Meia noite (de Reveillón) no Rio de Janeiro

A segunda edição do “Minhas férias no Rio de Janeiro”. Deliciem-se!

O texto é da Marilia.

O Rio de Janeiro continua lindo. O Rio de Janeiro continua sendo.

Ou, pelo menos, pra mim, continuava. Continuava a ser um símbolo máximo de brasilidade, colorido, tropicálico, caldeirônico, culturalmente rico e misturado, como deveria.

Com a dualidade das favelas (mesmo que pacificadas – segundo alguns, higienizadas – seja lá como prefiram chamar) e da riqueza da zona sul expostas, a lendária ostentação do Copacabana Palace, o barulho das ruas, tudo isso coroado por uma visão maravilhosa da baía de Guanabara, aquela mesma que o antropólogo Lévi Strauss detestou porque lhe parecia uma boca banguela.

Mas eis que então eu acato a idéia, à primeira vista brilhante, de passar a virada de ano novo na praia de Copacabana – Superbacana, tudo em Copacabana! – Por que não? Nada no bolso ou nas mãos, só arrastando meu corpo cheio de champanhe barata pela praia. É claro que calculei a muvuca, os apuros, os apertos. Mas pensei que valeria a pena estar lá, naquele lugar, naquele dia, vivendo aquilo, ver de perto o espetáculo pirotécnico que por tantos anos eu contemplei monotonamente na televisão enquanto cumprimentava familiares distantes e famintos em alguma festa na casa de uma tia, prima ou cunhada. Quis ver de perto o que por tantos anos foi decoração.

De repente comecei a entender o ódio à globalização que alguns acadêmicos alimentam por aí. Ou não sei, talvez eu que tivesse deixado que São Paulo se entranhasse em mim além da conta. Entre a euforia de chegar, descansar e cansar-se novamente, o programa noturno recomendado por anfitriões e pessoas aleatórias em geral era – vejam só – uma balada de rock alternativo. Espere! Não é isso o que faço em todos os finais de semana? Me enfiar em algum buraco sujo, com o som alto gritando todos os hits indies do momento? Ok, é. Mas tentamos. De qualquer forma, seria um lugar novo, então engoli as utopias sambísticas e lá vamos nós. Pela extensa fila que nos fez desistir, percebi que essa minha utopia era compartilhada por pouquíssimas pessoas. E durante a tarde, havíamos passeado em Santa Teresa. Ver os resquícios da tragédia com o bonde me tocou. Meu olhar admirado passeava pelos botecos e lojinhas de suvenires enquanto procurávamos o que comer, famintos. De repente me vi sentada em um restaurante alemão. Alemão. Eu só queria uma feijoada com samba, meu deus.

E aí eu tive uma epifania. Um dos melhores filmes que eu tinha visto no ano. Woody Allen, meia noite em Paris. Sentia na pele o dilema de Will Pender, tomando notas escondido, tentando se encaixar, tentando corresponder, até desistir.

Quis parar em alguma esquina da Avenida Atlântica e esperar um Fusca, um Monza, qualquer carro antigo e classudo saído diretamente dos anos 1970, quem sabe 1980, pra me levar. Me levar pro Rio do Cartola, do Chico, até mesmo do Cazuza. Ir ao baixo Leblon, vê-lo cantando em cima de uma mesa. Quem sabe pararíamos pra ver um show dos Mutantes no teatro Tereza Rachel. Comer uma pizza no Diagonal. Ir de festa em festa, de roda em roda. Desce a frei caneca olerê, sobe a carioca, olará. E depois, me levariam ao Buraco Quente e eu iria aprender a sambar. Coisa que, aliás, nunca fiz e ainda assim tenho saudade de fazer.

Pensando mais além, não é essa a essência do viajante? Se misturar. Deixar que o lugar tome conta dele. Internalizar. Sentir a história do lugar seja ela triste ou feliz, com todas as suas nuanças e contradições. No caso do Rio, seriam contra dicções, como bem definiu a Ju, fazendo um trocadilho com aquele sotaque que foi beber da malandragem (ou seria o contrário?). Afinal, é isso que diferencia o viajante do turista.

O turista busca se identificar. Encontrar no local estrangeiro referências familiares a ele. Se reconhecer, usufruir de toda a estrutura que foi pensada para recebe-lo e fazê-lo sentir-se em casa. O viajante busca mesclar-se com o local, sair de sua zona de conforto e influência. E eu, cabeça dura desde criancinha, tenho uma descarada preferência por este último. Afinal, toda viagem é uma tentativa de sair de uma bolha, romper com a rotina, se perder pra voltar a se encontrar (peço as devidas desculpas pelo clichê).

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