Por uma re-politização da Economia!

Por Marilia Romão

Hoje, escrevo esse texto pra desabafar sobre a minha relação de curiosidade, paixão e ódio com a Economia. Sabe, eu fiz um curso de graduação em Humanas e vou dizer algo com que possivelmente muita gente vai se identificar: às vezes, a gente sente falta de ter um consenso. Por exemplo, no meu caso, que estudo as Relações Internacionais, não há consenso nem sobre o principal foco dessa disciplina surgida lá no final da Primeira Guerra Mundial: Economia? Política? História? Direito? Nas humanas em geral, é difícil chegar a um consenso. Por que pensamos como pensamos? Por que muitas vezes não agimos de acordo com nossos pensamentos? O que é capaz de catalisar numa sociedade o desejo de se lutar por um objetivo comum? Como o Holocausto pôde acontecer? Pois é, as perguntas são diversas e as respostas, idem. Quando se trata das Ciências Humanas, nenhuma verdade é universal e nenhuma metodologia é neutra.

Eis que eu comecei a me interessar por temas mais econômicos – ainda na esfera internacional, mas a Economia Política sempre me fascinou. Por algum motivo, talvez por ignorância minha, eu pensava que havia um grau considerável de consenso metodológico na Economia. Tinha claramente pra mim que a Economia Política que eu estudei na universidade tinha algo de verdade universal. Que aqueles modelos lindos, complexos, complicados, só poderiam expressar verdades irrefutáveis. Afinal, modelos matemáticos são neutros, certo? Errado, meus caros, muito errado.

Quando entrei no mestrado e comecei a me aprofundar nos estudos, passei a me dar conta de que muitas premissas econômicas se parecem com alucinações, coisa de gente louca mesmo. Uma pílula de Marx, por exemplo, diz que o crédito é protestante, já que repousa puramente sobre a fé. É mais ou menos isso. E nos jornais, pipocam notícias e notícias falando sobre a crise mundial, sobre como os países precisam recuperar um certo ritmo de crescimento, sobre como é preciso estimular a iniciativa privada, etc. etc.

Aqui, coloco uma questão que se refere principalmente aos temas tratados pela grande mídia, que reproduz incessantemente “análises” e “conselhos” de “especialistas” sobre as mais diversas áreas da economia dos países. Por que devemos acreditar em tudo que um time de especialistas de elite indica? Por que essa obsessão pelo crescimento? Vamos esclarecer uma coisa: crescimento é bem diferente de desenvolvimento. E eu sei que por enquanto, a situação mais crítica está lá do outro lado do mundo, na Europa. Mas é bom lembrar que não estamos a salvo – então é preciso perguntar: porque dar tanto crédito aos especialistas que também aconselharam e aprovaram medidas que contribuíram para mergulhar o mundo numa crise sem precedentes? Não por acaso, muitos dos economistas de renome dos países da América Latina (e de outras regiões também) foram treinados nos Estados Unidos. A colonização do pensamento acadêmico pode cheirar um pouquinho a teoria da conspiração, mas tem lá sua (grande) parcela de importância na configuração do pensamento econômico que vai guiar um país.

Na minha opinião, a divisão entre Economia e Política é altamente prejudicial a todos, pois distancia as pessoas comuns de uma matéria que também concerne a elas, criando a impressão de que os assuntos econômicos são algo distante, longe do seu alcance de entendimento. A Economia, assim como a Política, interfere em nossa vida cotidiana o tempo todo. Ao colocá-la no pedestal de “ciência dura”, racionalizável, tratável com modelos “exatos” e “científicos”, demos a licença para que ela se distanciasse, e repousasse nas mãos daqueles a quem ela efetivamente está servindo. Até a linguagem das notícias econômicas se especializou, tornando-se um tanto quanto inacessível. Mas as pessoas se interessam pela Economia quando são diretamente afetadas! – alguém dirá. E é esse justamente o truque. Descolar aquilo que acontece nas esferas financeiras transnacionais técnicas, geridas por uma elite cosmopolita, daquilo que acontece no dia-a-dia de uma cidadezinha, sei lá, no interior do Amazonas. A crise de 2008 sacudiu um pouco e acabou trazendo um esforço em reconectar os dois extremos, como mostram os protestos anti-austeridade em diversos países europeus. Ficou bem claro que esses “especialistas”, longe de trabalharem com modelos neutros que buscam somente resolver problemas técnicos, também estão a serviço de alguém. Seja do grande capital, das grandes empresas, das elites, como queiram chamar. O fato é que o senhor Robert Cox estava certíssimo quando disse que “toda serve a alguém e a algum propósito” .

Precisamos repolitizar a Economia, reconectá-la com a vida cotidiana. Urge uma forma de articulação de uma Economia do lugar-comum, de uma Economia acessível e, nesse momento, uma Economia que reconcilie os despossuídos produzidos pela crise com seus governos . Não é por nada não, mas a Islândia novamente samba na cara dos engravatados de Davos e das cláusulas de austeridade ao recuperar seu crescimento (tão louvado pelos mesmos especialistas) depois de julgar e condenar os banqueiros responsáveis pela especulação que levou à crise, negar a imposição de medidas prejudiciais à população e redigir uma nova constituição com participação popular ampla. Será que teremos a mesma sorte?

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