Sobre o Apocalipse zumbi e as ideias descartáveis

Por Marilia Romão

Atenção: o texto abaixo condensa algumas opiniões e não pretende ter embasamento econômico-científico-sociológico-astrológico e etc.

Tá bom. Reconheço que ultimamente tenho cultivado certa obsessão pelos zumbis. Mas os zumbis que povoam minha cabeça não comem cérebro e não podem ser despedaçados com uma marretada. Eles comem outras coisas, mais abstratas: dinheiro, fama, prestígio social. Mas são tão bobos como os dos filmes toscos de terror, apesar de saberem disfarçar isso muito bem.

Tá lá na Wikipedia: “(…) é um ser humano dado como morto que, segundo a crença popular, foi posteriormente desenterrado e reanimado por meios desconhecidos”.

Esses zumbis que estão aí atravessando as ruas, passeando no shopping, frequentando as mesas de bar e alimentando as redes sociais disfarçam sua condição de mortos-vivos, principalmente, reproduzindo idéias pré-fabricadas. Eu não sei qual a ferida histórica que os deixou assim, mas eles costumam integrar a patrulha dos politicamente incorretos pela liberdade de expressão e pelo fim daquilo que acham ser o fantasma da censura, gostam de ler a Veja e, possivelmente, votaram no Bolsonaro nas últimas eleições. Mas óquei, não quero estereotipá-los. Podem existir diversos tipos de zumbis, afinal Darwin taí e a diferenciação das espécies é uma realidade. Eles são sim, condicionados por seu meio.  Mas um dos traços que essas criaturas têm em comum é o fato de que são um tanto quando influenciados por pessoas e instituições que consideram estar acima deles na escala da sociedade zumbi.

Para deixa-los cambaleantes e confusos, tal qual a marretada mencionada parágrafos acima, basta desconstruir seus argumentos. É simples. Nem precisa de muito embasamento teórico não. Muitas vezes, basta mudar a ordem das premissas para que eles fiquem desconcertados e não consigam mais encontrar a conclusão final. Simplesmente acatam todas as falsas opiniões a eles transmitidas através do tubo, qualquer que seja ele, e passam-nas adiante sem relativizá-las ou sem nem sequer pensar nelas. Novamente, preciso lembrar aqui que esse não é um texto otimista. Vivemos atualmente o apocalipse zumbi e são poucos os que conseguiram se salvar. Sou obrigada a aceitar diversos zumbis em minhas rodas de convívio social, sob a ameaça de ser descoberta. Luto todos os dias para não ser seduzida pelo limite do meu cartão de crédito querendo me anestesiar a realidade ou pelas promessas de sucesso que, dizem os zumbis, eu poderia obter caso bajulasse as pessoas certas.

Não. Eu não quero ser zumbi, por mais que o contexto me obrigue. Ninguém disse que seria fácil. Ninguém disse que seria simples fugir da apatia que o cotidiano me impõe. Ao contrário, a mensagem que recebo todos os dias é a de que sou livre. Livre para escolher. Escolher entre i

mensas possibilidades de consumo que são colocadas à minha volta. De produtos, mas também de opiniões. Sente-se com os zumbis numa mesa de bar qualquer e eles te brindarão com um leque infindável de idéias vazias. A realidade é que eles já estão tão mortos que não se importam.Gente que debate demais, dizem eles, é chata. Talvez seja a maior disponibilidade de informação devido à disseminação da internet, talvez seja a própria vida que se tornou por demais consumível. Mas eu ainda não me sinto confortável com a idéia de ser um produto e ao mesmo tempo um consumidor voraz.  Eu prefiro viver sem anestesia, mesmo que doa. Mas minha cabeça ainda se sente feliz em ter algumas questões para formular, digerir.

E se algum dia vocês me virem por ai faminta tentando devorar um caixa automático ou uma revista Veja, por favor, me dêem uma marretada.

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6 pensamentos sobre “Sobre o Apocalipse zumbi e as ideias descartáveis

  1. Sim. E quero dizer, o grande É a liberdade de expressão.

    Se a democracia liberal prega a liberdade de expressão, por que os racistas e os homofóbico precisam ser silenciados? Essa questão é muito pertinente, pois demonstra a falha lógica da ideologia dominante e os conseravdores aderiram se agarraram à ela com toda força.

    Pegaram a falha lógica da ideologia que tomou seus lugares, estão, agora tentando pegar de volta.

    Repare, não ser racista, homofóbioc e etc, era autocensura, era algo que vc naõ falava por que tinha medo de receber sanções morais e etc, seu superego te dominava em situação de demonstração de algum preconceito. Hoje não, tais valores foram questionados.

  2. O Twitter e o Facebook são hoje os meios mais utilizados para a repetição dessas não-idéias… lembra da questão da legalização do aborto e o “argumento” – se é que se pode dar esse nome a isso – mais forte deles: “Fácil falar legalizar o aborto agora que você já nasceu”.
    Algo totalmente sem sentido e que foi disseminado, difundido e repetido pelo Twitter afora numa progressão (ou seria regressão?) geométrica.

    • Eu falei sobre isso e a respeito do Rafinha Bastos no meu Blog, fiz outra postagem que vai meia noite e 15 pra página do blog. Essa reação conservadora pela liberdade de expressão e etc tem seu fundo ideológico, ou melhor, se aproveitando das brechas ideológicas deixadas pela democracia liberal.

      • É Vinicius, de certa forma eu concordo. Como eu disse, eu acho que isso é reflexo de uma ferida histórica, de coisas mal resolvidas na história do nosso país. Em nome da tal liberdade de expressao, o bom senso é sacrificado.

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