Vão-se os anéis, fica o Ringo

Por Marilia Romão

Pode parecer clichê, mas assim como muitas pessoas da minha geração e de outras, sou uma beatlemaníaca. O primeiro CD (que forma de mídia mais ultrapassada, não?) que eu tive, junto com o primeiro aparelho de som que ganhei aos 8 anos, foi o #1 dos Beatles, recheado de iêiêiês de letra fácil que, preciso reconhecer, me ajudaram muito a aprender inglês. Mais velha, me apaixonei pela genialidade de John Lennon, pela espiritualidade de George Harrisson e pelo talento comercial de Paul McCartney. Mas e Ringo Starr? Qual a característica que o define nesse quarteto tão idolatrado através de gerações?Alguns dizem que Ringo foi apenas alguém que estava no lugar certo, na hora certa. Muitos duvidam de suas habilidades como baterista e poucos falam de seu carisma. Bom, acima de tudo, ele é um Beatle, num mundo onde ser um Beatle é ser praticamente uma divindade. Apesar de desconfiar de estereótipos, as personalidades quase míticas dos quatro garotos mais amados de Liverpool inevitavelmente fizeram com que cada um assumisse um papel ali. John era o gênio selvagem, Paul era o diplomático, George era o introspectivo e Ringo… Era o baterista. Não deve ser fácil se definir diante de milhões e milhões de pessoas que acompanham seus passos o tempo todo. Aliás, o público também os definiu. São inúmeras as lendas que pairam ao redor dos Beatles, e eu amo cada uma delas. Fazem parte do meu imaginário adolescente.O fato é que Ringo pode ter mesmo um grande talento pra ser um complemento. Ele mesmo costuma retrucar aos que o criticam: “Bom, eu sou o baterista da melhor banda do mundo. Então, isso faz de mim o melhor do mundo”. Ele tem seu mérito, reconheçamos. Ele nunca se destacou por letras geniais, melodias geniais, tampouco por brigas ou mal entendidos. Na sua própria banda, a “All-star Band”, ele assume feliz o papel de coadjuvante. Deixa os ótimos músicos que os acompanham darem seu show e mostrarem sua produção própria. Ele está lá atrás, comandando suas baquetas, numa bateria elevada, exatamente como nos tempos de glória.Aliás, quem duvida de que esses não sejam tempos de glória pra esse senhorzinho bem-humorado e desengonçado? Bem diferente dos shows apoteóticos e lendários de Paul, o clima de sua apresentação é intimista, parece que estamos assistindo àqueles joviais senhores tocando numa sala ou garagem qualquer, com gosto, vigor e técnica. Quem é coadjuvante ali é o público.

E Ringo sabe rir de si mesmo. Assumiu inteiramente seu papel, dentro e fora dos Beatles. Sua banda se chama nada menos do que “All Star Band”. Na decoração do palco, vemos uma estrela. Ele ainda descontrai e ri com a plateia: “Am I the greatest?” “Do you know my name?”, desafiando aqueles que o consideram como o mero baterista sem grandes talentos. Não, ele não precisava sair em turnê por aí. A impressão que tive é que ele estava se divertindo ali com alguns amigos. A atmosfera se enche de magia. Algo muito especial está acontecendo naquele palco. Há um Beatle no recinto, e isso é suficiente.

Comparações à parte, confesso que chorei, me emocionei, tremi e sorri vendo Paul tocar. Foi uma experiência única e maravilhosa, parecia estar vivendo a histeria do auge da Beatlemania. No show de Ringo, foi diferente. Me senti envolvida por um clima familiar, mas como se eu mesma fizesse parte de algo especial. Ofuscado ou não, sem personalidade definida ou não… Se ele foi apenas a pessoa que estava no lugar certo e na hora certa, então não dá pra deixar de admirar alguém com esse timing. Long life Ringo.

(Fotos: aquiAqui e aqui)

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2 pensamentos sobre “Vão-se os anéis, fica o Ringo

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