Sobre a Marcha contra a Mídia Machista

Neste sábado participei da Marcha contra a mídia machista aqui em São Paulo. Cheguei um pouco atrasada e de longe vi a Praça das Bicicletas cheia de gente, algumas com umas bandeiras que, a princípio, pensei serem do PSTU. Quase fui embora, mas vi que eram, na verdade, de um Coletivo Antifascista que apoiava o movimento. Eles entregaram uns panfletos para explicar o movimento e achei bem estranho dizerem que skinheads eram contra a mídia machista, contra o racismo e homofobia. Achei isso bem contraditório apesar de ter lido há poucos dias num blog skinhead, sobre uma linha do movimento que não é ligada à ideologia nazi-fascista. Agora resolvi pesquisar um pouco mais sobre os skinheads e descobri que na sua fundação, eles realmente nada tinham a ver com o movimento nazista. O grupo surgiu na década de 1960 no Reino Unido e reunia brancos e negros com afinidades musicais, mas alguns subgrupos demonstravam sim certo desprezo em relação a paquistaneses e asiáticos. Porém, em seu início, o movimento skinhead não aceitava o racismo contra negros, pois, como disse, muitos integrantes eram negros. Foi a partir da década de 1970 que o movimento skinhead se dividiu em milhares de subgrupos e os que mais chamavam atenção estavam ligados ao neonazismo e promoviam a xenofobia, homofobia, racismo, dentre outros (mais informações aqui).

Eu na Marcha! :)

Eu na Marcha! :)

Mas voltemos à marcha. Dos mais de mil confirmados no evento do Facebook, acho que apenas umas 200 pessoas compareceram. Esse é um movimento normal das ações coletivas organizadas pela internet, ainda mais numa sociedade tão heterogênea e desigual como a brasileira. As realidades sociais aqui são tão diferentes e isso acaba dificultando uma luta centrada, voltada para um mesmo objetivo. Ainda mais quando são ações (des)organizadas, isto é, ações que não contam com o apelo demagógico de um líder (por exemplo, o Paulinho da Força Sindical) e que lutam por algo que, para uma parcela significativa da população, não é um problema real. Sim, o machismo não é percebido por muita gente mesmo, dá para notar isso numa conversa de bar, nas piadas que endossam a cultura do estupro e que muitas pessoas teimam em dizer “mas é só uma piada”, no clássico “o Brasil é um país pacífico, sem preconceito, racismo, sem machismo”. Durante a marcha ouvi pelo menos umas cinco pessoas gritarem de suas motos, carros ou da calçada: “vão trabalhar!”. E isso demonstra que parte da população enxerga o machismo como frescura de feministas. Vemos como é difícil conseguir o apoio do trabalhador da periferia para um movimento global, por exemplo. Alguém consegue imaginar o povo que mora na periferia ali ocupando o Anhangabaú? Não, porque estamos ainda inseridos na luta diária pela sobrevivência. E há que se pensar em como dar de comer à criança, como solucionar os problemas mais palpáveis do dia-a-dia. Portanto, os problemas financeiros globais não nos interessam, ficam em segundo plano. Mas isso é assunto para outro post.

Iniciamos a marcha e fomos até o MASP e nos deparamos com uma multidão vestida de branco, com a palavra PAZ escrita com tinta branca nos rostos da maioria. Não sabíamos, mas ao mesmo tempo ocorria ali uma manifestação da Igreja Adventista pela paz. E nós ali, gritando palavras de ordem, declarávamos a GUERRA contra a sociedade que incentiva e endosse a cultura do estupro.  Enquanto não houver mudança, não, nós não queremos paz.

Na ida até o MASP paramos em frente à loja Marisa como protesto pelo último comercial colocado em circulação pela empresa (a campanha publicitária pode ser vista aqui, críticas à campanha aqui e críticas à idealizadora da campanha aqui). O legal foi que algumas pessoas que estavam lá dentro vieram perguntar o por que da revolta. Quando numa marcha, passeata, ocupação, acho que o mais interessante é despertar o interesse das pessoas, fazê-las entender porque estamos ali atrapalhando o trânsito. Então achei tudo muito válido.

Depois que chegamos ao MASP achamos melhor não ficar dividindo espaço com o pessoal da igreja e voltamos rumo à Augusta. Descemos a Augusta, passamos pela Praça Roosevelt e terminamos na Praça da República. Nessa caminhada, o número de pessoas foi diminuindo cada vez mais. Não entendi até agora por que o pessoal do Coletivo Antifascista resolveu abandonar o barco no meio do oceano, mas enfim. Apesar de termos sido xingadxs nas ruas, nem ligamos. Houve quem aplaudisse e houve quem nos escorraçasse, mas o importante foi que gritamos deixando claro que não concordamos com muita coisa, nos fizemos clarxs e causamos algum barulho.

Conversei com a Cinthia (que já escreveu um post aqui pra gente) sobre a Marcha e creio que ela tenha sinalizado valorosamente que, como a Marcha era contra a mídia sexista e a ideia de marchar surgiu em resposta a algumas campanhas publicitárias, como já citei, então seria interessante se tivéssemos feito uma pesquisa mais a fundo para descobrir quais são as empresas publicitárias por trás destes anúncios e quem são os compradores destas campanhas. Então acho que vale como dica para a próxima manifestação.

Para finalizar, gostaria de deixar claro que acho esse tipo de manifestação muito válida, mesmo que tenha número reduzido de participantes e que o alcance possa ser pequeno. Ainda acho que ações em nosso entorno sejam mais válidas e mais significativas por causa daquilo que falei da heterogeneidade da nossa sociedade. Então que sejamos todxs feministas chatxs, que sejamos intolerantes a piadas que se baseiam em preconceitos ou que endossem a cultura do estupro. Essa postura pode levar pessoas que estão perto de nós a repensarem suas falas e ações. Isso é muito válido e talvez até mais eficiente do que uma marcha que reúne apenas 200 pessoas. Mas tenho a intenção de continuar participando até que ela se transforme numa ação coletiva que reúna 1000, 5000, um milhão de pessoas, pois “a América Latina vai ser toda feminista!”.

Créditos pelas fotos:

Lígya de Souza

Mais fotos aqui

E aqui

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