Insano São Paulo

São, São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor

Tom Zé – São São Paulo

Duas horas e meia para chegar em casa após o trabalho. Um trajeto que normalmente seria percorrido em trinta minutos. A cidade repleta de carros e ônibus faria qualquer um imaginar que haveria diversos caminhos onde ninguém caminha. Mas a realidade é oposta. Naquele mar de carros e ônibus, também há um mar de gente disposta a caminhar uma, duas horas para evitar o maldito trânsito e a lentidão que compromete o emprego, atrasa a vida. As pessoas em São Paulo estão sempre atrasadas. Não é por falta de planejamento, pois não há como se programar numa cidade tão grande como essa. Os imprevistos são inúmeros e constantes. Alguém que calcule 1 hora de trajeto para chegar a tempo no trabalho, de repente pode ser surpreendido com um dia leve e sem trânsito. Mas é mero acaso, um acontecimento como esse é raríssimo em dias normais. A sensação é parecida com a de achar dinheiro na rua – mistérios da sorte. A verdade é que, mesmo levando em conta os imprevistos, uma pessoa pode ganhar muito tempo ou perdê-lo por completo. São cálculos complicadíssimos de aprender, e não há uma fórmula pronta.

Os ônibus enormes, bi-articulados, monstruosos, com capacidade para levar mais de 100 pessoas em seu interior, contrastam com incontáveis carros vazios que se movimentam pelas largas avenidas de São Paulo. É preciso olhar bem, procurar minuciosamente para encontrar um carro que leve mais de uma pessoa no seu interior.

O verão em São Paulo é previsível. As chuvas torrenciais começam no fim de janeiro, início de fevereiro. E o mais interessante é o horário do dia em que costumam cair: entre 17h e 18h. O momento exato em que aquela massa enorme de pessoas perdidas sai de seus escritórios e entra em seus carros. Mas grande parte dessa massa ainda procura o ponto de ônibus ou estação de metrô mais próximos. Acabamos nos acostumando a tomar chuva nas pernas, a conviver com carros jogando água nos pedestres sem dó e a ficar 2 horas presos no trânsito por conta das chuvas. Mas essa calamidade inevitável irrita, estressa. Queremos explodir o mundo quando presos no trânsito, mas no dia seguinte, lá estamos, de mochila nas costas, prontos para mais um dia. Convencemo-nos de que é preciso, mas sabemos que isso não é verdade, que não precisaríamos nos submeter a isso.

É raro ver um paulistano que não carregue um guarda-chuva na mochila. Sim, mochila, porque uma parte considerável da população leva diariamente a vida dentro de uma mochila. Como já disse, São Paulo é cheia de imprevistos. É preciso estar provido de certos itens básicos para enfrentá-los.

A classe média é personagem principal desse teatro de maravilhas e horrores. Os salários são altos, mas vão embora em pouco tempo. Difícil é achar um paulistano que não esteja endividado. Mas paulistanos vivem de aparência. Querem consumir, querem ter, mesmo sem poder. O que importa é mostrar aos colegas aquilo que não poderiam ter, mas dão um jeito de comprar, alimentando a ilusão de uma vida com sentido. As noites são caras, mas as pessoas não se importam em gastar horrores justamente para provar que podem, mesmo sem possuir. O dinheiro do paulistano é uma ilusão (como qualquer outro, afinal). O importante é conseguir mostrar que de alguma forma se diferenciam daquilo que chamam de “povão”. Desprezam quem é mais simples, quem está onde eles/as já estiveram.

Os imóveis são caros. Os bares são caros. A cerveja, o ônibus, o táxi, o metrô, o cinema, os teatros, as baladas, os shows, meu deus, os shows! Como são caros… O dinheiro não vale nada. Que paradoxo. E sempre, sempre haverá uma multidão disposta a pagar qualquer preço que os interessados fixarem, porque o nosso dinheiro compra uma imagem e ponto. O consumismo é duramente hiperbólico.

A desigualdade social também. Os moradores da periferia, os meninos e as meninas de rua, os usuários e as usuárias de crack, os mendigos e as mendigas que perambulam por bairros repletos de mansões verticais que são erguidas sem cessar em vários pontos da cidade. A cidade, por si só, tem seus mecanismos perversos para selecionar seus habitantes. Manda pra fora aqueles que não têm como pagar a ilusão com ilusão, manda para longe, para a periferia. Mas eles são teimosos e voltam todos os dias, porque aqui é a terra da (falsa) oportunidade. Porque, num desses impropérios proferidos por representantes da classe média a gente escuta: “sem os nordestinos em São Paulo quem é que iria limpar a sua casa?”. Pois é, alguém precisa fazer o trabalho “sujo” – conceito absurdo! – é preciso que limpem sua casa, seu escritório, desentupam sua privada, consertem defeitos elétricos. Eles vêm lá de longe, Guaianases, São Mateus, Itaquera, Grajaú, Brasilândia, Diadema, Osasco. Eles vêm trabalhar por alguma ilusão. Levam duas, três horas, mas chegam. Há os que, cansados de ir e voltar, ficam. Mas ficam na rua, pois não tem dinheiro para bancar o caro aluguel de espeluncas super valorizadas.

Paulistanos e paulistanas são sim, sozinhos. Têm amigos também. Mas não têm muito tempo para eles. A vida é tão agitada e tão cheia de afazeres que não há tempo de cultivar amizades verdadeiras. Não há tempo para nada e há cansaço para tudo. E todos se entendem nessa dificuldade. A cidade é tão grande que não importa que não se vejam nunca, a amizade está lá, ela existe. No aniversário, nas ocasiões especiais, fazemos um esforço a mais para comparecer. Colegas só existem no trabalho, na faculdade. Não há como aprofundar um relacionamento por aqui, apenas com aquela pessoa que pode ser seu namorado ou sua namorada. Paulistanos e paulistanas que não são solteiros/as tem como companhia única seus companheiros/as de sexo garantido e de amor compartilhado. Para os outros, normalmente, não sobra tempo.

Nós, paulistanas e paulistanos, fazemos tanta coisa ao mesmo tempo, corremos tanto, que às vezes, esquecemos de pensar  no porque vivemos. E nesse esquecimento, emendamos um dia no outro de forma que, quando menos esperamos, já não há mais dias, já não há mais tempo. A vida se foi, as pessoas se afastaram e lá estamos, a sós conosco mesmos/as. Paulistanos e paulistanas, apesar de tudo, por passarem tanto tempo consigo mesmos, aprendem e sabem se amar e amar a solidão do outro como se fosse a sua própria.

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3 pensamentos sobre “Insano São Paulo

  1. “Paulistanos e paulistanas são sim, sozinhos. […] Paulistanos e paulistanas que não são solteiros/as tem como companhia única seus companheiros/as de sexo garantido e de amor compartilhado.” – Não é que isso faz todo o sentido?! É meu dilema existencial! Torço para um dia me acostumar, vai ser melhor assim… Lembro a canção: “desilusão, desilusããããão, danço eu, dança você, na dança da solidão…” Autoria me escapou, agora… Beijos

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