Gentili versus Lobato e a censura do politicamente correto

Estamos aqui para discorrer sobre um tema maçante e cansativo: comediante stand-up no Brasil. Dá preguiça só de pensar em como esses caras são desagradáveis, preconceituosos, etc etc. Aliás, isso de modo algum está restrito somente ao gênero “stand up” (parênteses pra dizer que eu odeio essa denominação em inglês). Enfim, eles carregam inúmeras características bastante positivas (insira aqui uma plaquinha de ironia) das quais não iremos falar para não sermos repetitivas.

Para seguir no caminho de sempre, Danilo Gentili proferiu mais uma daquelas frases que ele adora, igualando negros a macacos (meu deus, que “humor de vanguarda”, não é mesmo – aqui vai mais uma plaquinha de ironia). Como sempre, pessoas o apoiaram e atacaram a vítima: um usuário do Twitter chamado @LasombraRibeiro. E por quê? Lasombra começou a divulgar para muitas pessoas um vídeo com várias manifestações racistas de Gentili através dos tempos: sua entrevista com o Justus em que ele chama negros de macacos/king kongs (afinal, qual o problema? Ele também sofreu bullying na escola porque o chamavam de girafa e ninguém foi criminalizado por isso), além de um trecho de uma entrevista que ele faz com o Marco Bianchi tratando a sua funcionária, negra, como uma escrava.

Gentili responde: “Sério @LasombraRibeiro vamos esquecer isso… Quantas bananas você quer para deixar essa história pra lá?” Lasombra resolveu então denunciar o racismo do comediante e sua legião de fãs tomou as dores do coitadinho e começou a xingar Lasombra que, muito espertamente, reuniu os comentários preconceituosos em vários print screens.

Não é a primeira vez que Danilo Gentili demonstra orgulhosamente seu racismo e é apoiado por milhares de pessoas. Afinal, qual o problema? Como ele mesmo diz: por que posso chamar gay de veado? Gordo de baleia, mas nunca um negro de macaco?”. Essa dúvida é séria? Parece piada!

Bom, não iremos perder tempo aqui explicando porque é altamente ofensivo usar camisetas 100% branco, propagar o orgulho hétero e tudo mais… Se você é uma das pessoas que não vê problema em alardear o orgulho de pertencer a classes/estratos sociais/grupos que sempre foram favorecidas, melhor parar de ler por aqui mesmo.

Em paralelo, recentemente, colocou-se em discussão a censura de um livro de contos do Monteiro Lobato chamado “A negrinha” (link para o conto de mesmo nome). O argumento para que o governo pare de distribuir o livro, que integra o PNBE, é de que o livro contém racismo. Obviamente que esta censura é um absurdo e aí surge a questão: por que Lobato pode e Gentili não?

A personagem principal do livro é uma órfã negra que sofre constantemente com os maus tratos da patroa que “fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau.” E segundo Humberto Adami, diretor do Iara (Instituto de Advocacia Racial e Ambiental),  “Todo dia ela [negrinha] apanhava. Você tem sucessivas retratações do personagem com espancamentos diários e sem explicar que aquilo você não pode fazer” (Fonte). Convenhamos que este argumento é bastante estúpido. Livros literários não são uma cartilha que ensinam o que se deve ou não fazer. Eles retratam acontecimentos fictícios, na maioria das vezes, e cada pessoa faz o seu julgamento em cima daquilo que lê.

Mas temos alguns argumentos do por que não se deve censurar o livro do Monteiro Lobato. À época em que o livro foi escrito, racismo ainda não era considerado crime no Brasil. Se uma obra como essa fosse escrito hoje, provavelmente, nem seria publicado pois seu conteúdo é criminoso. No entanto, se há hoje uma utilidade digna para a obra de Lobato, além do puro entretenimento, é a de justamente mostrar a forma como os negros foram tratados no Brasil para que nós percebamos que eles não devem nunca mais ser tratados assim. A História ensina, como disse George Santayana: “Aqueles que não conhecem a História estão destinados a repeti-la”. Conhecer para não repetir. Como argumentou uma amiga minha: “Agora vamos demolir todas as câmaras de gás e eliminar qualquer lembrança que exista do Holocausto porque é uma ofensa aos judeus?” Não, não vamos! Tanto é que existe um memorial do holocausto. A memória das atrocidades já cometidas pela humanidade, contra quaisquer grupos de cor, classe ou sexualidade, deveria, ao menos em tese, ficar latente nas nossas lembranças para que nunca mais voltemos a repetir atos dessa natureza.

O Brasil, como nos mostra a Comissão da Verdade a cada dia, não tem lá muito apego pela própria História. Ao menos não pela história daqueles que não estão no topo. É lindo dizer que não há racismo no Brasil. É lindo dizer que se pode exaltar o branco tanto quanto o negro. Sim, seria lindo se de fato todos fossem iguais, se tivessem tido acesso às mesmas as oportunidades e se a História estivesse a seu favor desde o início. Já basta essa cegueira coletiva em relação à ditadura, cegueira esta que leva homens como Coronel Telhada ao poder e cria uma falsa nostalgia. Que tenhamos Monteiro Lobato ao nosso alcance para nos lembrarmos de que esse país já foi muito pior, ao menos para os negros. Que possamos nos compadecer da situação da negrinha no conto. Quem sabe assim veríamos menos idiotas bradando contra as cotas nas redes sociais, apoiando comediantes míopes como Gentili e se achando no direito de ter um orgulho branco.

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