Pizza revisited?

Com a colaboração de Maíra Ouriveis

Temos acompanhado com curiosidade e entusiasmo os movimentos que dizem querer ocupar Wall Street. Seria interessante se isso de fato ocorresse. Um modo de vida alternativo é um dos maiores sonhos de qualquer pessoa que tenha pensamentos críticos a respeito da modernidade.

Não sabemos o que é que mudou. Quando pensamos nos nossos pais, lembramos que havia uma cultura de guardar, guardar dinheiro para os imprevistos da vida, para garantir uma velhice confortável, comprar o carro do ano um dia, reformar a casa, e todas essas coisas supérfluas e tão essenciais. Entesouramento, dizem alguns.

Talvez por conta dessa herança cultural dos nossos pais é que ficamos tão assustadas com a constatação das dívidas dos jovens americanos. Os student loans, como são chamados os empréstimos que esses jovens tomam dos bancos para pagarem as faculdades, chegaram num patamar inaceitável até mesmo para os cidadãos norte-americanos. Sim, pois, ao nosso entender, o american dream sempre foi todo baseado nas dívidas. Em maravilhosas e intermináveis linhas de crédito, capazes de proporcionar os mais fabulosos confortos e as mais assombrosas tecnologias. Pagamentos em 10, 20, 30 anos. Como é que ninguém percebeu que isso tudo era um tanto quanto perigoso?

No Brasil, olhamos com certa desconfiança a tal expansão da classe C. A banalização dos cartões de crédito e o boom imobiliário causado pelo aumento do crédito e por programas do tipo “Minha casa, minha vida”. Dizem que estamos por cima da carne seca, que os últimos serão os primeiros, que o mundo em desenvolvimento é que pode salvar o mundo da crise. Mas será que não estamos tomando exatamente o mesmo caminho? Será que não estamos moldando nosso brazilian dream à clara semelhança dos americanos?

Essa cultura do consumo desenfreado nos incomoda. A sensação que temos é a de que estamos caminhando em direção a um precipício, a um beco sem saída. Não somos economista e não temos embasamento teórico suficiente para apontar o caminho da economia mundial, mas registramos aqui nossas impressões.

Nossa vontade é que esse movimento se fortaleça, mesmo que, à primeira vista, pareça um movimento de pessoas insatisfeitas e revoltadas com algo que nem ao certo sabem definir. Um movimento de pessoas que entraram em desespero por não conseguirem mais consumir como estavam acostumadas. Em meio a essa multidão que adotou o tema do “We are the 99%”,provavelmente a grande maioria ainda não percebeu que este pode ser um momento decisivo para mudanças profundas no sistema. A ilusão do american dream, porém, ainda ronda, e é possível que essa enorme parcela de 99% queira apenas se esforçar para quem sabe um dia chegar a ser parte do privilegiado 1%.

Contudo, também acreditamos que um número considerável destas pessoas sabe que é parte da geração que pode estar vivenciando o fracasso do capitalismo. Se não é ainda o verdadeiro fracasso, ao menos é uma crise muito séria. Ninguém ainda consegue vislumbrar uma alternativa concreta para manter o atual regime econômico e seu ritmo com a crise generalizada das dívidas.

Acredito que filósofos como Slavoj Zizek viram potencial nesse movimento e buscaram intervir na esperança de dar um direcionamento a esses milhares de insatisfeitos, percebendo-os perdidos na sua revolta, tentando fazer com que acreditem que a luta deles é contra o sistema injusto que os impediu de consumir e de consumar seu sonho e o sonho de seus pais.

Imagine que maravilha levar essa massa toda ao redor do mundo a lutar contra o sistema que cujo símbolo pode ser resumido nas especulações do Wall Street! Pode ser apenas uma utopia, já que o movimento não tem reivindicações formais e nem inimigo nominalmente estabelecido. Mas que bela utopia. Nessa falta de alvos e de exigências concretas é que está sua fraqueza, e talvez sua maior força. Definir é limitar. O que não está definido, ainda pode ser qualquer coisa.

O jargão da Margareth Tatcher, usado nos anos 80 para defender o liberalismo econômico – “There is no alternative” (conhecido como TINA) – sempre soou um tanto sombrio. (Mas, de verdade, será que existe alguma?)  Se temos esperanças nas manifestações e protestos que estão acontecendo pelo mundo? Sim, e muita. Se o capitalismo de fato se deixou derrotar? Esperamos que sim, mas acreditamos que não. Talvez seja mais uma ocasião de reinvenção deste. A História já nos decepcionou outras vezes e nada indica que não irá fazê-lo novamente.

Aliás, é alarmante que a ocupação de Wall Street tenha gerado um lucro curioso para alguns. Uma pizzaria em Nova York criou a pizza OccuPie Special, vendida on-line. Qualquer pessoa que queira ajudar os manifestantes pode comprar pelo site do estabelecimento e mandar entregar no local da ocupação.

Diante desses fatos, é mesmo difícil tomar partido ou saber em que acreditar.

Mas se o capitalismo pode se reinventar em forma de pizza, quem sabe o movimento também possa tomar a forma daquilo que ele mesmo se pretende. Não custa sonhar…

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9 pensamentos sobre “Pizza revisited?

  1. Pingback: Consumismo, Propagandas do Governo e Neohippies « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Zizek, Louis Althusser, Alienaç

  2. Penso que pode ser o início de algo muito sério: a queda do capitalismo. Porém, como foi dito antes aqui, provavelmente não são tantas as pessoas que têm participado dos atos ao redor do mundo e que têm ideia da grandiosidade da coisa.

    É, ainda, um movimento sem forma tão definida. Se os oportunistas não se apropriarem em tempo, teremos selvageria.

    Mas eu prefiro selvageria em vez da falsa paz e calma, deste entorpecimento que tenho visto nas pessoas do meu país.

  3. Um capitalismo mais humano ainda seria um capitalismo
    Eu acho muito bonito pensar nisso tudo mas eu ainda acho que no final vai ser isso mesmo que você disse: depois que tiverem os empregos de volta e crédito pra voltar a consumir como antes, voltarão caminhando tranquilamente pra casa.

    • Pq?

      Desculpa se eu for indelicado, mas esse “eu acho muito bonito pensar nisso tudo” me lembrou do Zizek comentando sobre uma nova lei na China, onde é expressamente proibido a execução de filme, desenhos e hq’s (etc e etc) que mostrem uma realidade alternativa, sob a desculpa de que a história é uma assunto “sério demais” para ser mexido. Nós sabemos que essa censura acontece exatamente pra se pensar que o estilo chinês é o único viável e real, para minar qualquer tipo de revoltas já desde sua concepção, desde a possibilidade de uma realidade diferente.

      Porém, pelo menos na China ainda é necessário a censura.

      No ocidente democratico-liberal, a ideologia alcançou um certo patamar onde nem é mais necessário uma censura, onde o capitalismo democratico-liberal ganhou e é incontestável, um exemplo é exatamente a sua frase. Algo como “É tudo muito bonito, mas a realidade é outra”.

      E, por fim, o que demonstra essa aceitação da vitória capitalista é a tendencia à união dos partidos de esquerda e direita, fazendo, no fim das contas, uma política baseada em boa administração liberal. É aqui, na conformação da esquerda com a direita, que a gente pode ver como, após a queda do muro de Berlim e dos fracassos comunistas do século passado, a bipolaridade não mais existiu no mainstream da política. É a política sem política (ou, política descafeinada).

      • Adorno e Horckeimer já diziam que absolutamente tudo pode ser apropriado pela indústria cultural. Esse é justamente um dos fatores que me deixa ansiosa a respeito dessa movimentação toda, é uma massa (o termo massa no sentido de grupo numeroso) global se movimentando num mesmo sentido. E quando falamos de muita gente querendo a mesma coisa é muito fácil que isso seja apropriado, assim como a sustentabilidade.
        E capitalismo humano não existe pq o capitalismo não se sustenta sem a desigualdade mesmo que ele se baseie no consumismo e que, para que haja consumo, seja preciso que as pessoas tenham dinheiro. Não adianta dar condições de consumo a toda população do mundo que não vai resolver. Não deu toda essa merda pelo excesso de crédito? A base continuaria a mesma.

  4. Boa!

    Lembro de ter conversado com um amigo meu, ele perguntou o que eu achava que ia dar, eu respondi que não dava pra prever nada, mas que tinha medo de ser protesto de classe-média, que depois de terem os empregos de volta, caminhariam tranquilamente pra casa. Depois de ver o Zizek lá, fiquei mais sério em relação à ocupação, ele tentou já indicar que a luta não é contra os maus bancários ou maus especuladores, mas contra o sistema que tem como consequência toda essa crise, a falta de empregos, etc e etc.

    Não consigo dizer anda, ainda, mas tomara que seja entendido que este protesto naõ pode ser tomado como um protesto ético, contra uma mau ética capitalista e a favor de um capitalismo mais humano. É importante manterem a objetividade dos protestos. Há um inimigo e é o próprio sistema causador de tudo que está acontecendo.

    A marcha contra a corrupção é um exemplo idiota de um protesto de massa sem liderança, sem objetivo, sem inimigo e etc. As pessoas não sabiam o que fazer… Assim como boa parte do 15/10 em SP. Eu moro no ABC, aqui, foi uma espécie de grupo de pivetes entoando gritos de guerra. Em suma, não foi legal.

    Eu, sinceramente, espero que (agora lembrando das comparações com maio de 68) aconteça algo forte, definitivo. Não há um Guy Debord, mas há o mais inesperado: grupos dos EUA contra o capitalismo.

    É isso.

    • Então, em relação a “protestos da classe média”: a massa (aquela massa mesmo de trabalhadores, proletários) nunca foi de se organizar sozinha. Por mais idiota que tenham sido os protestos/marchas contra tudo e todos (incluída a corrupção), eu vejo o começo de uma mudança de perfil da sociedade brasileira, pelo menos. Temos mais de 20 anos de democracia pacífica, com greves aqui, guerras entre traficantes e policiais ali, mas o governo sempre muito bem acomodado na dele, sem correr riscos. O maior escândalo de corrupção da história não fez a população mexer um dedo. E agora eu acho justamente que estão mexendo esse tal dedo. Até mexer o corpo inteiro vai tempo. Por mais entusiasta que possa parecer eu ainda acho que a informação, as diversas formas de interação e discussão permitidas pela internet na esfera pública ainda vão gerar resultados importantes. Nós estamos no processo de aperfeiçoar essa comunicação nessa nova esfera pública para que ela enfim se transforme em demandas sociais reais.

      • Eu tb creio nisso, mas acredito que é necessário mudar o caráter desses protestos/manifestações.

        Por exemplo, não há uma descrição clara de o que ser contra a corrupção, entende? Não há inimigo declarado (pow, nós sabemos que a corrupção é produto de um complexo de acontecimento e etc, não é “em-si”).

        Neste sentido, creio que deve haver a politização dos protestos. É necessário estabelecer contra o que se está lutando e é necessário saber se realmente este é o alvo certo.

        Talvez ainda haja o medo da população em relação aos movimentos partidários, principalmente depois da ascenção do PT e etc, dando o caráter administrativo da política no Brasil…

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