Alô Publicidade: Occupy minha mente!

Sou dessas que se incomoda, de verdade, com a publicidade.

Em tempos em que se debate a originalidade das idéias, outras coisas martelam na minha mente, causando em mim um certo mal-estar misturado com entusiasmo em relação à rapidez (aficionados por Bauman e teóricos da pós-modernidade corrigiriam para “liquidez”) do nosso mundo. No caso, esse impulso de comercializar, viralizar, publicizar tudo que se passa em nossas cabeças e, por que não, nas nossas vidas. Tá, a discussão é bem velha. Todo mundo já falou sobre isso. Existem mil críticas rasas a respeito e os mais conservadores parariam de ler agora mesmo, já farejando um discursinho-esquerdista-revoltado-fracassado.

Mas isso me intriga de verdade. Poderia tentar, por exemplo, descrever o misto de tristeza e surpresa que senti ao me deparar com um outdoor estampando em dimensões garrafais o slogan do movimento Occupy, usado ali para anunciar um cursinho pré-vestibular, particular. A frase toda era “Occupy Universidade”. Ok, isso já faz um tempo. Foi no começo do ano, o outdoor estava numa das ruas em que passo para ir às aulas. Mas não esqueci o espanto que me causou. Existe um símbolo que ilustre melhor esse paradoxo? Da apropriação de um discurso crítico e a transformação deste em só mais uma publicidade? Alguma semelhança com a apropriação que a indústria cultural de Adorno e Horckeimer faz o tempo todo? (vale o parênteses para esclarecer que não concordamos de todo com a visão frankfurtiana, mas ela tem lá sua razão, e uma razão muito bem fundamentada) Um chamado de ocupação ali, em contexto publicitário, convidando a ocupar um local que pertence à iniciativa privada (seja uma universidade paga, por exemplo, ou mesmo a universidade pública, cuja ocupação seria concretizada através do consumo do tal curso, o que dá na mesma). Não é só a falta de compreensão da luta, é a própria banalização dela. Opa, agora você também pode pagar para ocupar! Acho que é esse mesmo o paradoxo dos nossos tempos: uma idéia surge, é apropriada pela coletividade, para em seguida… ser oferecida à coletividade, mas sob o signo de algo exclusivo, excludente.

O tal outdoor. Se você clicar na foto, encontra um post ótimo a respeito.

O dinheiro nos dá a sensação de poder. Particularmente, eu identifico no brasileiro um sentimento um pouco mais peculiar. Quando se pode pagar por uma idéia, mesmo sabendo que não necessariamente ela vale aquilo que se paga, existe aí um meio de se afirmar, de dizer “eu posso”. Não é a toa que dizem por aí que os carros brasileiros são mais caros porque há quem pague. Que os festivais de música cobram preços abusivos nos ingressos porque há quem pague. Mas não é só poder pagar. É se sentir bem por poder pagar. Ou fingir possuir este poder de pagar, que muitas vezes é ilusório sendo verificado no eterno giro do cartão de créditoLonge de mim usar os argumentos classificados como “classe média sofre” (aqui, poderia desenvolver uma tese de mestrado sobre o assunto, mas acho que isso já é muito bem feito pelo tumblr de mesmo nome), até porque não nego o papel das identidades coletivas, brasileiro já sofreu muito de complexo terceiro-mundista. Mas agora a gente pode. Estamos por cima da carne seca. Estrangeiros vem procurar empregos aqui, empresas fazem mais investimentos, o Brasil está bombando em tudo que é jornal estrangeiro. Natural querer ostentar.

Opa, natural? Quem disse? Aqui, vou emprestar umas palavrinhas de Paulo Freire utilizadas pelo (meu amor) Tom Zé no disco “Jardim da Política”, de 1975:

“… de tanto ver agir o opressor, na hora em que o homem tem oportunidade de ser protagonista da História ele age igual ao opressor porque não conhece outro método.”

É isso. Quando temos chance de distribuir melhor tudo que ganhamos com trabalho e boas idéias de nosso povo, oprimimos, concentramos. Não no sentido literal de “opressão”, mas no sentido mais sutil da autoestima, do emocional, do mexer com as perspectivas de cada um. Uma opressão simbólica. Em nome da autoestima coletiva daqueles que podem pagar, privamos ainda mais os que já são ou sempre foram privados, seja dos bens públicos ou particulares. Isso não se refere somente a bens materiais. Como eu dizia, quando se fala em publicidade, minha primeira reação é de desconfiança. Você abre jornais, redes sociais, revistas, anda nas ruas, e a mensagem é: “você pode, você pode, você é totalmente livre”.  Mas é mesmo? Por mais clichê que pareça, eu preciso dizer de novo: livre para consumir. Em tese, somos livres. Mas ainda existem aqueles que, mesmo livres, nada podem fazer por não terem os meios adequados à disposição. Sejam eles um carro, uma universidade ou o pertencimento à categoria de identidade daqueles que “podem pagar”.

Voltando ao paradoxo do outdoor que eu citei aí em cima: você podia ocupar mas, veja bem, isso agora também é um produto. Infelizmente, isso não muda, por mais que a mensagem encorajadora seja repetida exaustivamente. O que me entristece nisso tudo é que muitas boas idéias continuarão surgindo e frutificando, sendo apropriadas,  mas seu provável destino é o de serem comercializadas em nome de uma falsa autoestima construída sobre uma identidade que, na verdade, é de poucos e para poucos, mesmo que pareça ser de muitos. Uma identidade que se constrói a partir da universalização do nosso modo de vida produzido pela publicidade. Como se todos nós buscássemos sempre as mesmas coisas.

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