Libertas tamen…

O melhor de Minas são os mineiros. Foi essa minhha constatação depois de nove dias na terra do queijo e da cachaça. Posso até ter tido a impressão errada, ou melhor, a impressão primeira que eles mesmos tentam passar. Em todo caso, a sensação que ficou foi a de que eles são uns amores, e é isso que quero guardar.

Cheguei em Confins no aeroporto e logo de cara já houve um conflito de dialetos. Mineiros me parecem tão calmos e tranquilos que até acham desnecessário falar as palavras inteiras. “Cent” é centro e eu tive que pensar uns 3 segundos para entender o que a mulher da banca de informações me dizia.

Belo Horizonte é uma graça (essa foto aí do lado é do Museu Inimá de Paula na Rua da Bahia, perto de onde ficamos), com seu caos de cidade grande sim, principalmente em relação aos motoristas que são extremamente descuidados e fazem o que bem entendem. É que lá a “CET” é empresa particular e não pode multar, então imagina. BH foi a terceira capital do Estado de Minas Gerais, a que deu certo. Com algumas ladeiras sim, mas estava mais pra Perdizes do que para o terror que nos tinham botado dizendo que o Estado só era feito de morros. Mas os morros estão por toda parte, é verdade, as paisagens nas estradas são incríveis. Bem diferente das daqui de São Paulo.

Logo no primeiro bar em que sentamos, esses simpáticos mineiros já nos abraçaram. No boteco sem ter onde sentar, fomos convidadas a desfrutar da companhia de um cara que estava sozinho. Ao sairmos a mesa já estava composta por 8 pessoas. Alguns deles sambistas, o que fez a conversa ser muito agradável. BH é mais barato que São Paulo e o dinheiro rende mais. E bem, a cachaça mineira que aqui custa 8 reais a dose, lá é 3.

O Mercado Central é uma tentação constante. Dá vontade de comprar tudo. E em vez da gente experimentar frutas as mais diversas como acontece no mercadão em São Paulo, nós degustamos cachaças as mais diversas. Daí já dá pra imaginar o resultado. Saímos do Mercado um tanto quanto cambaleantes com queijos, doces e cachaças penduradas por todos os lados.

Ah, é bom deixar registrado aqui o quanto nos deliciamos com as escolhas gastronômicas do meu irmão. Uma comida aparentemente comum – arroz, bife e taioba – nos surpreendeu enormemente. Saímos de lá com a certeza de que comeríamos muito bem em solos mineiros.

Ah, Inhotim… um mundo à parte. As plantas de todos os tamanhos, de todas as cores, de todos os jeitos. A arte contemporânea surpreendente, comum, interessante, inimaginável. Só indo até lá pra entender. Experiência única na vida. Impressionante demais. A gente tem a impressão de estar num planeta de ETs. Aquela árvore suspensa (essa aí do lado) me deixou extasiada. A galeria da Adriana Varejão é insana, dentro e fora. No Galpão Cardiff & Miller, Janet contando seu sonho. Coisa de doido. Crianças amputadas, máquinas de moer gatos, sangue. Este é pra se escutar com os olhos fechados. Acho que um dia ainda faço um texto só sobre Inhotim porque são sensações demais pra se resumir em um só parágrafo. Inhotim é surreal…irreal até.
Em BH, andamos pela Praça da Liberdade à noite. O tempo que à tarde estava extremamente quente fica suave à noite. Uma brisa fresca e confortável passava pelos nossos rostos. Uma delícia!

De lá, partimos para Ouro Preto. Uma surpresa boa! Foi aí que finalmente entendemos a paciência do mineiro. As ladeiras são realmente assustadoras. Para se chegar a algum lugar é preciso ter calma, muita calma. É necessário subir a passos lentos. Mas ao menos por lá há muito o que contemplar. Ouro Preto é dourada, antiga, religiosa, linda.

São igrejas para todos os lados, em todos os picos. Uma virada pra outra, uma de costas pra outra. Numa cidade daquele tamanho me pergunto como que aquele monte de igrejas ficava cheio durante as missas. Ainda mais porque boa parte da população na época era formada de escravos e eles tinham seus próprios templos porque não podiam participar das missas dos brancos. Curiosa essa latente contradição. O Jesus Cristo de Ouro Preto soube escolher muito bem quem ele quis amar no seu amor incondicional e sem acepção de pessoas. Escolheu os brancos ricos. A matriz da cidade, a Igreja do Pilar, é ornamentada com mais de 400 quilos de ouro. Não muito longe dali, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos contrasta com sua simplicidade. Libertas quae sera tamen…é sacanagem essa frase da bandeira, né não? Como se conquistar a liberdade, mesmo que tardia, compensasse os séculos de escravidão. Mas enfim…

Dentro das Igrejas existe um degrau que separava os ricos dos pobres. Obviamente que a parte dos ricos era menor e mais estreita, já demonstrando que a desigualdade social sempre esteve presente aqui no Brasil, ainda mais numa sociedade escravista. O mais curioso é que até mesmo na Igreja dos pretos existe a tal separação. Já deixando também escancarado o racismo com que vivemos até hoje, entre negros, entre brancos, entre pardos, etc (que não dá pra resumir o Brasil IBGEmente em 5 etnias).
Aleijadinho era o artista-mor. Suas obras estão em todos os cantos, sempre aquelas carinhas de anjinhos nos fitando por onde quer que andemos.

Ouro Preto ganhou esse nome porque o ouro de lá era encontrado junto com o ferro. Vi um pedaço do minério pesado marcado por alguns pontinhos de ouro. Ouro Preto porque além do ouro encontrado com esse ferro, tinha outro ouro preto que à época era escravizado (mas essa utilização do nome é coisa minha). E é claro que existem várias minas visitáveis por lá. Escolhemos a Mina da Passagem que fica no caminho para Mariana. Um carrinho nos levou a 120 metros de profundidade. Antes, levava a mais de 300, mas isso não é mais possível e por um motivo lindo! A água do lençol freático subiu e inundou boa parte da mina, agora a parte inundada é só para mergulhadores. Imagina que lindo deve ser!

Antes, porém de visitarmos a mina, passamos o dia em Mariana. A cidade é bem menor, as ladeiras menos íngremes do que as de Ouro Preto. E esta foi a primeira capital do Estado de Minas Gerais. O nome da cidade foi dado em homenagem à esposa do rei Dom João V a pedido dele mesmo. Sua esposa se chamava Dona Maria Ana da Áustria. Claro que a cidade para mim não poderia ser mais poética. Mariana é o nome da minha irmã mais velha e o meu nome, escolha dela, veio de uma inspiração que ela teve do próprio nome. Um pouco egocêntrico, mas uma coisa linda de irmã mais velha. Ela tinha 4 anos quando nasci. Foi lá que encontrei uma pedra transparente, foi de lá que minha irmã, há mais de 15 anos, me trouxe uma pedra bem parecida como lembrança da cidade.

Mariana é pequena, lenta. E Drummond latejando na minha mente: “Um burro anda devagar, um cachorro anda devagar, devagar as janelas olham… Eta vida besta, meu Deus”.

Mariana também tem igrejas, muitas. Há mesmo uma praça em que duas igrejas ficam juntinhas, uma ao lado da outra. Imagina se não era uma competição entre os corais naquela época. O mais surpreendente da cidade é a catedral da Sé. Ela é torta! Sim, torta, aberta. Imagine uma pessoa com os braços abertos aos céus como se louvasse a alguém, ou como se recebesse gotas de chuva no rosto, pois bem, as pilastras da igreja são assim, abertas assim: \o/. Entendeu?

Voltando para Ouro Preto, no sábado fomos aproveitar nossa última noite. Aquela lua…e só faltou um conhaque. Ficamos comovidas como o diabo, olhando o céu, as estrelas, a paisagem. Deitadas na cama com a janela aberta lembramos que no dia seguinte seria hora de partir. Despedimo-nos da cidade abraçadas com o alento do vento frio que passava pelo quarto.

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8 pensamentos sobre “Libertas tamen…

  1. Esses dias foram mágicos e reais. Planejar e conseguir executar esse trajeto foi encantador.
    Inhotin carece de espaço próprio mesmo…carece de todo um texto com minúcias, melhor: carece ser visitado!
    A Praça da Liberdade estava repleta de jovens com violões e casais apaixonados.
    Saber que pudemos dar uma voltinha e já nos deparamos com todo esse mundo tão distinto para nós, acho que isso foi o que mais me marcou.
    A companhia não poderia ter sido melhor e como primeira viagem vejo que acertamos na escolha!

  2. Amei o texto! Minas é apaixonante, principalmente porque nasci lá. De verdade gosto muito dessa terrinha. Moro no Paraná ….muito raramente vou a Minas. Fui com 02 anos para Maringá no Paraná e perdi o contato com esta encantadora terra.
    Meus parentes estão lá e as vezes passamos por lá. hehehe.

  3. Delícia!
    Eu também já tinha essa quedinha por Minas porque a família da minha mãe é de lá.

    Obrigada pela dica, vou botar Sete Lagoas no roteiro. Ainda tem o sul de Minas Gerais pra conhecer. São João del Rey, Tiradentes, etc.

  4. Amei o texto !

    Tive a sensação de estar lá.
    Minas é realmente fascinante, sou suspeita em falar, pois minha família toda é de lá, e sempre que posso; faço uma visitinha (que não é nenhum sacrifício) rs
    Só não citou Sete Lagoas =(que é perto de Ouro Preto, da próxima vez dê uma passadinha lá…hehehe…vai se ancantar tbm (garanto!).

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