A vida em muitas cores

Parte I – “On dirait une fille!”

Por Juliana

Duas crianças com muitas coisas em comum, e outras nem tanto. Ambos com 4 anos, sofrem de asma, são extremamente alérgicos, ansiosos, tem uma sensibilidade incrível para as coisas e para as pessoas, conversadores, artistas cada um à sua maneira, vivem numa família de pai e mãe. Um deles tem uma irmã, o outro é filho único. Um é francês, o outro brasileiro. Ambos adoram os desenhos da Disney, mas não se ligam muito nessa coisa de príncipe, eles gostam mesmo é das princesas, das fadas, gostariam de ser como elas, gostariam de usar seus vestidos, ter os cabelos compridos, dançar como elas dançam e serem assim tão mágicos quanto elas.

A mãe de um deles, assustada e perplexa com as preferências do filho, o que é agravado por sua convivência num ambiente de tradição familiar tanto por parte de seu marido quanto de sua família original evangélica, amando seu filho e aconselhada por pessoas também tradicionais, leva o menino até uma psicóloga. A terapeuta resolve então tratar essa doença horrível que alguns chamam homossexualismo infantil. A culpa toda, segundo ela, seria do pai que não dá a devida atenção ao garoto. O menino começa a ter crises de ansiedade intensas. A mãe tenta tratar com acupuntura, com terapia até se dar conta de que a terapia é que estava lhe deixando mal. É quando ela percebe que é hora de afastá-lo de toda essa hostilidade e preconceito. Ele precisa, mais do que tudo, que ela o apóie e o ame. E é a isso que ela se dedica. Hoje ele tem 10 anos, adora dançar, continua alérgico, sensível, ansioso e a única coisa que seus pais querem, por serem loucos por ele, é que o canal de comunicação entre eles nunca se perca, e que o garoto continue confiando no amor dos seus pais que é incondicional.

O garotinho francês, vez em quando, chegava até sua mãe com um ou dois paninhos nas mãos: “mãe, amarra para mim na cintura e faz uma saia? E esse aqui você põe assim na minha cabeça, quero ter o cabelo comprido que nem o das fadas”. Ele se divertia demais, pulando como se estivesse voando, exercitando seus poderes mágicos. Gostava também de cuidar das bonecas da irmã mais nova e às vezes saía à rua com a sua “filha” nas mãos. Uma senhora, saindo do carro e o vendo ninar a boneca diz: “Uh, on dirait une fille!” (tradução livre: diríamos que é uma menina). O menino não é bobo, ouviu isso e me perguntou: “o que ela disse?”, ao que respondi: “nada de importante”. Ele me entrega a boneca, envergonhado, dizendo: “Acho que tem outros homens dentro do Correio, segura ela pra mim” e se esconde atrás de mim, tímido. Quando ele volta para casa, volta a ser livre como gosta de ser, até que o pai chega do trabalho e o vê com a “saia” e o “cabelo comprido” e lhe diz, gritando, nervoso: “Eu não gosto quando você faz isso, você é homem, homens não vestem saia e não querem ser princesas ou fadas”. O menino nem liga porque sempre que fala que gostaria de ter cabelo comprido a mãe lhe responde: “ué, então por que você não deixa crescer?”. Ela não liga, ela sabe que o ama e diz nervosa ao marido: “Pare de falar isso para ele. Você dizendo que não gosta do que ele faz é o mesmo que lhe dizer que não gosta DELE. Ele é assim e você o ama como ele é!”. O marido, enfim, entende e cai em si. “É meu filho e sou eu que vou protegê-lo e amá-lo”.

Parte II – Uma breve consideração do Desinteligência:

Em setembro, jornais noticiaram a (corajosa) atitude de uma criança identificada biologicamente como sendo do gênero masculino de 10 anos, que resolveu voltar à escola, após as férias, assumindo sua identidade feminina. A criança foi diagnosticada como tendo “distúrbio de gênero”, e a mãe explica que ela é igual a todo mundo, afora o fato de ter nascido num corpo em que não se sente bem. Enfatiza que não se trata de uma fase ou uma escolha, e que aquela era sua filha, indo corajosamente à escola e tentando se ajustar àquilo que considera sua condição natural. A notícia saiu originalmente no jornal Worcester News, com a seguinte manchete: “Girl, 10, trapped in a boy’s body”, traduzindo: “Menina, 10, presa num corpo de menino”. No Brasil, o Terra a reproduziu com a seguinte chamada: “Menino de dez anos surpreende escola ao voltar das férias como menina”. É, acho que muita coisa ainda precisa mudar aqui no nosso país, a começar pelo desespero que temos em querer classificar tudo e todos. O mundo seria bem melhor sem todos esses rótulos de menino, menina, gay, travesti, transexual, lésbica, transgênero, homem lésbico, etc. Em breve esperamos conseguir um guest post sobre não classificar as sexualidades.

Parte III – A ovelha colorida da família

Por Marilia

A semana passada, um jornal publicou uma matéria que me chamou bastante a atenção. Era sobre o blog da autora que se identifica apenas como “CJ’s mom”, uma mãe de um menino, como ela mesma descreve, “levemente afeminado”. Depois de ter visto o filme “Ma Vie en Rose”, de mesma temática, e lido outras matérias sobre o assunto, comecei a refletir bastante e cheguei à conclusão de que a sociedade é muito cruel com crianças que não se encaixam em estereótipos de gênero.

Eu também poderia dizer que tenho um little rainbow na família. Meu irmão de 9 anos é visivelmente bem diferente dos outros meninos de 9 anos que vejo por aí. Eu não acho que tenha nada de errado com ele. Mas todos acham que sim, até mesmo os pais dele. (os parênteses aqui são pra explicar que eu tenho uma dessas famílias modernas onde o pai do meu irmão não é necessariamente meu pai. Dividimos a mesma mãe, apenas). Ele não gosta de futebol, de videogames ou de esportes em geral. Ele gosta de roupas, de livros e de coisas “fofinhas”. E precisa esconder tudo isso de seu pai, ao que minha mãe é conivente. Eu não acho que isso signifique por si só que ele seja ou venha a ser homossexual, existem outras coisas em jogo como, por exemplo, a vontade de se diferenciar ao máximo do pai, com quem ele tem uma relação problemática.

O fato é que o menino vem enfrentando dificuldades na escola, e principalmente para fazer amigos. Nessa idade, as crianças são cruéis, e as meninas ainda resistem a fazer amizade com o sexo oposto. Já os meninos não o entendem, e seus interesses são muito divergentes, o que acaba por minar a maioria das possibilidades de amizade. Fico muito triste com isso. Como moro longe e não posso estar sempre com ele, nos momentos em que ficamos juntos, tento ao máximo mostrar que não há nada de errado com seu modo de ser. E procuro não incentivar ações que eu sei que ele cultiva apenas para se encaixar.

Eu gostaria de dizer pra ele que isso melhora com o tempo, mesmo que ele não entenda. Que um dia ele vai poder ser quem quer que ele seja, gay ou não, sem se importar com o que os outros pensem. Eu gostaria que, caso ele cresça e perceba que sua atração sexual se dirige às pessoas do mesmo sexo, tenha forças para lidar com o preconceito e com as adversidades que esta condição certamente deve impor num país como o nosso.

O fato é que ninguém sabe muito bem como lidar com o caso de crianças que não se encaixam na categoria formal de gênero e sexo. Apesar de todos os avanços e da mente mais aberta das novas gerações, a maioria das famílias ainda incentiva a identificação das crianças com o conceito tradicional de gênero, seja vestindo as meninas de rosa, matriculando os meninos no futebol, incentivando comportamentos machistas ou preconceituosos. Eu vejo isso no dia a dia. Sinto que progredimos a passos muito lentos.

O dilema dos pais é mais complicado. As mães/pais podem optar por não reprimir a criança, deixando-a desenvolver suas preferências sem barreiras e enfrentando as consequências disto (que podem ser bem duras, como mostra o já citado filme “Ma Vie em Rose” – que aliás está recomendadíssimo aqui)  ou reprimi-la por medo de que ela seja infeliz, desajustada, ou sofra preconceito. Ninguém quer que seus filhos sofram, e tampouco é justo reprimir a personalidade alguém, quanto mais de um ser em desenvolvimento. As consequências podem desastrosas e persegui-lo pelo resto da vida.

Quanto a mim, torço e luto pela criminalização da homofobia e para que, no futuro, meninos aprincesados como meu irmão possam ser melhor aceitos pelos seus pares e pela sociedade em geral.

(PS.: Falamos do “Ma Vie en Rose”, e algumas fotos são do ótimo “Breakfast on Pluto”. São tão bons que depois escreveremos um post só sobre filmes com essa temática!)

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4 pensamentos sobre “A vida em muitas cores

  1. Sabe, lendo este post é possível perceber o quanto uma parcela, mesmo que pequena, de nosso grupo social, está incomodada com o naturalmente instituído.
    A discussão sobre gêneros tem dado largos passos academicamente, mas sofremos muito para conseguirmos sair das teorias que tanto debatemos entre “quatro paredes de ouro”.
    Resistir às classificações é tão doído e sabemos que consequências advirão do mesmo modo. Mas não resistimos só por nós. (e que esse “só” não soe como causa menor, ok?!) Resistimos contra toda uma cientificidade instituída, contra toda uma religiosidade idealizada e endeusada, resistimos por toda uma mudança, acreditando que podemos fazer diferente, acreditando que podemos sofrer menos.
    É uma mistura de tantas lutas juntas, de tantos ‘tipos de sujeitos classificados’, que a “sopa de letrinhas”* aumenta, mas permanecemos no mesmo sistema classificatório e heteronormativo.
    Não estou disposta a gerar uma criança e logo após seu nascimento, só porque nasceu com um pênis, me sentir no direito de afirmar que é ‘um menino’. Quero é poder afirmar que é ‘uma criança’…que cuidarei para que seja um/a jovem e que aprenderá a ser um/a adulto/a. Suas características, gostos, afetos e desafetos, prefiro deixar que esta criança ‘descubra’ por si. Estarei por perto, coladinha, sempre que precisar e até pra dar broncas…rs … mostrarei e também aprenderei diversas outras maneiras de viver, como uma arte… mas na vida dessa criança, quem trilhará o caminho é ela, não sozinha, mas nem sempre acompanhada, não?!
    Que minhas e nossas resistências sirvam não apenas para uma luta (e que fique claro que não entro pra perder!), mas que sirvam, especialmente, para mostrar que podemos viver em outra lógica, como vocês mesmas colocaram: em muitas cores!
    *Livro de Regina Facchini

    • É, então, é mesmo uma parcela pequena. Acho que a internet dá a impressão de ter muita gente ligada nisso, mas justamente porque nós nos interessamos por esse assunto que ele chega até nós. Mas vemos que uma grande parcela da nossa sociedade ainda se baseia em preconceitos ligados à gênero, imagina desconstruir o naturalmente instituído na sua fonte? Simplesmente não faz sentido.

      E acho que a questão é tão complicada. Cada palavra é tão carregada de significados e informação. Veja a palavra loira, por exemplo, é, em muitos contextos, sinônimo para pessoa “burra” o que é extremamente carregado de preconceito.

      Difícil pensar em como resignificar e não vejo realmente esperança de que um dia essa desconstrução chegue ao patamar sonhado abrangindo a maioria e não apenas uma parcela da população.

  2. hahahaha…adorei o último parágrafo!
    Eu adorava Barbies, mas colocava uma meia dentro da calcinha pra parecer que tinha um saco. Acho que queria poder. Meu pai e meu irmão eram os poderosos de casa, afinal de contas.

    Você lembra daquela família que não expunha o sexo biológico do bebê para a sociedade para que ele pudesse escolher em qual dos gêneros se encaixaria melhor quando quisesse? Achei uma atitude interessante porque quanto mais neutros formos em relação a esse monte de pressupostos que um gênero carrega, melhor a pessoa/criança vai se sentir na sua própria pele por ser livre para ESCOLHER o que gosta ou o que não gosta e não ser OBRIGADA a gostar ou não de alguma coisa pq menino não usa vestido e menina gosta de brincar de casinha.

  3. Gostei bastante da escolha do título do post, de fato a vida tem tantas cores, e se formos misturando-as descobrimos outras cores, outros tons. ;)

    O que a Marília apontou no final da parte escrita por ela é algo bem complicado. As mães e pais podem deixar a criança desenvolver suas preferências, ou podem ter em relação a isso uma postura repressora. No contexto da nossa sociedade atual, independente de qual for a criação que essa criança tiver, ela enfrentará consequências duras.

    A atitude da “CJ’s mom” é muito importante e corajosa. Expor a situação que ela vive e mostrar a maneira natural que encara tudo isso com certeza ajuda outros pais (e consequentemente, ajuda as crianças) a saberem lidar com essa condição.

    Acho que a questão da identidade sexual, da identificação com o seu gênero biológico, é algo que está começando a ser discutido, e que tem grande relevância nos diálogos em relação a homofobia e em relação a construção da sexualidade do indivíduo. Parabéns pelos relatos.

    Só um comentário mais pessoal sobre a minha infância: as Barbies e as bonecas lá em casa nunca me atraíram muito. Os carrinhos a controle remoto e as bazucas me divertiam muito mais. Até o secador de cabelo de brinquedo que ganhei em um daqueles típicos kits sexistas de presente “pras meninas” perdeu sua função: virou minha arma nas brincadeiras. haha

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