Guest post: Crônica “Encontro”

A seguir postamos uma crônica do nosso querido amigo Fabinho.

Uma crônica assim, com algo de nostálgico e meio sambístico, que é  pra dar vontade de voltar pro Rio de Janeiro do século passado, de ler “O Cortiço”, e de ouvir “Chão de Estrelas…” (fikdik, aliás)!

É, caras leitoras e caros leitores, hoje não tem desinteligência, só crônica que é pra vida ficar mais leve!

Boa leitura!

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Enquanto limpa privadas, joga desinfetante e troca as toalhas de papel, conta a história da moça que conheceu na fila da lotérica. Ia fazer um jogo, era sábado à tarde, depois ia jogar uma sinuca do bar do Pedrão, cansado do banheiro do shopping, cansado da filha grávida e o namorado vagabundo. Um jogo, uma aposta, só, nem vontade de ganhar tinha, só cumprir um ritual.

E atrás dele uma moça linda, mulata, cabelos armados, narizinho lindo, lindo, e um sorrizão branco. Encabulado, ele acaba puxando conversa, tempo, jogo, ônibus, dureza da vida. Ela conversa também, animada, e ele cada vez mais enroscado e com vontade de se deixar ficar naquele papo bom e leve. Ela diz que trabalha numa lavanderia, perto do shopping, as grã-finas acham que roupa se lava fora de casa, e pagando uma nota.

Fica com vergonha de dizer que desentope ralo, é pé-rapado, fica enrolando pra não contar nada, louco de vontade de mentir, falar que é bancário, engenheiro e outras bossas do tipo, mas acaba falando a verdade, vermelho. Ela sorri do sorriso sem graça dele, diz que ele fica uma graça envergonhado assim.

“Daí eu vi que ela queria coisa, falar alegre assim depois de saber o que faço e onde eu moro, é mole?”

Lembra de sua filha, do barraquinho, cheio de goteira, e fica sem jeito de chamar ela pra casa, mas onde levar moça assim, nem tem troco pra pagar coisa nenhuma. E ela ali, esperona. Ele propõe, ainda indeciso, alguma coisa pra fazer, passear pela boemia, quem sabe, se conhecer melhor depois da missa.

“E ela, com aquele sorrizão que eu vou te contar, me diz, passa no meu trabalho depois das 6, eu te espero lá, a gente resolve o que faz lá, que você acha? Fica com tempo pra decidir o que quer comigo…”

“Você vai falar que não? Vai falar que não tem dinheiro? Eu, nunca mulher nenhuma falou assim comigo, fiquei doido, me bateu uma coisa besta, um impulso e não resisti e falei pra ela ’Olha só, não te pego no trabalho não, sabe onde eu te pego? Na rodoviária, a gente vai pra onde você quiser, e muda de vida e arruma tudo de novo, que você acha?’ ”

Depois disso ela ficou quieta, parou de falar, mas ainda assim, fez o jogo dela, quieta, deu um beijinho no rosto e foi embora, sorrindo alegre. O limpador ficou na dúvida, quem sabe ela vai pensar, quem sabe vai pedir demissão, quem sabe? Quem sabe?

No dia combinado ele apareceu no trabalho dela, mala na mão, um sorriso largo, colocou até um terno velho que tinha, perfumado, barba feita, todo alegre, com dinheiro do fundo de garantia que conseguira num arranjo, com uma desculpinha pra filha e pro namorado, e o barraco ao deus-dará, mas indo viver a melhor vida com a mulata dos sonhos.

Quem sabe, não viu ela, não viu ninguém, e até hoje espera a mulata, jogando duas vezes por dia, na mesma lotérica, no mesmo jogo, voltou pro velho trabalho, metade do salário de antes, mas contente de quase fazer merda por mulher. E outro dia ganhou R$ 300,00 no jogo repetido.

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Um pensamento sobre “Guest post: Crônica “Encontro”

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