A praga da governabilidade

Li hoje de manhã no jornal um texto sobre o vaivém da Dilma. Lembro daquela imagem montada pra ela de uma mulher forte e tudo mais. A Dilma tem opinião, é verdade. Suas faculdades julgadoras estão intactas. No entanto, a vemos mudando de opinião a cada situação conflituosa no governo. Será que esse vai-e-vem, toma-lá-dá-cá ou como queiram chamar, é tão naturalizado na nossa forma de governar que nem é mais contestado? Não só na forma de governar como nos artifícios para manipular o eleitorado: basta lembrar da questão do aborto durante a campanha. Opiniões se tornam descartáveis, por fim.
Há algum tempo eu achava que qualquer alternativa ao PSDB no governo era válida. E daí entrou o Lula. Com ele, nada mudou, no máximo, os abusos do governo aumentaram – ou ficaram mais aparentes, talvez. Acredito que o governo do PT foi mais condescendente com as heranças coronelistas e ditatoriais do que o governo do FHC. Em nenhum momento vi esforço por parte do PT para afastar a corja sarneyniana, mas, pelo contrário, Sarney se infiltrou ainda mais.

Que a Câmara dos Deputados e o Senado era um prostíbulo a gente já sabia. As nomeações para cargos sempre foram moeda de troca para a chamada governabilidade. No entanto, o que tem aparecido é que essa tal governabilidade anda cada dia mais cara.

Como disse Céli Bermann da USP, Belo Monte é mais uma concessão à roubalheira. A verdade é que ser político aqui no Brasil é sinônimo de: não sofrer mais nada com a justiça – nem sequer levar uma multa de trânsito, por exemplo -, enriquecer de modo ilícito. e ser até mesmo respeitado por isso. Na verdade, a corrupção está tão generalizada que os eleitos não percebem que ela é negativa, que é crime. Ninguém é punido por nada, provas incontestáveis são ignorada – vide o caso do vídeo que incriminava Jaqueline Roriz, do qual já falamos por aqui, inclusive.

O fato é que, a qualquer anúncio de medidas e obras do governo, eu tremo de medo. Caralho, vão fuder a nossa economia. A crise mundial, dizem, só chegará até aqui se afetar a China, mas a corrupção e o desvio de dinheiro público está em patamares tão absurdos que a inflação é agravada pela emissão de dinheiro que sustenta esse sistema criminoso.

As manchetes de jornais anunciam custos exorbitantes, milhões, por obras faraônicas que não farão diferença dramática na vida das pessoas. Como é o caso de Belo Monte e dos estádios da Copa, só para citar alguns. E sabemos que, no final, o custo real será ainda maior do que o anunciado. Não vemos esses números na mídia como dinheiro público, enxergamos apenas mais um número entre tantos. Milhões e milhões perdem seu significado. Parecem fazer parte de uma realidade muito distante da nossa. Dinheiro que poderia ser usado para sanar muitos problemas, e que é perdido em licitações perversas, parcerias pervesas. Dinheiro do qual eu nunca vi um centésimo e provavelmente nunca verei até o final da vida.

A Câmara dos Deputados, o Senado, o poder Executivo, os militares são grandes quadrilhas que dificilmente serão desmanteladas já que os próprios controladores do poder são líderes dessas quadrilhas. Leis com o propósito de extingui-las ou de neutralizar suas ações já são formuladas previamente com “furos” em seus meandros, cuidadosamente calculados para que quem realmente interessa possa escapar.

Mas o texto começou com a Dilma e por quê? Dilma Rousseff tem todo um histórico de lutas contra a Ditadura que eu respeito. Mas sabe como é, o tempo passa, as circunstâncias mudam, as pessoas se transformam, as lutas se modificam, os ideais, para alguns, perdem sentido, o poder corrompe. Dilma foi treinada, preparada por todos esses anos ao lado de Lula para dar continuidade ao trabalho iniciado por ele que, aliás, como mudou também nesses anos todos, não?

Mas ninguém perde tudo o que construiu assim de uma hora pra outra. Aliás, acho que ninguém nunca se modifica por completo. E o que restou daquela Dilma ainda, vira e mexe, manifesta-se, mas acaba sempre sendo abafado por conta das alianças políticas. Ela foi contra o Código Florestal e voltou atrás, contra o sigilo eterno e voltou atrás – estávamos falando de Collor e do dono do Brasil, o Sarney -, defendeu Lupi e voltou atrás. É a perda da dignidade partidária e pessoal pelos contratos políticos.

Anúncios

2 pensamentos sobre “A praga da governabilidade

  1. Será que assim que a pessoa é eleita, as convicções se modificam?
    Eu acho que precisamos de mais radicais, com o perdão do ridículo do termo, para que sobre alguma coisa da sensatez após a passagem pelo filtro da governabilidade.

Comente!!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s