Mania de classificação

Para a maioria dos humanos, a vida é toda regrada e classificada. Não conheço alguém que não classifique sua própria vida para poder vivê-la, ou mesmo, entendê-la – organizá-la melhor, por assim dizer. Pode ser que exista, mas ainda não conheço. Eu mesma sou extremamente metódica. Tenho planilhas de Excel para várias coisas: gastos mensais, tratamentos estéticos, viagens, telefones, etc. Na minha planilha de gastos mensais até criei categorias: contas, diversão, mercado, farmácia. Temos mania de enquadrar as coisas nessas várias classificações para podemos compreendê-las. Mas, geralmente, estas mesmas categorias não dão conta de abarcar todos os itens. Gasto com roupas, por exemplo, eu classificaria como “diversão”? Se eu não tiver roupa para vestir nem sequer posso me divertir, então não seria exatamente uma diversão. Mas ainda assim é divertido comprar roupa, então por isso não seria uma necessidade?

Também classificamos pessoas, é inevitável. Todo mundo tem amigos, conhecidos, pessoas que passam pelas nossas vidas e que classificamos como legais, chatas, feias, magras, gordas, loiras, morenas, negras, pardas, indígenas, brancas, etc. O IBGE tem também sua tabela classificatória. E aí você coloca a pessoa numa dessas classificações e ela, automaticamente, está excluída da outra. E uma pessoa que não é loira nem morena? Fica no meio termo ali? Ao menos, o IBGE, em suas pesquisas, nos oferece autonomia para definirmos, de acordo com o que pensamos, qual é nossa cor. Se eu quiser falar que sou indígena, posso falar. No entanto, mesmo nossos próprios parâmetros são baseados em parâmetros gerais profundamente arraigados no pensamento coletivo.

É possível notar como essas classificações são restritas e diminuem nossas possibilidades, e, ao mesmo tempo, como não conseguimos viver sem elas. Mas eis que essa necessidade de categorizar tudo tem me incomodado demais ultimamente. E agora chego ao ponto em que tal desespero de categorização gera um desespero ainda maior em mim: por que categorizar sexualidades? As pessoas querem saber, não apenas querem, como NECESSITAM saber se você beija homem ou mulher, se prefere uma piroca ou buceta, se você se considera lésbica, gay, bissexual, bi-curious (Orkut e sua criatividade!), ou sei lá mais o quê. Nesse âmbito das sexualidades a lista de classificações é vastíssima e, ainda assim, não dá conta – e teria como dar? Um homem que gosta de mulher, mas que se considera uma mulher é o quê? Uma travesti que fica com uma lésbica (estilo “Elvis e Madona”)? Uma lésbica que já transou com um homem é menos lésbica por isso?

Fico extremamente incomodada quando me dizem: mas por que você não tinha me contado antes? Como se fosse preciso anunciar qualquer outra sexualidade quando não se é heterossexual. E aí eu respondo: por acaso um dia você me contou que era hétero? Há ainda aquelas pessoas que se ofendem achando que quem tem uma sexualidade não definida ou não classificável em termos que as pessoas consideram “normais” não contou porque não confia nelas. Por exemplo: Nossa, achei que você confiasse em mim, faz quanto tempo? Como se fosse uma doença, um problema. Tipo: “por que você não dividiu seu problema comigo já que somos amigos?”. Por quê? Não anunciar a própria sexualidade está na categoria dos crimes contra a amizade? Será que eu preciso fazer uma cerimônia, um evento, para anunciar os parâmetros da minha vida íntima e assim ninguém mais se sentir “traído” ou “enganado” por que nunca contei que transo mais com mulher do que com homem?

Minha irritação não para por aí. Porque daí as pessoas perguntam: mas você já ficou com homem? Mas você é lésbica ou bissexual? E daí quando a gente responde: não sei! As pessoas ficam indignadas: mas como não sabe? Você gosta mais de homem ou de mulher? E a resposta é: olha, AGORA estou com mulher, pode ser que um dia eu me apaixone por um homem.

As coisas não são assim tão bem delimitadas. De repente, o machão que se diz tão hétero (como se houvesse intensidade de sexualidade: “iiiih, esse aí, ó, gosta de fio-terra, heterossexualidade nível 1”) pode não ser tão machão assim (sobre isso temos uma história a contar, mas vai ficar pra outro post), a menina que sempre namorou homens pode ter tido uma aventura com uma mulher, depois de mais velho você pode sim querer experimentar outras pessoas de gêneros distintos. Pra que isso, gente? A vida está aí pra ser descoberta. Se você tem preconceito, o problema é seu, você é que vai aproveitar menos, fechado aí na sua categoria. É preciso respeitar as experiências dos outros. Dá até pra aprender com elas se você quiser. Quando se trata da sexualidade, por favor, vamos minimizar o peso das categorizações. Elas são boas quando servem para nos guiar, para definir alvos de ação: por exemplo, o movimento feminista, o movimento glbt, coletivos transfeministas, de lésbicas, etc. Eles servem pra identificar grupos e criar uma esfera de ação para tratar dos problemas comuns que os atingem. E sobre este assunto nós aqui do blog também temos muitas questões a compartilhar com vocês que nos leem, mas que também ficaraá para um próximo post que virá em pouco tempo.

É bom lembrar que definir também é limitar. Se você sai por aí afirmando que é homossexual e depois tem vontade de pegar alguém do gênero oposto, vai ficar super perdidx achando que, puts!, deixei de ser gay/lésbica! Para quê? Faça o que tem vontade sem se preocupar em delimitar aquilo que pode ou não pode dentro da sua auto-classificação.

E àquelxs que tem amigxs que não são heterossexuais, não se sintam “traídxs” quando aquele seu amigo ou amiga não te disser com todas as palavras que é gay, ou o que for. Inverter é um bom exercício pra gente entender o absurdo de algumas posições: você fica ofendido quando seus conhecidxs não expressam enfaticamente que são héteros? O que você faria se alguém te perguntasse há quanto tempo é hétero? Se um dia pode deixar de ser? Se você precisa de ajuda por isso? Que tá tudo bem, você é hétero “mas ainda podemos ser amigxs”? Melhor rever os conceitos.

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4 pensamentos sobre “Mania de classificação

  1. O pior é que contei nesse final de semana pra uns amigos a história do “machão” que de repente “comete” um ato gay (que a ju mencionou no texto aí em cima, que mencionamos, aliás) pra alguns amigos na mesa de bar, e eles ficaram embasbacados. Vamos ver se consigo contar essa história num próximo post… é muito engraçado ver o nó que se forma na cabeça dos héteros convictos! hahaahha

  2. Lembrei do Walter Lippmann ao ler o texto. O li (bem superficialmente, confesso) durante o desenvolvimento da minha monografia para a graduação. Transcrevo 2 trechinhos d Public Opinion (1922):
    “For most part we do not first see, and then define, we define first and then see”
    P/ ele os estereótipos eram fruto d um processo natural e inevitável, que funcionam como “mapas” que auxiliam as pessoas na compreensão do mundo e a interagirem como seres sociais.
    “They are the fortress of our tradition, and behind its defense we can continue feel ourselves safe in the position we occupy.”
    No entanto, nada impede que estes sejam contornados por meio de educação crítica, segundo o autor.

    • Não sei se concordo com o natural e inevitável. Aliás, discordo, acho a gente aprende, vivendo em sociedade, a classificar as coisas. A gente só conhece esse tipo de ensino. Lembra de Descartes? Então…
      Mas, sim, isso pode muito bem ser contornado.

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