Carnaval, Pinheirinho e a teoria de Roberto da Matta

Hoje li uma notícia que me deixou chocada: o comandante da polícia que esteve à frente da invasão do Pinheirinho foi condecorado. Um assassino, sanguinário, mandante de um massacre, foi condecorado e mesmo que não declaradamente, louvado pelos seus atos de crueldade.

Temos observado como bandidos e corruptos tem sido repetidamente coroados nos últimos tempos. Por exemplo: Dirceu e Delúbio Soares há alguns meses foram ovacionados por militantes do PT numa das reuniões do partido. Mesmo sendo eles também militantes do PT, surpreende-me que uma massa de pessoas minimamente politizadas – pois fazem parte de um partido político – possam, simplesmente, passar por cima de todas as acusações e provas contra estes dois e os louvem por… pelo que mesmo?

Ano passado peguei um livro do Roberto da Matta para ler chamado “Carnavais, malandros e heróis” (link pra baixar o livro). No capítulo III, intitulado “Carnaval de igualdade e hierarquia”, Da Matta compara o Carnaval do Brasil com o dos Estados Unidos, em Vew Orleans. As diferenças são diversas, mas quero chamar atenção para a questão da inversão presente no Carnaval brasileiro e inexistente no Carnival norte-americano.

A sociedade americana é uma sociedade individualista, marcada pela ideologia igualitária nos âmbitos político, econômico, moral, social. Isso não quer dizer que a sociedade seja homogênea, mas que a igualdade é um ideal compartilhado por cada indivíduo lá presente. O indivíduo é por si só um “representante de toda humanidade” e deve ser tratado como tal. Nesse contexto social, o Carnival de New Orleans, estudado pelo autor, é um carnaval aristocrático. Quebra-se a igualdade presente na sociedade, e os tão iguais se tornam diferenciados numa hierarquização que é encenada nas festividades. Para maiores detalhes é melhor ler o livro.

No Brasil, porém, o indivíduo não é um todo, ele é uma parte. Como escreve da Matta: “Em nosso sistema, então, tudo parece estar realmente parado e seguindo o próprio ritmo. Enquanto a fábrica acorda, os boêmios começam a dormir; e, enquanto muitos trabalham, alguns podem, – precisamente por isso – gozar da liberdade do próprio trabalho. […] É, na realidade, uma surpresa tremenda para muitos descobrir que o mundo individualizado em que vivem deve sua existência a uma ideologia que é coletivamente mantida. Raros são os momentos em que percebemos o poder e o peso da totalidade com sua rede de ultradeterminações.” (DA MATTA, p. 159, 160). Um desses momentos é justamente durante o Carnaval.

O Carnaval aqui no Brasil é o momento da bagunça, um momento sem leis, um momento livre. Uma época em que as regras são modificadas e as pessoas podem se expressar livremente. No entanto, durante todo o ano os mais pobres sofrem e ralam enquanto a classe média e alta usufrui das vantagens de ter dinheiro, no Carnaval, a situação se inverte. “Os membros das escolas de samba sabem que são pretos e pobres (a maioria é parte do enorme mercado de trabalho marginal do Rio de Janeiro), mas estão altamente conscientes do fato de que nos seus ensaios e durante o carnaval são eles os “doutores”, os “professores”. Com essa possibilidade, podem inverter sua posição na estrutura social, compensando sua inferioridade social e econômica, com uma visível e indiscutível superioridade carnavalesca. Essa superioridade se manifesta no modo ‘instintivo’ de dançar o samba que o senso comum brasileiro considera um privilégio inato da ‘raça negra’ como categoria social.” (p. 167)

O carnaval é o momento de coroar o malandro de quebrar a hierarquização que reina durante todo o resto do ano. Essa sociedade fortemente hierarquizada está intimamente ligada ao rito do “sabe com quem está falando?”. Rito autoritário que coloca o indivíduo “no seu devido lugar”. “Aqui cada um já sabe o seu lugar (ou melhor: cada qual busca sempre estar no lugar social adequado), o que significa que o princípio da hierarquia é sempre aplicado, pois o maior temor social no Brasil é o de estar fora de lugar, estar deslocado.” (p. 171). A ordem das coisas mantida por todos/as, tem uma quebra temporária durante as festividades carnavalescas. Após o Carnaval, porém, tudo volta a seu lugar.

Agora retomando o caso narrado no primeiro parágrafo, a inversão de valores manifestada na condecoração do comandante do massacre somente perpetua a hierarquização da sociedade que ignora o valor das pessoas e condecora aquelas que já estão muito bem alocadas no topo da pirâmide. A condecoração de uma pessoa que comanda um massacre manifesta uma profunda inversão de valores. O princípio é o mesmo, embora as pessoas – o malandro e o comandante sanguinário – não possam ser colocados no mesmo patamar. Não analiso as pessoas – o malandro e o comandante, mas a situação de confusão. Chamo a atenção aqui para o fato de que tudo está fora do seu lugar, a falta de clareza em relação ao que deveria ser exaltado e ao que é de fato.  O Carnaval é uma ilusão e a condecoração desse policial a poucos dias do evento demonstra o sadismo implícito no sistema em que vivemos, capaz de premiar com prestígio e honras esse comandante, em nome da manutenção da hierarquia da sociedade brasileira. Quem está no topo, portanto, deixa claro para todos/as nós que está lá para ficar.

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Um pensamento sobre “Carnaval, Pinheirinho e a teoria de Roberto da Matta

  1. E não seria essa condecoração, uma demonstração de que a propriedade privada ainda é a lei/norma?

    O Estado detém o monopólio da violência, tudo que faz é pelo bem da ordem social, e tudo que é feito contra, é digno de repressão, logo, a atuação em pinheirinho é a expressão de seguir de maneira correta as normas sociais e a própria lei. Devolver a propriedade para seu dono (entre aspas, né?) não é somente uma desapropriação pelo direito do dono, mas é uma representação da própria democracia liberal.

    A propriedade é protegida pelo Estado, conforme Locke proferia, e somente este é o trabalho legítimo do Estado. Entretanto, isso se mostra como poder de repressão, afinal, não é só reapropriação, mas também desocupação de uma classe com menor poder político.

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