A óbvia insensatez do Metrô

Aquele mar de pessoas andando pelas ruas. Há quantas horas já estariam caminhando? Duas? Três? Irremediavelmente a situação me remeteu aos cegos de José Saramago, tão ingênuos e tão… cegos. No fatídico dia da greve no metrô, houve quem tenha afirmado que caminhou cinco horas e tudo isso pela insensatez dos metr… opa, espere! Antes de continuar, voltemos um pouco no tempo.

Não conheço todos os estágios das negociações entre o Sindicato dos Metroviários e o governo do estado liderado por Geraldo Alckmin juntamente com o Metrô (a empresa que possui concessões do governo para administrar o metrô), o que conheço bem são as panes e acidentes constantes que tem ocorrido nas linhas de trem da CPTM e nas linhas de metrô. Todos sabem falar e esbravejar: a malha ferroviária da cidade é insuficiente, só dá problema, os trens são lotados, a tarifa é cara, a porcaria do governo não investe e blablabla. Curioso me parece que quando alguém finalmente resolve exigir que o governo faça alguma coisa, esse alguém – ou alguéns – é profundamente odiado por todos. Contraditório?

O Sindicato havia anunciado a greve há uma semana e não se falou mais nisso. De todas as diversas pautas colocadas em discussão (algumas delas são: condições melhores de trabalho evitando que o sucateamento do metrô e do trem ofereçam risco de vida aos trabalhadores e aos usuários, vale refeição e alimentação para os trabalhadores, pagamento da participação em resultados de forma igualitária não privilegiando altas chefias, aumento da malha ferroviária, etc.), a mídia só chamou atenção para o pedido de aumento de salário, obviamente. Li por aí: “estes parasitas só querem ganhar mais e trabalhar menos.”

As propostas foram feitas, negadas pelo Metrô. As propostas do Metrô, negadas pelos sindicalistas. Negociações são assim mesmo. Até que chegou o dia da greve. O provável caos era fácil de prever e, por conta disto, para não prejudicar os usuários, os metroviários propuseram ao Metrô que liberasse a catraca e eles trabalhariam normalmente. Mais uma vez o Metrô negou.

E agora voltamos às pessoas revoltadas caminhando por cinco horas nas ruas. E chamamos a atenção à mídia, notadamente Estadão e Folha, que não colocaram a proposta dos trabalhadores de liberar as catracas justamente porque seria uma excelente oportunidade de colocar os usuários em pé de guerra contra os metroviários. E deu tudo certo! Geraldo Alckmin na sua característica declaração elitista afirma que este “grupelho irresponsável” não cumpriu a ordem judicial que tornava a greve ilegal. Oh, espere novamente, quem foi que há alguns meses simplesmente ignorou uma determinação judicial do governo federal e expulsou 16 mil pessoas de suas casas, destruindo essas mesmas casas, em São José dos Campos

E os gritos da manchetes do jornal Metro de hoje é: Insensatez. Insensatez de quem? Do governo e do Metrô, não é? Deve ser disso que estão falando. Mas obviamente que não. Enfim, o caos foi grande sim. As pessoas correm riscos nos seus trabalhos quando não chegam, sim. Mas caminhar 5 horas?!?! Se o seu dia de trabalho é de 8 horas, querido, neste dia você trabalhou 13. Você acha mesmo que está tudo certo e que você precisa ter esse desespero todo para ir ao trabalho? Alguma semelhança com o trabalho fabril e escravo?

Sei lá. Sinto ódio contra não sei definir bem o quê. O meu ódio é contra a ignorância e a falta de reflexão da população, mas não contra a população diretamente, porque ela não está acostumada a refletir. Tenho ódio de que todo essa artimanha entre mídia, governo e Metrô tenha dado tão certo. E não sei nem como terminar o texto.

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