Da garoa paulistana à cadência do samba carioca

Como esse blog anda mais pra Crônica ultimamente, resolvemos aproveitar nossas atividades de férias pra postar aqui algumas impressões. No melhor estilo redação escolar de começo de ano, os dois próximos posts falam de duas visitas distintas ao Rio de Janeiro.

Cada uma das autoras relata suas percepções deste lugar que continua lindo!

O primeiro texto é de autoria de Juliana, boas férias!

O afã todo de ir ao Rio de Janeiro pela primeira vez na vida aos 24 anos. A tristeza de que seria somente por um dia. Iria passar 12 horas inteiras de um domingo trancada numa sala fazendo uma prova, a remota possibilidade de me mudar para o Rio sem nem o ter conhecido.

Foi logo no ônibus que o Rio me aqueceu, na forma de um velhinho simpático com o seu casaco enorme. Velhinho que eu tinha usado como piada sem ele saber algumas horas antes de que, gentilmente, ele me oferecesse aquele cobertor em forma de casaco, pois fazia 5 graus celsius dentro daquela geladeira móvel cheia de gente. Chegando no Rio às 2h da madrugada ele ainda quis me ajudar, mas não tinha muito o que ser feito. Ele parecia o Gepetto do Pinocchio. O nariz boludo, o bigode branco e a simpatia.

Cheguei no Rio e peguei um táxi até a casa do meu amigo. O guarda da rua perguntou, naquele sotaque todo cantado: “Qual o número, senhora?”. Lá eles não chamam ninguém de “moça”, é tudo senhora. Falei qual era e ele: “É esse aí meishmo, senhora.” Prédio lindo! Daqueles antigos com adereços dourados. Entrei, dei um abraço no Marcelo, explorei o apartamento e dormi.

No dia seguinte saímos cedo. O Marcelo foi logo me apontando uma montanha: “olha ali, estamos no sovaco do Cristo”.  O Cristo Redentor minúsculo que, daquele tamanho, não traria redenção alguma. Fomos então para a Hadock Lobo e eu comecei a cantar: “Hadock Lobo esquina com Matoso” e ele: “Olha só, a Rua do Matoso fica logo ali!”. Lá estava eu, já contabilizando o segundo acontecimento poético do dia em menos de uma hora, na famosa esquina cantada por Tim Maia. Foi lá que toda a confusão começou: a do Erasmo, do Roberto, do Jorge Ben, a minha.

A Candelária foi a parada número um. De lá para o CCBB. O Paço Imperial e a ironia da Praça XV logo em frente, Rio de Janeiro sambando na cara dos monarquistas do século XIX. A Cinelândia, o Odéon, a Biblioteca, o Teatro Municipal, o bar Verdinho. Tudo muito lindo. A arquitetura antiga, tudo reformado e brilhando. De lá fomos para Copacabana. Atravessamos Botafogo e mais não sei que praias, pois não conheço o Rio e chegamos.

O sol tinha dado o ar da graça a manhã toda. Foi botar o pé na areia e ele sumiu. A praia mesmo assim continuava cheia. Afundei, extasiada, meus dedos na areia. Estendi a canga, sentamos e ficamos lá, tomando cerveja e sentindo o cheiro do mar. De lá, no caminho para o Arpoador, dei um abraço no Dorival Caymmi. Praia de Ipanema. O dia já se apagava e a luminosidade era linda. A praia bem mais vazia e nós dois ali sentados, cada um na sua própria introspecção.

No dia seguinte, durante a prova fiquei vendo lá do 8º andar algumas muitas pessoas que visitavam o CCBB. Lá de cima vi minha irmã, o namorado, o amigo. Ficaram ali por algumas horas e depois sumiram. Saindo do prédio, encontrei com eles no Paço Imperial. Tinha ali umas 3 baterias juntas que surgiram assim, do nada, e pessoas fantasiadas. Eu, porque na sala da prova fazia -10ºC (notem o amor que os cariocas sentem pelo ar condicionado, mesmo que para suportá-lo tenham que se encher de roupa) estava fantasiada de paulistana: all star, calça skinny, blusinha. Mas tinha mais agustinianas disfarçadas de cariocas por lá, cruzamos algumas delas fazendo piruetas na exposição da Índia.

De lá para Sélaron. Uma festa de azulejos coloridos. A Lapa, a esquina da capa do disco do Cazuza, o bar e o caldinho de feijão. Subimos a eterna escada de Sélaron, mais umas ladeiras e caminhando por Santa Teresa vimos outros sambas no meio das ruas, os bares atarracados de gente mesmo com a chuva que não cessava de cair. Quase escorreguei várias vezes nos trilhos do falecido bonde. Cariocas contando histórias e histórias, são cheios delas, não? A luz da noite que iluminava os paralelepípedos molhados de Santa Teresa deixava tudo mais lindo ainda. Mais boêmio, mais carioca e cheio de samba.

Tive que ir embora já cedo. O doido motorista do ônibus esqueceu de me falar o ponto onde descer e foi uma confusão só para chegar de volta até o marco inicial da confusão, Hadock Lobo esquina com Matoso. Peguei as coisas e parti.

Rio: o urbano, bem urbano, com o mar, a natureza difícil de ser modificada. A limpeza dos prédios antigos reformados com a ampla sujeira das ruas. A riqueza dos prédios da orla de Ipanema com os morros e favelas. O sotaque descolado e livre, malandro e a polícia em cada esquina. Rio, uma contra dicção.

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6 pensamentos sobre “Da garoa paulistana à cadência do samba carioca

  1. “Fantasiada de paulistana” é ótimo.
    Me sinto assim em qualquer lugar que eu visito.
    Parece que temos, mesmo, uma fantasia… Só de olhar o pessoal sabe que viemos daqui.

    No mais, eu digo: samba juliana!

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