríticas (assunto para um próximo post).

Pra mim, Rafinha encarna perfeitamente aquele vizinho chato que se sente na obrigação de “dar uma investida” toda vez que se encontra numa roda onde haja a presença de mulheres. Aquele que se gaba de conseguir enganar a namorada, aquele que nunca incluirá sinceramente sua parceira na sua roda de amigos. E não é difícil de constatar que muitos homens agem dessa maneira. Se considerar apenas meu círculo de convivência, já tenho uma boa amostra. E as mulheres? Que dizer daquelas que defendem Rafinha, que encaram propagandas como a da Hope como inofensivas?

Como bem lembrou Daniel Martins de Barros em sua coluna no Estadão, o bobo da corte era o único que podia dizer certas verdades sobre o rei, já que o fazia em forma de piada. Mas os excessos podem fazer cabeças rolarem. Infelizmente, são as cabeças erradas que estão rolando. Rafinha foi suspenso do programa apenas por uma semana, e participará de um programa especial sobre o dia das crianças (aquelas que ele mesmo disse que ‘comeria’). Além disso, postou fotos com mulheres seminuas no twitter, adotando um ar de descaso e arrogância. Olhando as fotos, a única coisa que pude desejar é que minha conta bancária fosse do tamanho do ego e do orgulho de Rafinha. Não é possível que ele não reconheça o que fez. E não é possível que haja tanta gente o apoiando. As pessoas se julgam capazes de não se deixar afetar pela publicidade, como no caso de Gisele (‘é apenas uma propaganda bem humorada’), mas são ingênuas o suficiente para considerar o humor de Rafinha inteligente, dando a ele o aval para dizer as mais horríveis baixarias. O humor bom é aquele que menos precisa de estereótipos para se sustentar, para divertir. E já vimos aqui que esse não é o caso do CQC. Não, não temos uma alternativa e nem estamos aqui ensinando ninguém a ser humorista. Apenas cultuamos o bom senso nas escolhas dos assuntos e na hora de cuspir uma piada para um público com um senso crítico não muito apurado como o brasileiro.

Não criticamos a comédia ou clamamos pela censura, pelo contrário, admiramos as boas comédias. E essa produção em massa de comediantes stand-up já esgotou as demonstrações do seu mau gosto, da apelação ao uso indiscriminado de preconceitos o que, consequentemente, torna-se quase que uma ode à intolerância. E por que isso? Porque alguns exemplares desse tipo de comédia não tem recursos intelectuais e nem criatividade suficiente para fazerem algo que é realmente engraçado sem ter que recorrer ao uso medonho e grotesco de situações estereotipadas. É que o verdadeiro comediante sabe exatamente a ferida que pode cutucar sem ofender pessoas que lutam por seus direitos há anos e sem trazer à tona o preconceito latente da sociedade. O comediante ruim, ao contrário, escancara o preconceito e a estereotipação negativa.

Não é uma questão de não ter senso de humor, é que simplesmente não é engraçado rir duma piada que resgata fatos de uma História macabra como a nossa. Aqueles que não conhecem a história correm o risco de repeti-la e a intolerância cujas conseqüências essa mesma a História já mostrou tantas vezes, surge daí: da falta de sensibilidade, dos atos de não-pensar e não-refletir.

Uma indicação:

“A luz é para todos” é um filme de 1947, meio da 2ª Guerra Mundial, que trata do anti-semitismo. Foi um filme que me impactou muito e me fez parar de rir de muita piada idiota. É com o Gregory Peck. Ele é um jornalista que precisa fazer uma reportagem sobre o anti-semitismo na sociedade americana. Mas como abordar de forma inovadora um assunto tão falado na época em todos os meios de comunicação? Ele escolhe então se fazer passar por um judeu na sociedade e sofre na pele o preconceito e a conseqüência é uma mudança da própria pessoa, da sua forma de ver e pensar.

Anúncios

Comente!!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s