O caso Pinheirinho e outras questões desimportantes

Mais, um dia
Nóis nem pode se alembrá
Veio os homi c’as ferramentas
O dono mandô derrubá

Este é mais um texto de indignação contra a invasão do Pinheirinho pela PM, mas ainda é muito pouco.

Queria ter palavras pra descrever o que senti quando finalmente entendi o caso Pinheirinho. Infelizmente, não tenho. E também não encontro explicação. Então já adianto que este texto estará cheio de perguntas sem respostas, cheio de questões que surgiram e surgem na minha cabeça sobre esse horrível acontecimento e mais tantos outros similares.

Em primeiro lugar: gostaria de entender qual o sentido de tirar milhares de pessoas das suas casas em nome de uma “reintegração de posse”. Esse termo não me diz nada. Segundo a mídia oficial, as primeiras famílias se instalaram lá há oito anos. Oito anos se passaram sem que a posse fosse exigida, e sem que o governo se preocupasse com a qualidade da moradia desse pessoal. Então por que agora? Será que a especulação imobiliária é mais importante na formação do país do que o seu próprio povo?

Imagina se alguém viesse e te dissesse que você não pode morar na sua casa. Tudo que você construiu durantes anos a fio. Alguém viesse e dissesse que você simplesmente não pode estar lá, depois de tanto tempo. Será mesmo que essas pessoas são criminosas, que se apoderaram do bem alheio?

Em segundo lugar: eu gostaria de saber por que a Polícia Militar tem sido utilizada para servir a interesses particulares. Quem mantém a polícia pagando impostos? Eu, você, e todo o pessoal do Pinheirinho também. Ou será que o tal Naji Nahás (ou melhor dizendo: Nazi Nahás) comprou a polícia? Quem fará a reintegração de posse da polícia ao povo? Afinal, a Polícia Militar deveria nos dar segurança, certo? Mas quem é que se sente seguro com esses homens por perto? Não é de hoje que a PM vem demonstrando truculência no trato com o povo. O caso da ocupação da USP e da cracolândia não me deixam mentir. Basta dar qualquer busca no Google para comprovar. E não adianta argumentar que os estudantes estavam errados ou que os dependentes de crack não merecem respeito, afora todas as discussões que possam surgir, há indícios claros que a própria PM age contra as leis que deveria ajudar a resguardar.

Naji Nahás deve milhões ao governo e aquela terra se tornaria pagamento da dívida. Foi preso com Daniel Dantas como ladrão, criminoso, estelionatário. Causou prejuízos ao Brasil. Domingo, retomaram terras de um criminoso e colocaram crianças e famílias nas ruas. Isso é simplesmente injustificável.

Em terceiro lugar, lembro-me sempre da História da independência do Haiti. Calma, que logo vocês vão entender. O Haiti, um país pobre lá da América Central, foi colonizado pela França e boa parte de seu povo foi escravizado. O Haiti também foi um dos primeiros países da América a obter a independência. No entanto, até hoje é conhecido pela sua extrema pobreza. Após a gloriosa revolta que trouxe a independência, o país acabou se desorganizando e a mentalidade de que trabalhar era coisa de escravos se fortaleceu, acentuando diversos problemas que já existiam. E assim criou-se um círculo vicioso muito difícil de ser quebrado. Gostaria de entender porque é que grande parte do povo brasileiro não se encara como povo. Não consegue se ver na situação dos moradores do Pinheirinho. Somos milhares saindo da pobreza somente agora, após dezenas de anos na mesma situação. Não seria burrice negar o que já fomos? Não seria estupidez achar que o chamado “povo miúdo” não deve ser respeitado? A economia pode se beneficiar da especulação imobiliária, mas grande parte desse povo é que vem mantendo o ritmo deslumbrante dessa mesma economia.

O que separa cada um de nós de um morador da favela, do Pinheirinho? O que nos faz melhores do que um usuário de crack? Por que nos sentimos no direito de classificar as outras pessoas como invisíveis? Apenas porque elas não podem manter um padrão econômico semelhante ao nosso?  O fato é que não existe consciência coletiva no Brasil. Cada um/a, desde o usuário de crack morador de rua até o empresário da classe alta morador fazem parte de um mesmo povo. No entanto, alguns fatores, como, por exemplo, ganhar um pouco a mais, ter uma casa, um carro, ou um iPhone pra postar bobagem no Instagram, dar check-in em lojas, bares e restaurantes hypados, já faz com que alguns se coloquem numa posição superior e desejem desesperadamente desfazer todo e qualquer laço anterior que indique um modo de vida diferente ao que se acostumaram.

A classe média do Brasil tem crescido. Mas o que vemos são novos ricos sem consciência de povo, de nação. A classe alta prefere pagar seus impostos e financiar a corrupção, reclamar com seus pares em restaurantes caros sobre como o PT é corrupto a se juntar com quem está disposto a lutar contra essa corrupção porque não quer se misturar. Pobreza no Brasil parece doença, se ficar perto, pega. Enquanto continuarmos assim nesse liberal-individualismo nunca nada vai mudar.

E a cada vez que eu ouço a pergunta “É esse o país que vai sediar a Copa?” eu tenho mais certeza da vergonha que o brasileiro tem de ser povo. E eu guardo a esperança de que uma nação inteira não seja condenada por uma série de vaidades fúteis. Culturalmente compreensíveis, porém ainda fúteis.

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