Conto: Leila, uma história qualquer

Faz um tempo que eu e a Marilia escrevemos esta história juntas. Era para mandar para um concurso de uma revista. Mandamos até, mas nem foi publicado. Como gostamos bastante dele, resolvemos compartilhar aqui. Boa leitura!

“What do you do  when you get lonely and nobody’s waiting by your side?” – Layla, Eric Clapton

Muitas mulheres já passaram pela minha vida. Meninas, moças, mulheres. Possuí algumas delas. Desejei várias. Desejei e amei intensamente só uma, essa que amo ainda. Gosto de mulheres pelo que elas são, pelo seu corpo, pelas suas curvas, pelos seus trejeitos, pela sua feminilidade, pela forma de pensar e de ver as coisas. Toda e qualquer mulher tem um toque feminino, é só prestar atenção. Não é feminilidade ao se mover, ao chorar, aquilo bem lugar-comum, é toda a sensibilidade adquirida por ter sido construída socialmente como mulher, por ter o interior inquieto e intenso como as mulheres costumam ter.

As histórias de todas elas são diversas. Há as que são frágeis demais. Aquelas que são excessivamente fortes. Há ainda as que se mostram tão determinadas e prontas a enfrentar qualquer monstro que lhes apareça, mas de repente, desmancham. E há as que parecem tão quebradiças, mas sabem tomar postura quando necessário.

Conheci Leila da forma mais comum possível: ela depilava minha virilha e minhas pernas uma vez por mês. A força dos braços em cada puxão já demonstrava uma tremenda força interior. Força essa que se manifestava também na memória infalível. A agenda cheia de clientes, das mais variadas personalidades e características pubianas, e ainda assim, no nosso segundo encontro, quase dois meses depois do primeiro, ela me diz: você vai depilar como da primeira vez? E falou em detalhes como havia sido a depilação. Olhei para ela surpresa e ela disse simplesmente: “- é, eu tenho uma memória boa”. Perguntei se ela já tinha usado esse dom para ganhar dinheiro. Respondeu-me: “-ah, ninguém gosta de jogar baralho comigo, eu conto as cartas”.

Fugida de casa aos 15 anos, ela veio para São Paulo para escapar do tédio e da miséria da cidade onde vivia, uma diminuta cidadela no interior da Bahia. Foi o que ela me disse, mas do que mais teria fugido Leila? Não tive coragem de perguntar. Foi só quando pôs os pés em São Paulo e conseguiu se ajeitar, só Deus saberá como, é que resolveu ligar para a mãe para finalmente dizer onde estava. Esta entrou em choque, chorou por dias a fio, mas depois entendeu. Já enxergara na filha a determinação que ela mesma não tivera ao aceitar se submeter aos excessos do marido, às dificuldades da vida. Mas no seu tempo seria difícil demais mudar, as circunstâncias eram outras e, por isso, ela tomou a incômoda decisão de ficar tranqüila.

Leila começou a trabalhar e trabalhou muito. Todos os dias. Trabalhava como garçonete à noite e no salão durante o dia. Dia e noite, incessantemente. O corpo reclamava, a febre vinha, a menstruação atrasava. Mas em sua cabeça havia o medo constante de “perder-se”, e se ela parasse, tinha certeza de que acabaria por pegar um caminho errado. E nesse ímpeto de ganhar a vida, de chegar a um objetivo final, mantendo a visão permanentemente fixa num só foco, conseguiu comprar sua casa aos 21 anos, num bairro afastado. Sua casa, porém. Um lugar no mundo.

Mas a memória implacável de Leila era qualidade e defeito ao mesmo tempo. Como quase tudo nessa vida, tinha dois lados. Guardava a lembrança de cada gesto, expressão e palavra das pessoas. Ofensas para sempre conservadas pesavam em seu coração. Leila fugiu de casa aos 15, mantendo frescas lembranças de infância que a mente da maioria das pessoas costuma esconder numa caixa fechada nos cantos obscuros do subconsciente. A então menina precisou ir pra longe a fim de conseguir amar a família. Sabia que aconteceria quando a saudade viesse invariavelmente bater à porta. Sentia tanto a falta de todos lá da cidadezinha da sua infância! Quando voltava à Bahia para visitar os seus, porém, todas as mágoas voltavam a atormentar sua já exausta mente. Mas era só pegar o avião e voltar para a maior metrópole do Brasil que o amor aflorava novamente. Amores de ausência, recordações mais amenas, porque imaginadas. Percebia que a tal cidadezinha estava em qualquer lugar do seu coração, mas jamais na Bahia.

Já acostumada a estar sempre distante das pessoas por não conseguir esquecer pequenas e grandes chateações, São Paulo se tornara para ela o lugar perfeito, porque permitia misturar solidão, anonimato, amor imaginário e nuances da vida de retirante. E assim, foi tirando mais e mais vida da própria força. Sociável que era, construía diversos relacionamentos, mas por dentro continuava só. Havia uma ponte muito difícil de ser projetada entre sua essência e a essência dos outros. Achou que era hora de conseguir sua própria família, já que casa existia. Teve medo. Sabia que com esta também não conseguiria evitar construir barreiras e se desgostar. Mas afinal, toda família sempre terá seus problemas, amenizava, falando consigo mesma.

Casou-se, teve um menino, continuou sobrevivendo. Mas era curioso como ainda carregava aquela mesma latente solidão. Mãe, trabalhadora, sobrevivente, retirante. Como podia enfrentar tanta coisa, e não conseguir encarar a si mesma? Era capaz de carregar a Bahia nas costas, mas não a sua própria história. Era mais fácil ser todos e todas do que ser uma só.

Aos poucos ia compreendendo que a infalível memória seria seu eterno algoz. Que não se libertaria de certas lembranças. Da maioria delas, na realidade. Marido e filho, trabalho e amor. Era uma completude incompleta. Então entendeu que sua sina era ser para sempre retirante. Retirar-se-ia da sua vida interior e se tornaria uma formiga, a trabalhar conjuntamente com outros, porém sempre mantendo a distância secreta em relação a todos e todas como lhe era peculiar. Como se estivesse fugindo ainda, precisava continuar se defendendo. Em fugir estava o sentido da vida. O caminho errado, no entanto, agora era outro. Não podendo conviver com seus rancores e nem alimentá-los, tomou a incômoda decisão de ficar indiferentemente tranquila. E eu continuei visitando Leila uma vez por mês, talvez buscando inspiração para as minhas próprias fugas. Leila, uma história qualquer.

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