Beautiful Coexistence – de quem?

Sendo uma pessoa que trabalha aqui do bairro Vila Olímpia , já estou habituada a excessos e ostentações. Aqui é inevitável. Em junho, o tal JK Iguatemi foi finalmente inaugurado, depois de enfrentar algumas várias interdições por parte do governo por diversos motivos.  Após muitas brigas, muitos jeitinhos, finalmente, o shopping foi inaugurado. Fomos lá visitá-lo, uma semana depois de aberto, eu e minha colega de trabalho.

À época havia muitas lojas que ainda não tinham sido inauguradas como a Gucci, Sephora, dentre outras, nem me lembro. Andamos o shopping inteiro, todos os andares, passamos por todas as lojas, entramos em algumas. A praça de alimentação lotada. Pessoas endinheiradas ou pseudo-endinheiradas aguardavam pacientemente por uma mesa, em filas enormes.

As lojas são monstruosas. A Daslu e a Dolce & Gabana me assustaram de tão grandes! Sei lá, uma loja daquela deve ter o tamanho da minha casa. Uma das lojas, de que nem sei reproduzir o nome, vendia um terno a 15.000,00 reais. É isso aí mesmo, quinze mil. Sei lá quem é o idiota que vai comprar uma coisa dessas. Porque tem que ser idiota mesmo para achar que um pedaço de pano vale 15 mil reais. Eu não consigo não associar ostentação a idiotice. Ostentação é desperdício e desperdiçar o planeta, a vida, dinheiro, o que quer que seja, é idiotice. Para mim, estas duas coisas – idiotice e ostentação – andam juntas,  são como irmãs siamesas. Este shopping com suas lojas caras é o cúmulo da ostentação. Mais um símbolo do já conhecido elitismo paulistano. É mais um não-lugar por ser o lugar só de alguns. Uns muito poucos. Deu uma vontade de ir pra lá de chinelo Ipanema velho e uma roupa daquelas que a gente tem há uns 10 anos e perambular pelos corredores brancos, fitando os olhos indignados de quem não suporta pobre.

O shopping é gigantesco. Na fachada, veem-se grupos de manequins brancos, ora formando uma família, ora formando um grupo de amigos. E a seguinte frase em letras luminosas e de mais de 2 metros quadrados de tamanho: Beautiful coexistence. Coexistência de quem? Entre quem? Entre os bonitos e ricos? Feios e pobres não coexistem, aliás, não existem, não é? Chega a ser insultante. Saí de lá insultada sim, como se me tivessem estapeado moral e fisicamente. Parece que quem patrocina toda essa ostentação sem sentido não fica apenas feliz em fazer a sua parte na promoção da segregação. Ainda tem que botar uma frase dessas (em inglês, é claro) só pra exercitar a ironia.

O slogan desse antro ostentador é: “A experiência do seu tempo”. Tempo é dinheiro. Então gaste seu tempo ali em coisas estupidamente caras em sua tremenda idiotice. Se você conseguir comprar um pedacinho de pano ali, sinta-se feliz e satisfeito(a) com essa experiência única, afinal, isso te diferencia dos outros, certo? Como disse um Sakamoto revoltado, ostentação deveria ser crime. A única experiência verdadeira que tive ali dentro foi vontade de vomitar. Este prédio totalmente envidraçado é só mais uma construção que segue a separação e divisão da sociedade paulistana. É o local dos que são melhores por terem sido colocados ou por terem se colocado no topo da pirâmide social. É um lugar nojento, ofensivo ao qual não pretendo voltar. Esse é só mais um dos absurdos classistas da mais cara cidade da América Latina.

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