Carta à Marcela, que me roubou o livro

Por Marilia Romão

Marcela,

Essa carta é para dizer que nunca me esquecerei de você, mas talvez não pelos motivos certos. Filha da inspetora da escola…inevitável lembrar como todos tinham receio de entoar gozações contra a filha da inspetora. Gordinha na infância, desabrochou linda para a adolescência. Rosto harmonioso, pele perfeita, e ainda por cima, sabia tocar violão e jogar futebol. Nós, pobres meninas do interior criadas no catecismo e no balé, morríamos de inveja de seus acordes e seus passes perfeitos no campo. Tinha uma alegria invejável. Nessa época, desenvolvemos uma superficial amizade, e ainda me lembro de quando você me apresentou as músicas daquele moço que você adorava, um tal Chico Buarque, por quem eu também me apaixonaria tardiamente.

Eu, ainda bonita, porém um tanto quanto soturna, admirava sua alegria de viver e a simplicidade com que parecia encarar tudo. Eu era um poço de pessimismo, e você, um raio de sol. Entre todos os tipos de brigas e intrigas infantis que se dão entre turmas de meninas adolescentes, trocávamos então alguns interesses. Entre aquelas garotas interioranas cheias de idéias conservadoras e sonhos medíocres, você sempre foi a mais interessante. Até hoje, não consigo entender qual o seu lugar no meio delas e fico te imaginando a tomar café numa sala rebuscada, debatendo as doenças dos filhos e repassando maldosamente as fofocas da cidade com elas, e ainda a acho totalmente fora de lugar. Sua alegria não combina com tudo aquilo.

Logo nossos efusivos debates musicais evoluíram para o campo literário. Falávamos de clássicos que havíamos lido e um dia tocamos no nome de Gabriel García Marquez, uma de minhas paixões livrescas mais avassaladoras. Inebriada por sua exaltação à literatura (e convenhamos – numa cidade interiorana de cultura pobre como a que nascemos, é difícil encontrar quem se refira à literatura sem tocar nos Paulos Coelhos e no campo perverso das obras biográficas e de autoajuda), quebrei um dos meus princípios mais importantes – não emprestar livros. E no encontro seguinte, lá estava eu com meu exemplar de “Cem Anos de Solidão”, a mim presenteado por meu avô morto anos antes, nas mãos. E te entreguei alegremente, confiante de que debateríamos nossas impressões sobre ele depois.

Pois bem, isso nunca aconteceu. E você também nunca me emprestou seus discos do Chico. Mais uma das intrigas e briguinhas infantis e nos separamos em turmas opostas. Deus! Como isso é cafona. Chega a ser ridículo. O tempo passou, fomos para a faculdade, mudamos de cidade e de amigos, mas eu nunca te esqueci. Marcela, você tem algo meu e isso te faz especial e talvez um pouco malquista nas minhas lembranças juvenis.

Meu livro – Cem Anos de Solidão. A capa velha, quase desintegrando, branca, com uma mão turca e alguns desenhos rudimentares a enfeitá-la. Uma dedicatória que alguém fez a meu avô na contracapa. O traço caprichoso, não lembro qual o ano que o registro indicava, talvez 1976, talvez 1987, quem é que sabe além de você? Me apaixonei por aquele livro como me apaixonei por poucos. Quando o emprestei, ainda estava contagiada pelo mundo mágico descrito por Gabo. Macondo, um mundo onírico povoado de Aurelianos, José Arcadios, Remedios e Rebecas. Mais tarde, comprei outro exemplar. Uma edição recente e fria, com as páginas tristemente brancas, sem marcas do tempo ou dedicatórias obscuras. A magia da história, no entanto, continua intacta.

Marcela, talvez eu deva te agradecer. Não tivesse você me roubado o livro e ele não seria assim tão especial pra mim. Por muito tempo quis relê-lo sem o ter e, quando finalmente o fiz, o deslumbre foi maior ainda. O seu furto o tornou ainda mais valioso na minha memorabilia. Me sinto ainda (a moça do felicidade clandestina), que de repente se surpreende ao ter o que já era seu. Dentro de mim, ainda sinto o cheiro daquelas páginas amareladas pelo tempo.

Eu só gostaria de dizer que eu espero sinceramente que você o tenha lido com alma. Saboreado cada página, cada capítulo do modo como eu saboreei. Nosso debate sobre a obra, é claro, nunca há de acontecer. Sem ressentimentos, a única coisa que me deixaria triste seria saber que, depois de todos esses anos, você o estaria guardando empoeirado numa estante qualquer. Já que o furto está consumado, eu espero que você seja tão apaixonada pela obra quanto eu sou.

Marcela, obrigada. Obrigada por ter roubado meu livro favorito e por o ter transformado em algo ainda mais especial no meu imaginário literário. Quem sabe se não é esse mesmo o destino adequado para os livros? Conhecer diversas estantes e povoar diversas mentes com os delírios que registram? Quem sabe um dia você o empreste para uma garota interessada e alegre, e nunca mais o tenha de volta? Marcela, obrigada.

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