Notas sobre o caos

Post para ser lido ao som de: http://www.rainymood.com/ 

Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo

São São Paulo – Tom Zé

***

Chorar no ônibus, pra mim, é quase um hobby. Algo um tanto quanto inevitável, já que quando viajo para o interior passo 4 horas sentada, ouvindo música, lendo, e pensando na vida. Aliás, a viagem de ônibus anda meio esquecida, coitada. Com essa tal de ascensão da classe média, todo mundo pode comprar carro com o IPI reduzido ou arrematar facilmente uma passagem área através de um site de descontos e dividir em seis vezes sem juros. Quer saber? Eu acho é que todo mundo tem um medo danado de ficar sozinho consigo mesmo. Sentado, pensando. Por horas.

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Deixo São Paulo com chuva, às 18h de uma sexta-feira. O trânsito se transfigura em paisagem na minha imaginação. Completa a paisagem um céu de matrix, sempre avermelhado, uma cor que fica entre o fúcsia e o mostarda, se fosse possível definir. Acho incrível que eu tenha me acostumado tanto com a falta de céu. São Paulo parece sempre estar envolta numa névoa. E cá pra nós, eu tenho certeza que essa névoa deve ser composta por partículas especiais que fazem com que o tempo passe de um modo diferente. É incrível como sempre parece que acabei de chegar, forasteira do interior que sou. Ora me sinto uma bandeirante aventureira, ora me sinto um membro especial de um grupo muito seleto. Mais estrangeira no lugar que no momento, pra citar Caetano (que também menciona São Paulo como túmulo do Samba, mas isso é uma outra história).

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Insano São Paulo. São Paula. Paulada. Lâmpada na cara. Acampamento na poética esquina também cantada pelo mano Caetano, nos lembrando de que existem diversas cidades dentro da cidade dentro da cidade. Olha lá a Matrix de novo. E depois ainda dizem que São Tomé das Letras é que abriga passagens para outros mundos. Aqui, se você quiser caminhar em outros mundos, basta abrir um pouco os olhos e escolher a esquina certa pra dobrar.

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Todos os dias, acordo cedo, coloco o pão na torradeira, escolho meio a esmo a roupa pra sair. Não há despertador mais eficiente do que a 23 de Maio congestionada, que vem me presentear com uma aguda sensação de urgência antes mesmo que eu tenha aberto meus olhos por completo. Abro a janela e lá estão os monstros de lata a buzinar e buzinar. Como não se cansam? São Paulo é se acostumar ao atraso, e por isso também se acostumar a planejar. Mas como é que se planeja uma epifania?

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Todo mundo vem em busca do sucesso. Mas o sucesso anda muito concorrido. O pobrezinho não aguenta mais tanto processo seletivo, já preencheu quase todas as vagas que restavam. Até ele, que é tão multitarefa, anda achando que esse mundo é muita informação pra digerir. Por fim, todo mundo se conforma à vida que se tem pra levar, cheia de juros de cheque especial, aparências, pisões no pé, alguns sonhos escondidos entre uma e outra hora de trabalho ou de amor.

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Durante a semana aquele calor poluído, sujo. É difícil respirar. Mas todos os dias cai a chuva do fim da tarde. Chuva de verão, rápida, ácida, intensa e devastadora. Todos os anos as mesmas calamidades, as mesmas tragédias, na mesma época do ano, e nada é feito, como se fosse impossível prever a natureza que se repete a cada ano.

“São Paulo é uma calamidade
Eu disse: chuva!
Inundou a cidade” (Giovani Baffô)

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É fim de semana e a chuva não cessa. É bloco de carnaval molhado na rua, é gente que se programou e queria desistir de tudo por conta da chuva. Mas São Paulo, nos primeiros meses do ano é pura chuva, fazer o quê? Desistir da vida? Não dá.

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O fato é que não há lugar tão inspirador quanto São Paulo. Não se enganem, essa Nova Iorque dos trópicos inspira poesia tão inesperada e intensamente quanto inspira revolta com seus contrastes. É preciso entender a ordem secreta que existe no caos, os códigos misteriosos nas entrelinhas desse cotidiano aparentemente sem sentido. São Paulo simplesmente não se esgota.

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4 pensamentos sobre “Notas sobre o caos

  1. O isolamento anda um pouco esquecido, né? saiu uma matéria hoje na carta capital sobre a obsessão de trabalhar em grupo, por exemplo. O isolamento também é necessário e acho que isso ficou um pouco esquecido.

    Carol, obrigada :)

  2. “São Paulo é se acostumar ao atraso, e por isso também se acostumar a planejar. Mas como é que se planeja uma epifania?”

    Obrigada por essa frase…

    Lindo texto… já chorei muito em ônibus, indo e voltando… como não?! Ainda mais sendo eu chorona manteigosa desde os 5… ou 3… sei lá…

  3. Não se esgota, mas talvez nos esgote … pode até ser que nem tudo tenha seu fim mas nós, reles mortais, temos não?!

    “Quer saber? Eu acho é que todo mundo tem um medo danado de ficar sozinho consigo mesmo. Sentado, pensando. Por horas.”
    – Desespero era falar em público? Não querido/a terapeuta, tenho desespero mesmo quando noto que estou sozinho/a e sem acesso ao meu facebook!

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