Os psicopatas do smartphone

Esse tema pode parecer clichê, mas as notícias do começo dessa semana de fato nos fazem concordar com a afirmação de que a mania (na verdade, a obsessão) das pessoas com a superexposição na internet atingiu picos preocupantes. Desde que as redes sociais ganharam o mundo, o chamado Oversharing (a ação de compartilhar demais – sabe qual a força da expressão “muita informação”? então!) vem se tornando um fenômeno social digno de estudo, pra dizer o mínimo. A coisa virou um show de horrores à parte com a adesão de celebridades (e, principalmente, subcelebridades) a algumas redes (principalmente o Instagram e o twitter), ampliando em muito as pautas dos sites de fofocas e de gongação de famosos. Vai lá dar uma olhada no Ego, que tem até foto de ex-BBB fazendo pose em cima de uma privada. Precisa de tudo isso, minha gente?

Não é que a falta de noção das pessoas já não existia, mas ela se tornou pública e compartilhada. E não simplesmente porque a pessoa é flagrada fazendo coisas vergonhosas, mas ela mesma faz questão de trazer a público sua falta de bom senso. Além disso, não é uma auto-sabotagem em prol da ironia e sarcasmo. Não, as pessoas pensam que, dessa forma, podem se promover de algum jeito e, bem, há quem consiga.

Sem nos aprofundarmos muito nessa questão das celebridades, apesar do aumento alarmante dos níveis de vergonha alheia em escala mundial, queria falar de fatos mais corriqueiros que costumam ser perturbadores. Aposto que todo mundo já foi alguma vez almoçar ou jantar com um portador de smartphone. E, existe coisa mais desagradável do que ficar falando enquanto a outra pessoa fica o tempo todo olhando aquela tela? Não amigo, desculpa. Eu não quero ficar vendo quem você segue no instagram e eu não quero saber se um “famoso curtiu uma foto sua. Eu só queria companhia pro almoço, mesmo. E queria uma companhia assim, frente a frente, olhos nos olhos. Se eu realmente quisesse vir ao restaurante para ficar olhando a internet, era melhor não sair de casa, comer um miojo e conversar com você pelo chat do Facebook.

Esse assunto, invariavelmente, faz lembrar de uma piadinha bastante engraçadona que faço questão de contar para a pessoa que está a minha frente quando ela puxa o smartphone e começa a postar: “Um paciente chegou ao consultório médico e disse: – Doutor, não levanto a cabeça, não falo com ninguém, quando falam comigo não presto atenção, pareço um idiota. O que eu tenho, doutor? Um Blackberry, respondeu o médico”. É ótima, né?

Um outro fenômeno irritante é essa NECESSIDADE de tirar fotos de todo e qualquer prato de comida que coloquem à sua frente. Já presenciei cenas que qualquer ser humano mentalmente são haveria de achar no mínimo, curiosas: imagine uma pessoa na praia, olhando o mar… pela tela. Esperando ansiosamente os comentários e os “curtir”. Incrível!

Some-se a isso, o desespero de dizer a todos onde você está. Tá aí uma coisa que desde que surgiu sempre me irritou: fazer check-in! Como alguém postou no Twitter à época do saldão nas Casas Bahia: “check-in na fila das Casas Bahia ninguém dá, né?”. Muito menos no motel, eu aposto. Fora os check-ins em hospital, em casa (por que raios alguém dá check-in em casa?). Válido compartilhar se você está num lugar maneiro. Em casa, não precisa. Não mesmo.

Bem, até aí, pode ser engraçado, mas o assunto se tornou preocupante principalmente quando saíram aquelas notícias sobre o Enem. Quanta falta de noção é tirar foto de uma prova? Qual a necessidade de expor na rede social que você está nessa situação de prestar uma prova sabendo que usar o celular nessas condições não é permitido? E se sua intenção era tirar uma foto do seu gabarito para depois ver as respostas que acertou ou errou, querido, você pode levar o seu caderno de prova embora, sabia?

Vimos ainda que publicaram por aí umas fotos das urnas eletrônicas nas eleições. Ai, ai. Lutamos tanto pelo voto secreto pra acabar nisso…

A mania de superexposição deixou muita gente cega. É legal querer mostrar pros amigos o que se anda fazendo, por onde se anda, e as redes sociais de fato nos colocam em contato com pessoas de interesses semelhantes, com as quais construímos vínculos, ou com as quais temos laços a reforçar. Mas esse sem-número de possibilidades de dividir tudo e o incentivo à superexposição leva ao desencadeamento de um mecanismo mental que faz as pessoas acharem normal fotografar uma prova, uma urna, ou até mesmo fazer fotos “sensuais” em frente a cenários de desastres.

Existe aí uma incapacidade de se viver só, de contar com sua própria aprovação. Também acho que este fenômeno de compartilhamento excessivo da vida nas redes sociais intensifica o bullying (mas aí já é uma outra discussão… e que discussão!). Quão corajosos não nos tornamos por trás de uma tela de smartphone ou de um computador? Parece que com essa mania de mostrar tudo o que se faz na vida, na rede, as pessoas desaprenderam a viver para si mesmas e vivem para mostrar o que fazem aos outros, para ter sua aprovação. Ou seja, se você está num lugar legal e não compartilhou, é como se nunca estivesse estado. Se você não fotografou aquele prato lindo, é como se nunca o tivesse saboreado. E bem, seguindo essa linha de raciocínio, mais vale o mar na tela do que o mar à sua frente. E isso é bastante triste.

Eu não sei, concordo que o smartphone pode ser uma ferramenta maravilhosa quando bem utilizado, mas entre uma coisa e outra, ainda prefiro companhia pra almoçar.

 

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4 pensamentos sobre “Os psicopatas do smartphone

  1. Pingback: Virtual x real? « Desinteligência crônica

  2. Adorei o texto!
    Como bem sabe, tenho sérias restrições à utilização de “redes” ao vivo. Sei que chego a ser chata mesmo. Mas vejo necessidade de me posicionar a respeito desse, que para mim chega a ser um desrespeito, de imagem e palavras. Ferramenta ótima para notícias…péssima para conhecimento de si e dos/as outros/as também.
    Compartilhar não é ser engajado/a, definitivamente! Pode até chegar a ser medíocre!*

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