Guest post: Um relato sobre o Movimento dos Indignados de Coimbra

Por Maíra Ouriveis, que prestigiou movimento na mesma linha do “Occupy Wall Street”  em Coimbra. Lá os manifestantes se denominam os “Indignados“.

Segue relato:

Há alguns dias um amigo do Brasil me indagou quanto às dimensões da crise aqui na Europa, queria saber se a mídia brasileira estava aumentando tudo de forma sensacionalista ou se a situação era aquela mesma. Pois a resposta é que de fato a crise aqui está preocupando cada dia mais os europeus e todos os estrangeiros que vivem aqui também.

Faço meu relato baseada na realidade de Portugal, na periferia da Europa, e onde os cortes de benefícios e aumentos de impostos estão sendo cada vez mais brutais. Os salários do setor público sofreram cortes de quase 14%, os gastos com a saúde pública foram limitados a 10%, as horas de trabalho no setor privado foram aumentadas, alguns feriados serão cortados do calendário (o que ainda será discutido com a igreja católica!), itens de alimentação tiveram seus impostos aumentados de 6% para 23% (bem como a energia elétrica) e foi anunciado o corte do 13º e do 14º salários para funcionários públicos e aposentados que ganham acima de mil euros.

Em 12 de março deste ano uma grande manifestação no país contra as medidas austeras que o governo vem tomando para contornar a crise levou meio milhão de pessoas às ruas de Portugal. A manifestação era chamada por um grupo conhecido como “Geração À Rasca”, um grupo apartidário, com participação de diversos movimentos sociais. Estar “à rasca” significa estar por conta, por si só. É assim que estes jovens, nascidos num contexto de Estado de Providência, se sentem: sem o apoio e sem as condições que o Estado deveria garantir.

Neste sábado, 15 de outubro, ocorreu em 80 países o movimento dos Indignados. Uma manifestação mundial, que tendo como carro chefe a agitação do Occupy Wall Street levou as pessoas às ruas, para mostrarem sua indignação frente a situação social e financeira que assombra suas rotinas.

Em Portugal, os protestos aconteceram em 6 cidades. Em Lisboa compareceram 100 mil pessoas, no Porto foram entre 50 a 60 mil. 

Aqui em Coimbra compareceram apenas 400 pessoas, devido ao fato de que muitos se deslocaram do interior para ir protestar nas cidades principais.

O clima era de aflição e insegurança. As mensagens nas placas deixavam transparecer o medo do retorno do fascismo, a revolta com os bancos e os credores das dívidas portuguesas, sugeriam a auto gestão (“sem Estado, sem patrão”) e muitas chamavam a atenção para o fato de que a crise não tem fronteiras geográficas, o mundo está unido nisso. Já em frente a Prefeitura foi organizada uma assembéia popular: microfone aberto a quem quisesse expor suas idéias. E decidiu-se que para dar continuidade à discussão, e fazer o movimento ganhar mais força, outra assembléia será realizada no próximo sábado.Se concentrou na praça da República, e depois seguiu para a frente da Prefeitura, um público bem heterogeneo. Eram principalmente portugueses, latino-americanos e europeus de outros países. Muitos idosos levaram suas placas, e demonstravam verbalmente seu inconformismo com a situação, muitos universitários preocupados com o que os aguarda depois da formação acadêmica e diversas famílias com seus filhos pequenos. No meio da praça foram deixadas canetas, tintas, pincéis, pedaços de papelão, e madeiras para serem usados na construção de placas.

A situação poder ganhar contornos bem mais radicais muito em breve. As principais centrais sindicais portuguesas irão anunciar essa semana o início de uma greve geral. As forças armadas já indicaram que não concordam com as decisões do governo. Nas capitais, muitas pessoas já se enquadram na situação de miséria.

Portugal tem o contexto para seguir o mesmo caminho que a Grécia. Mas ainda vê-se muito a mentalidade de que essas medidas todas são necessárias e inevitáveis. São um sacrifício em nome de um bem maior. Me questiono se estes portugueses acreditam que, passada a crise, Portugal saíra sem ferimentos e amputações, e então eles poderão ter seus benefícios de volta. Ou eles se despem dessa inocência de quem sempre teve o Estado a seu lado e ganham as ruas, ou, como dizia uma das placas da manifestação, se tornam “indignados institucionais”.

Pensamos muito a respeito desse último parágrafo que ela escreve. Sobre os portugueses perceberem que as medidas são necessárias ou inevitáveis. Sempre o capitalismo teve que sacrificar os de classe média e mais pobres para poder sobreviver. É aquela história de socializar o prejuízo dos defeitos inconsertáveis do sistema. Na Europa, em busca de formar a zona do euro, muitos países mais fracos tiveram que sacrificar sua população em prol dessa moeda mais forte, desse mercado comum. Dentro de um arranjo de integração, os países membros são considerados iguais politica ou economicamente, mas é fato que não o são. As diferenças são niveladas por cima, e alguns têm de arcar com certos prejuízos, sem ter a estrutura adequada. Enquanto os especuladores continuam ganhando dinheiro com a crise, a população não consegue dormir pensando na conta de luz, de água que subiram absurdos, no emprego que perdeu, nas crianças que tem que sustentar, etc.

O Estado de bem-estar social não cabe dentro do capitalismo especulativo. É preciso uma alternativa.

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10 pensamentos sobre “Guest post: Um relato sobre o Movimento dos Indignados de Coimbra

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  2. Ora, também me identifico, Mairinha!

    Mas ainda que restem poucas pessoas no movimento em si, dá pra ver que ao redor do mundo a indignação é geral, isso é nítido. Mesmo que esteja sendo/tenha sido rápido, acho que alguma pressão foi feita, e isso é válido.

  3. Li mesmo que o grande desafio seria manter a ocupação com a chegada do inverno, normalmente severo em NY.
    Mas mesmo no ápice da ocupação, eram em média 500 pessoas que dormiam lá, a maioria passava o dia, participava das discussões e manifestações mas retornava pras suas casas.

    Como o Vinícius disse, essa dúvida do capitalismo é bela e válida. Aqui, na Europa, o clima só está esquentando.

    Ainda não perdi a fé, mas não tenho muita esperança também. A frase do Boaventura de Sousa Santos veio a calhar: não sou um pessimista, sou um otimista trágico. Pois bem, me identifico.

    • Mas 500 pessoas é um monte, ainda mais nos EUA. É uma coisa que a gente nunca que ia imaginar acontecer: norte-americanos criticando o capitalismo. Apesar de que era inevitável, como a Fer disse ali embaixo, e me lembra aquela foto que ela postou do Trotski: a revolução é impossível até que se torne inevitável.

      Parece cabalístico, mas não acho que seja o fim ainda não. Mas empolga.

  4. Infelizmente o que tenho lido por aí é que o movimento está se esvaziando. Principalmente em Wall Street. Vi num tuiter aí (@gugachacra) que restaram no máximo 100 pessoas, inclusos os jornalistas.
    Fomos otimistas demais?
    Em todo caso, o movimento foi válido. Acredito que falte alguma ideia nova porque a gente não sabe como pensar senão “capitalisticamente”. Embora a gente saiba e sinta que tá tudo errado e que muita coisa tinha que ser diferente, ninguém tem noção de como fazer as coisas diferentes.

  5. ótimo texto! é hora de enxergar a CRUELDADE do Capitalismo que, em prol do mercado, sacrifica vidas. Parece exagero e romântico, mas não é! Essa movimentação mundial é só o um resultado inevitável.

  6. Como ex estudante de Relações Internacionais, posso afirmar que Fukuyama é um bocó, e que a História está é bem viva!

    Estou muito intrigada com essa onda de revoltas, tenho mesmo esperança de que façam a diferença.

  7. Essa ação, essa dúvida sobre o capitalismo, isso é lindo! A ideologia hegemônica onde o capitalismo havia ganhado suas batalhas, em que a história havia acabado (vide Fukuyama) está sendo rebatida à todo momento. Como o texto explicita, é preciso tomar cuidado com os partidos e grupos fascistas, em situação de crise, eles representam muito bem a classe-média barriguda.

    E o próprio capitalismo democrático está se mostrando como parte do passado, com essa ascensão da China e seu capitalismo autoritário.

    Vlw.

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