Movimentos sociais versus os ópios do povo

Há algum tempo que tenho uma paixão avassaladora por movimentos sociais. A vontade de compreendê-los não me deixa em paz. É a força de um grupo revoltoso que mudou uma era. São revoluções de muitos, revoluções de poucos. Revoluções pacíficas, se é que se pode adjetivar assim uma revolta, revoluções armadas. Ocupações, manifestações, rebeldia. Rebeldia social inunda meu coração de um sentimento que não sei definir muito bem. É uma alegria misturada com esperança. Quantas vezes já vi meus olhos encherem d’água diante de uma notícia ou diante de imagens de manifestações e ocupações.

É tanta injustiça no mundo, tanto ainda por mudar. Tanta gente que já sofreu e que, através das suas lutas, hoje sofre um pouco menos. Acho que eu teria me desfeito em soluços se pudesse ter compartilhado de um pedacinho da Praça Tahrir quando derrubaram Mubarak. Não sei o que teria sido de mim se eu estivesse no meio de Wall Street ouvindo Zizek falar. Se numa marcha contra a tarifa do ônibus ou contra a mídia machista em que tinha só umas 150 pessoas eu já quis chorar ouvindo as pessoas gritarem: mulher não é só bunda e peito! Imagina numa praça ocupada por um milhão de pessoas!

Ações coletivas e movimentos sociais são coisas que me arrebatam o coração. E não só o meu. O poder do coletivo, a solidariedade gerada numa luta conjunta já foi e ainda é tema de estudos acadêmicos. Qualquer ajuntamento público pode gerar alguma coisa assim, até quando a gente vai ao estádio ver um jogo de futebol, por exemplo. Mesmo que não gostemos muito do esporte, estar lá no meio daquele monte de gente pulando e gritando o nome do nosso time, faz parecer que nascemos torcendo e que somos fanáticos. Mas saindo dali a coisa passa. Não li muito a respeito, mas essa articulação e esse amor mútuo construído no espaço público me encantam.

Às vezes, eu me pego meio deprimida diante da falta de manifestações públicas eficientes e efetivas aqui no Brasil. Fico pensando na nossa História e na forma como ela foi vivida. Nossos direitos civis e sociais foram dados pelo Estado. Nossa Independência proclamada pela elite. A República também. A escravidão só deixou de existir aqui porque se tornou economicamente insustentável e desvantajoso. A nossa Ditadura finalizada por meio de uma abertura lenta e gradual. Não digo que não houve lutas. Quantos foram os escravos que se revoltaram e fugiram das senzalas para os pelourinhos? Muitos! E quantas pessoas morreram e foram torturadas ao lutarem contra a Ditadura? Várias! Mas de qualquer forma, quando olho, ainda sinto que somos bastante tolerantes com o poder político. Tudo nos foi dado e nos acostumamos tanto a esse patrimonialismo associado ao patriarcalismo que deixamos que o tempo e que a bondade de nossos políticos nos deem aquilo que poderíamos ou deveríamos tomar com nossas próprias mãos. E é possível que, na verdade, se ficarmos assim dependendo destes dois fatores, nunca tenhamos nada.

Vendo o mundo se inflamar e borbulhar em 2011 tentei buscar algumas explicações para a nossa calma. Muitas vezes, as manifestações e revoltas podem interessar a algum grupo e a outros não dependo das suas condições sociais. Por exemplo, se uma pessoa que ganha 10 mil reais por mês for reclamar com o governo por algum motivo, provavelmente não será por conta da precariedade da sua residência, ou porque seu barraco pegou fogo ou porque o transporte público anda um lixo. Essa pessoa pode se envolver, por exemplo, em movimentos em prol das florestas e dos animais. Não que o morador da favela não possa se engajar numa luta ecológica ou que o rico não possa se engajar numa luta pelo morador da favela. Mas as realidades destas pessoas são distintas e isso pode lhes dividir na hora da luta.

O que eu vejo, observando a nossa sociedade, pelo menos a daqui de São Paulo, é que não temos justamente a consciência de que a luta do morador da favela é sim a mesma que a do cara dos 10 mil reais, ou melhor, que poderia ser. Uma luta por condições melhores para todos, por exemplo. Mas não existe essa consciência de pertencimento ou mesmo uma consciência social, do próximo – por exemplo, há uma pesquisa que saiu semana passada, comprovando que os consumidores das classes A e B se incomodam com a ascensão da classe C. Penso que uma parcela considerável da nossa população ainda está tão necessitada do básico, que algumas lutas não fazem sentido para ela. Quando estive na Marcha Contra a Mídia Machista ouvi pelo menos umas cinco vezes alguém gritar: vão trabalhar! Como se nossa luta fosse inútil, irreal, desimportante. Claro que o desinteresse pode existir. Além dele, pode haver discordância em relação a determinado tipo de luta, mas há também a possibilidade de as pessoas acharem que a luta feminista é perda de tempo porque há tantas coisas mais importantes do que isso para serem conquistadas, então que lutemos por estas coisas. Tem muita gente por aí advogando a hierarquia de temas, seja como mais uma forma de reprimir algo que os incomoda, ou seja de forma inconsciente. Mas cada luta é uma luta, a existência ou não-existência de outra causa não a invalida.

Um dia saí para jantar com uma professora que foi minha orientadora durante a graduação e estávamos conversando sobre esse assunto. Minha pergunta era: mas por que as pessoas aqui não saem às ruas? Elas não percebem que estão sendo exploradas, que a vida não está boa, que poderia ser melhor, que o transporte está caro e que estão queimando favelas, expulsando as pessoas das suas casas? E que, por mais que elas possam comprar com seus salários, as coisas estão caras? Por que elas não se revoltam contra a corrupção, contra o absurdo em que vivemos? E falei que achava que era por causa disso aí que escrevi acima, que algumas pessoas simplesmente não julgam estes assuntos importantes o suficiente para saírem e lutarem por essas coisas. Ou então, que estão tão ocupadas com sua luta diária pela sobrevivência em suas jornadas duplas, que não sobra tempo nem saco para revoltas sociais. A professora me olhou e disse: eu não acho que é por isso. As pessoas não saem às ruas porque elas estão felizes. Acho que você é muito nova para perceber, mas as pessoas hoje tem dinheiro para comprar um carro, tem dinheiro para sair, comprar roupas, viajar, se divertir, há alguns anos essa realidade era muito diferente. Em relação a alguns anos atrás, estamos todos muito bem e muito felizes.

Tive que concordar com ela. É triste como essa alegria financeira, ilusória, ou com muitas contrapartidas, diga-se de passagem, deixe as pessoas tão cegas e tão calmas. Sei que eu mesma não tenho direito nenhum de falar assim. Eu não estou lá na favela me revoltando contra o absurdo destes incêndios que alimentam a especulação imobiliária. Eu tenho medo e por vezes duvido da minha luta. E, provavelmente, se conseguíssemos juntar bastante gente para se colocar contra isso, se a manifestação estivesse marcada para o horário do expediente, eu, talvez, não tivesse a coragem de largar o emprego e ir lutar junto com moradores dos barracos queimados. Mas eu fico olhando para a Primavera Árabe e para os Occupy’s e pensando: mesmo com todas as diferenças que o Brasil tem em relação a estes países, será que um dia vamos nos revoltar contra a falta de ética dos nossos políticos? Contra o dinheiro que destrói casas e vidas de uns para dar para outros? Será que vamos parar de achar que as coisas são assim mesmo? Que deixaremos de reclamar nas redes sociais e nos ônibus e que iremos ocupar a praça, as ruas ou arranjar outra forma de luta mais taxativa? Será?

Vejo que quero o caos. Quero não só praças ocupadas, mas o mundo parado. Linhas de trem invadidas como aconteceu hoje em São Paulo , empresas, mercados, corporações sendo tomados. Quero o caos! Caos pela liberdade.

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