Fabulário do Cotidiano: sobre a saudade e a nostalgia

“Se fosse possível rasgar e jogar fora o passado, como o rascunho de uma carta ou de um livro. Mas fica sempre aí, manchando a cópia passada a limpo, e eu acho que isso é o verdadeiro futuro.” (Julio Cortázar)

Ser acometida pela nostalgia é estar no meio de uma viagem e encontrar moedas de chocolate à venda num posto de beira de estrada. Moedas de chocolate, junto com pastilhas de cor pastel e mini chiclets, doces que representam minha infância. Um tempo feliz, porém muito triste. Eu sabia que acabaria. E sabia que, com seu fim, eu finalmente poderia soltar algumas amarras que me machucavam e me prendiam a situações e pessoas que, de algum modo, eu previa que não fariam mais sentido.

Mas apesar de libertadora, essa constatação inconsciente não deixava de ser triste. É triste, de repente, se dar conta que aquilo que se cultivou não faz mais sentido. Amizades, relações, coleções de bonecas. Simplesmente, perdem sua função na dinâmica da nossa vida. O que foi que me mudou? Desde quando eu comecei a pensar desse modo? Porque tanta impaciência? É como se o cotidiano dessa cidade que um dia conheci tão bem se transfigurasse num sonho. Às vezes, num pesadelo. As orações escritas num papel amarelado, as receitas trabalhosas , as pessoas com quem pensei compartilhar a história de uma vida inteira. Voltam, gravitam em torno de mim.

Em alguma época, eu fui muito feliz nesse meu lugar no espaço-tempo. Mas não, não consigo encontrar sentido. A sabedoria que se adquire com os atos consumados não permite volta. Não permite esquecimento. Fica tudo amarelado pelo tempo, de algumas lembranças a gente até muda a cor para que fiquem mais bonitas. Todo mundo precisa de um pouco de poesia. Seja recordando fatos que aconteceram de outro modo, seja aplicando um filtro poético numa foto digital. Com a maturidade, as apostas ficam mais altas. Os sonhos se tornam mais perigosos. O risco, a dor que vem da falta de sentido é maior e mais amarga. Talvez esse seja o sentido. Sentir saudade e deixar que o tempo teça sua poesia silenciosa feita de fragmentos da nossa vida.

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Um pensamento sobre “Fabulário do Cotidiano: sobre a saudade e a nostalgia

  1. Sem nostalgia não dá pra viver. O que seria de nós se não tivéssemos como consolo um passado imaginado que fosse bom? Já que a realidade é tão chata. E o passado que não é o imaginado é tão ruim quanto a realidade, uma vez que ele também já foi realidade. Se tivermos sorte, a nostalgia cuida de transformar o que foi ruim nos tempos de antes numa lembrança boa.

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