Dilemas Eleitorais

Primeiro, por Juliana

Image

Nunca conheci argumentos favoráveis à obrigatoriedade do voto que me convencessem de que isto é o que deva ser feito. Aliás, o fato de existir eleição no país não garante a democracia nele. Isso quer dizer que não se exerce democracia somente a partir do voto. Ele é sim indispensável, mas não é o único indício de democracia que existe. Ainda mais porque uma maioria pode ser e, normalmente é, ditatorial. Partindo disso, decidi que só compareceria às urnas quando realmente achasse que a eleição valeria a pena, quando eu visse ali na frente, pessoas que pudessem me representar de alguma forma. Ainda não possuo uma alternativa para o sistema político que temos hoje, infelizmente, então, continuo seguindo este da representação política.

A eleição deste ano em São Paulo possui alguns candidatos à prefeitura que nos fazem tremer de desespero. Nós sabemos que são poucos que têm realmente chance de ser eleitos e as pesquisas eleitorais fazem com que este cenário se intensifique ainda mais. Sou contra pesquisas porque elas influenciam e direcionam os votos das pessoas. Acabamos deixando de lado o que queremos a fim de evitar uma catástrofe.

Diante deste cenário triste, resolvi que não compareceria à eleição. Confirmei a presença no Churrascão da Justificativa e iria justificar meu não comparecimento com todas estas coisas que falei acima. Mas eis que estas mesmas pesquisas começaram a revelar dois candidatos à frente: Serra e Russomano. Acredito que não seja preciso discorrer sobre o porquê é desesperador que qualquer destes chegue à prefeitura. E foi aí que me vi perdida entre duas situações: não comparecer à eleição e manter o meu argumento ou comparecer à eleição votando em alguém que não me agrada para tentar mudar o cenário Russomano-Serra do segundo turno. E acabei tomando a decisão de ser contrária a mim mesma e que me deixa infeliz: vou votar no Haddad.

Image

Um voto como esse, num partido como o PT, acaba comigo. Nós, normalmente, votamos na pessoa que se candidata e não no partido. Parece que, simplesmente, esquecemos que o tal candidato levará à frente aquilo que sua legenda (e muitas vezes, o que as alianças espúrias que ela faz) quer. E o PT, nestes últimos 10 anos tem mostrado o que é: um partido extremamente corrupto (se mais ou menos que o PSDB, não dá pra saber), que apóia a corrupção sim e que esfrega sua falta de ética na nossa cara todos os dias com mais e mais escândalos. E, infelizmente, é nesse partido que me vejo obrigada a votar.

 

Agora, por Marilia

Já faz muito tempo que não voto. Morei em três cidades, e não tive interesse de transferir meu título eleitoral para nenhuma delas. Talvez para São Paulo, pois lá de fato sentia mais que a cidade era “minha”. Mas acabei ficando lá apenas por dois anos, e acabei deixando o assunto de lado.

Nem justificar a falta de voto costumo justificar. Vou lá, pago minha multa de três reais depois, e não penso mais nisso. Sei que é utópico, mas em algum momento eu realmente achei que parar de votar talvez fizesse diferença. Atenção: não é votar nulo. É simplesmente descumprir o dever de votar (desobediência civil manda lembranças). Imagina se ninguém aparecesse nos colégios eleitorais? Se ninguém justificasse nada e simplesmente ficasse em casa? Seria uma mensagem coletiva de que não acreditamos mais nessa falsa democracia, nesse falso sistema arquitetado para se alcançar uma democracia ilusória. Some-se a isso o fato de que há muito tempo me incomoda o teor comercial das eleições, a invasão propagandística, toda essa hipocrisia e alucinação coletiva. Democracia representativa: perdeu-se a dimensão real dessa expressão. Mas enfim, o boicote às eleições de fato é uma utopia, tenho plena consciência disso. A democracia representativa, por outro lado, não deveria ser.

Paralelamente, a atual conjuntura das eleições em São Paulo é de dar medo. Depois de um Kassab, imagina o que é eleger um Russomano?  Vox, Datafolha e institutos de pesquisa em geral (aliás, tenho muita curiosidade de saber como funcionam esses institutos) apontam a vitória do candidato do PRB. Diante disso, noto uma mobilização (na internet, principalmente) contra esse possível desfecho. A tag #amorsimrussomanonao se torna mais frequente (digo isso com base em minhas timelines). Acredito que assim como a Juliana, muitas pessoas mudaram seu voto para tentar bloquear a ameaça que Russomano representa. De repente, até eu (na posição de mera espectadora, uma vez que nem voto em São Paulo) comecei a simpatizar com Haddad. O que eu acho de tudo isso (mais uma vez serei utópica) é que é muito triste que o eleitorado tenha que se unir em torno do “menos pior” para combater um inimigo em comum que consegue congregar mais rejeição em comum. Que seja preciso deixar de votar em alguém que se acredita ser bom, mas que se sabe que não vai vencer.  É, parece que mesmo a escolha racional tem lá suas armadilhas. Não acho que seja uma tática inócua, só estou dizendo que num mundo ideal não seria necessário que isso acontecesse. E também não tenho a mínima idéia sobre como contornar essa situação.

Image

Outra coisa que eu desejo colocar em questão é o papel de tais institutos de pesquisa. Dizem que o sistema eleitoral brasileiro é um dos mais avançados (em comparação com o americano, por exemplo, muito mais suscetível a fraudes) e, no entanto, ainda florescem os casos de compras de votos e o neocoronelismo. Talvez nosso sistema altamente automatizado e confiável seja um reflexo, talvez mesmo uma redenção pra compensar a lei do voto obrigatório. Afinal, quanto mais gente vota, mais complicado contabilizar. E mais obscuros vão se tornando os esquemas de cooptação dos votos. Enquanto isso, as pesquisas também vão moldando as opiniões dos eleitores, divulgando quem está na frente, quem tem chances reais de vencer. Eu fico imaginando: como seria se não existissem pesquisas? Se tudo que existisse fosse a conversa de bar com os amigos? Como os eleitores seriam (ou não) influenciados? Por que é isso com que faz que alguém pense “gosto do candidato x, mas não vou votar nele pois ele não ganhará, e será um voto perdido”. Mas afinal, como é que o voto se torna um voto perdido? Quando é que o voto foi valorizado? E o mais importante, em benefício de quem?

Anúncios

Comente!!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s