Las medianeras paulistanas

Buenos Aires é como São Paulo: grande, desordenada, cheia de prédios, sem planejamento algum. Pequenos, grandes, paradoxais, tortos, espelhados, empresariais, residenciais. Alguns com o propósito de padronizar, otimizar, oprimir, muitos com o propósito de diferenciar classes. Vindo para o trabalho hoje percebi que no meio desse monte de prédios na Vila Olímpia tem um que foi construído na diagonal, torto, errado. Um outro, no qual já tinha reparado antes, mistura elementos de uma arquitetura clássica com a modernidade dos vidros espelhados. Um horror!

Assim como as portenhas/os, nós paulistanas/os, temos também a nossa “medianera”. Aquele lado que tentamos ignorar e que em presença de outros nunca mostramos. O lado inseguro, triste, sozinho. Nietzsche disse uma vez: “Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro”. Temos medo de estar só, de adentrar aquele cativeiro que é nossa própria mente quando não temos com que distraí-la.

A idéia de ter aquele tempo para pensar em tudo o que poderíamos ter feito e ainda não fizemos, tantas coisas que poderiam ter sido diferentes, do que poderíamos ter sido, enfim. Mas, ao mesmo tempo, somos individualistas. É uma característica de nosso tempo. E eu acho mesmo que as cidades grandes são todas umas imensas aglomerações de individualistas e de individualismos subentendidos. Tocamos, mas não nos aprofundamos. Os espaços públicos são locais de passagem, nunca convidativos a uma interação maior (como cita Bauman no “Modernidade Líquida”).E já que é assim, relutamos em compartilhar nosso espaço, nossos medos, fraquezas, nossos rituais particulares. Cada um com a segurança maravilhosa de sua caixa de sapatos, como mostra o filme.

A verdade é que tememos a solidão e ao mesmo tempo, gostamos de desfrutá-la. Quantas loucurinhas podemos fazer sozinhas/os, né? Aliviar carências através de atos normalmente considerados bizarros (Mariana fazendo sexo com um manequim) pintar desenhos com aquarela, ler coisas que, em público, nos envergonhariam perante as pessoas sérias do cotidiano (Mariana

procurando o Wally) decorar objetos que podem ser considerados como lixo, (uma caixa que na verdade se transformou em sapateira – uma das minhas obras de arte inacabadas), escrever em nossos caderninhos secretos (sim, muitas pessoas têm um desse) sem nos preocupar com olhos curiosos, chorar por nada, examinar e estranhar o próprio corpo através de vários ângulos diferentes, dançar da forma mais bizarra e livre possível.

No filme, não me chamou maior atenção a busca pelo verdadeiro amor. Nem ligo pro “true love will find you in the end”, apesar de que a música é ótima. O que me cativou nesse filme é a simplicidade, a fofura, o otimismo e toda poesia, apesar do assunto preocupante. É quase plano, com algumas incongruências (como tudo nessa vida), a profundidade na medida certa, sem assustar. Deixa o/a espectador/a mais leve, atento a pequenas coisas que nos distraem da realidade e da seriedade da vida, e nos estimulam a continuar – que atire o primeiro Iphone quem não saiu do cinema procurando janelas e sinais nas laterais dos prédios. Na verdade, não existe a real necessidade de viver cada minuto da vida como se fosse o último, mas viver aquilo que, no nosso íntimo, queremos de verdade viver.

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