Guest post: “A pele que habito” de Pedro Almodóvar à luz do cuidado de si foucaultiano

Caros leitores,  a seguir publicamos uma análise do filme de Almodóvar que a Cinthia Falchi nos escreveu. Só para introduzir a autora, a Cinthia é formada em Filosofia pela UNESP, mestranda em Filosofia da Educação também pela UNESP e estuda Sexualidades e Erotica em Foucault. 

Alerta: sugerimos que você assista ao filme antes de ler, pois o texto fala do enredo, das discussões, de tudo, então, melhor ver antes, né?

Segue o texto! Boa leitura!

Antes de qualquer coisa, gostaria de salientar que não sou expert em Almodóvar, mas nem por isso deixarei de comentar e dialogar a respeito e a partir de seus trabalhos. Nesta resenha, tratarei de “A pele que habito”, filme que instigou discussões em alguns grupos virtuais e presenciais dos quais faço parte e também entre grupos de amigos.

Li há algum tempo uma crítica sobre o filme baseada no “conhece-te a ti mesmo”. Para o autor da crítica, o filme traz à tona uma discussão foucaultiana e, com base nesse pressuposto, seu argumento  é de que o corpo de Vera traz em si uma assinatura de Vicente, apesar das intensas transformações pelas quais esse corpo passou. Resta em Vera, portanto, uma reminiscência daquilo que antes era Vicente. Achei interessante o ponto de partida desta crítica, mas me senti incomodada no que diz respeito à tal reminiscência e à assinatura. Então, é a partir deste incômodo que escrevo.

É necessário notar que não há uma linearidade cronológica nos acontecimentos. Quer dizer, a pessoa que assiste ao filme está  formulando expectativas durante o próprio ato de assistir, mesmo sabendo que o filme já está pronto. Isto para mim já revela um primeiro ponto a ser discutido: o espectador não está habituado a questionar o que vê, porque está a todo instante esperando certa regularidade de ações. O que é feito neste filme é a ruptura com esta regularidade. Senti aflições durante o começo do filme, incômodos que não necessariamente foram sentidos conforme a história foi se desenvolvendo. E por que não foram sentidos depois? Para mim foi pelo simples fato de eu achar pertinente a discussão que estava sendo levantada pela história. E que discussão é esta afinal?

O que pude notar foi, diferentemente da discussão de uma assinatura que está presente em Vera e que diz respeito a Vicente, uma resistência de Vicente em se tornar a Vera que tanto retalharam até que finalmente tomasse aquela aparência. Esta resistência no sentido foucaultiano tem como base uma discussão kantiana de saída da menoridade: não aceitar ser governado deste modo; desejo de querer sair desta situação, ou melhor, de não querer fazer parte desta ‘condição imposta’. Vicente não esqueceu quem era, pelo contrário, em nenhum momento ele aceitou a modificação que a todo instante tentavam impor a seu corpo.

Somos levados/a a acreditar que Vicente aceita a condição de Vera quando sai para comprar roupas e retorna tranqüilamente à casa. No entanto, ao final do filme, notamos que o vestido que Vicente (como Vera) está usando é o que o faz ser reconhecido como Vicente. Assim, na verdade, é possível, apenas na cena final, nos darmos conta de que todos os acontecimentos anteriores de sexo consentido foram, na realidade, a única maneira encontrada por Vicente para que sua liberdade (termo questionável) pudesse ser retomada. Neste caso, a liberdade é definida por oposição ao cativeiro em que Vicente então vivia.

Outra situação que deixa clara a forte resistência de Vicente é o fato de ele constantemente escrever nas paredes. Ele percebe que estão transformando seu corpo e que isso começa a afetar quem ele gostaria de ser, então cria dispositivos para que possa, no mínimo, recordar. Isso, não no sentido de reminiscência, mas de um não esquecimento traumático (Nietzsche). Através dessa ação, ele procura se lembrar de que continua em busca de um Vicente e que não é necessário se prostrar a aceitar se tornar Vera.

Esta parece ser uma discussão recorrente em Almodóvar: o incômodo da necessidade de se tornar o que alguém quer ou exige que sejamos. Mas, neste caso, neste filme específico, existe uma mudança de estilo. Notei, por exemplo, que Almodóvar retira boa parte das cores quentes. Não acredito que tenha sido ao acaso. As discussões anteriores partiam de uma mudança da heteronormatividade para as “transgressões” das sexualidades periféricas. Quer dizer, antes eu me sentava e assistia a um filme que partia do pressuposto da discussão e do enfrentamento a que eu já estava ou estou habituada. Era a Vera que existia no corpo do Vicente e que a sociedade, a todo instante, tenta modificar com suas retaliações morais, psicologizantes e assim por diante.

A questão é que Almodóvar retira o brilho, a cor forte, a discussão da travesti/transex/transgênero a partir desta concepção homossexual e a transcorre a partir da discussão heterossexual. Assim, vemos um macho, que se pretende masculino e homem, ser modificado em suas orientações e desejos e vontades e gostos. Assistimos Vicente se tornar Vera sem querer, sem ser, sem se sentir Vera. E a conseqüência: a morte. Alguém se indignou com a morte? Alguém discordou de que a morte era uma decisão correta ou necessária para de certa forma compensar o que aconteceu com Vicente? Nós até provavelmente o redimimos do estupro anteriormente perpetrado.

Pois, vejamos, qual é a sensação que temos quando o assunto parte do heteronormativo, não?! Não significa que esta postura não tenha sido heteronormativa, só mostra que, se fosse necessário brigar pelo heteronormativo, a morte seria aceita.

Ok…um tanto ativista, eufórica demais. Concordo! Também esclareço que esta é apenas uma interpretação entre as diversas que o filme pode ter, é apenas a minha. E também uma pequena parcela de tudo o que este filme me proporcionou. Vários outros contextos podem surgir a partir de uma referência. Quanto ao filme “A pele que habito”, vejo muito mais um cuidado de si a partir do não querer ser governado, do que um conhece-te a ti mesmo, a partir do conhecimento pela reminiscência. Não significa que excluo a relação desses conceitos, mas vejo a discussão na perspectiva de utilizá-los de outra maneira.

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6 pensamentos sobre “Guest post: “A pele que habito” de Pedro Almodóvar à luz do cuidado de si foucaultiano

  1. Pingback: Sobre a Marcha contra a Mídia Machista « Desinteligência crônica

    • Obrigada, Deborah!
      É verdade que Almodóvar não deixa claro se houve ou não o estupro. Além disso, embora não tenhamos certeza, existe sim uma situação de abuso sexual, já que ele encosta nela contra sua vontade. E ainda por cima parte do local deixando-a desacordada.

  2. Pingback: A Pele que Habito – alguns textos para análise « Notas Desconexas

  3. Acho que nós não o redimimos porque acreditamos no heteronormativo simplesmente… eu acho que o redimimos porque ele já foi punido pelo crime. E, na nossa lógica cristã e da sociedade também, quando vc recebe uma punição você tem direito ao perdão.

    • Sim! Até porque existe uma relação forte e nítida entre o normativo e a ‘lógica cristã’, como você coloca. O grande incômodo é não nos questionarmos com relação às “redenções” que fazemos, ou deixamos de fazer.
      O contexto cristão, budista, racial, etc., existe. Mas acredito que caiba a nós problematizarmos tais contextos e aceitarmos ou resistirmos a eles, em situações e momentos específicos.

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