Conversinhas de cinema: Trabalhar Cansa

Hoje eu quero falar sobre um filme que vi por aí (tem coisa mais legal que discutir filmes? Pra mim não!). Era uma sexta-feira sem expectativas, e eu fiquei mudando de canal até encontrar algo que prendesse minimamente minha atenção. Muitos e muitos canais, e sempre parece que não há nada que valha a pena ser visto. Ah, esses dilemas da vida moderna…

Pôster oficial

O filme escolhido foi “Trabalhar Cansa”. Com direção de Marco Dutra (do qual, confesso, nunca tinha ouvido falar antes), foi lançado no ano passado e selecionado para mostra paralela de Cannes que, pelos comentários, me parece bem importante. Por ter ido direto pra mostra, não chegou aos nossos cinemas, pelo que sei.

O estilo é bem David Lynch. Um contexto aparentemente prosaico, envolvendo um lar de classe média, um marido desempregado e um mercadinho de bairro. É justamente isso que torna a trama interessante: ela permite que acompanhemos o cotidiano comum de uma família. Não há como não ser tocado pelo drama do marido demitido depois de muito tempo, tentando compreender a dinâmica do mercado de trabalho novamente (se é difícil pra nós, imagine para um pai de família afastado há tempos), enquanto sua mulher enfrenta o desafio, mesmo que pequeno, de gerir um mercadinho de bairro. Há que se ficar “de olho” nos empregados, cuidar dos estoques, lidar com as velhinhas que reclamam do preço das mercadorias. Até aí, tudo muito normal. Até que começa a paranoia. Um cachorro que está sempre latindo ao amanhecer, o enfeite de natal que começa a tocar música inesperadamente. Alguns problemas surgem, como uma infiltração. Aquele tipo de problema pequeno porém chatíssimo, sobre o qual nos lamentamos com os amigos, que sabiamente fingem se interessar para não nos magoar, antes de mudar rapidamente de assunto.

Assim podemos fazer uma comparação com Helena, a dona do mercadinho e  esposa da família. A cada problema que surge, ela fica mais grossa, mais animalesca, parece ter prazer em tratar mal os funcionários e os familiares. A ferocidade pode ser desencadeada pela infiltração, problemas com o aluguel, os pertences dos inquilinos anteriores dos quais ela não sabe como se livrar. É a própria natureza que parece avisá-la de que algo vai mal em sua vida: quebrar um ovo, e ali na gema, o sangue. Os dentes estranhos que surgem do buraco na parede. O impulso animalesco de sobreviver, se defender. E assim Helena quer trabalhar cada vez mais, recusando até mesmo as férias com a filha. Tudo isso se desenrola enquanto imaginamos curiosos a história horrível que teria levado os inquilinos anteriores a fugirem deixando tudo pra trás.

o buraco da infiltração, de onde saem coisas estranhíssimas

O buraco da infiltração, de onde saem coisas esquisitíssimas

Indo mais além, bem mais além, poderíamos comparar os elementos animais do filme com o papel desempenhado pelos insetos no livro de Garcia Márquez, Cem Anos de Solidão (é claro, mantidas as devidas proporções entre as obras, por favor – desculpem, eu amo muito esse livro). A história se desenrola, mas eles estão sempre de alguma forma presentes, nos lembrando das forças que operam na nossa vida sem que possamos controlar. Pra mim, esse é um filme todo ligado com a questão do impulso animal. Das coisas feias que existem dentro da gente e que tentamos controlar. Ah, a civilização… tanta educação higiênica, asséptica, na tentativa desesperada de mascarar as nossas mais genuínas vontades. Tantos canais na tevê a cabo só pra não sabermos nunca o que assistir.

Infelizmente, só poderemos mesmo imaginar as histórias paralelas à de Helena e sua família. Dutra espertamente termina o filme com uma interrogação, nos deixando com mais vontade de saber. Com vontade de gritar como Otávio, o marido, encarnando um moderno homem das cavernas em seu terno bem cortado. A meu ver, é aí que está a falha. Acho mesmo que o filme só teria a ganhar com um maior desenvolvimento das histórias paralelas. Quem foi que disse que filme “cult” tem que terminar do nada? Taí um senso comum. Não sei não, acho que dessa vez o final inesperado não foi um ponto positivo, afinal, tudo fica magistralmente costurado, exceto a interrogação em nossas cabeças.  No entanto, esse não é o caso de não recomendar o filme. Caiu bem na minha sexta-feira, pode cair bem em algum dia da sua semana.

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