Sobre a mulher no espaço público

Essa semana, navegando pela blogosfera feminista como sempre costumo fazer, encontrei uma página nova, chamada “cantadas de rua – conte seu caso”. Os relatos ali compilados me chamaram a atenção e comecei a pensar mais nesse tema, que é bastante revoltante. Não faz muito tempo, também li uma matéria sobre uma inglesa que criou um site chamado “The everyday sexism project” (traduzindo seria algo como: Projeto Sexismo de Todos os Dias). A página foi construída para que as mulheres relatassem situações de sexismo pelas quais elas passam todos os dias. O resultado? Laura Bates, a criadora do site, já recebeu milhares de ameaças de morte. E o site dela, mesmo assim, continua recebendo vários relatos diariamente.

isso acontece desde sempre.

É tão forte o entitlement (mais explicações sobre o que é entitlement aqui) masculino que “mexer” com mulher na rua é interiorizado como um comportamento natural e totalmente aceitável. E se a mulher responde, ela é uma “vaca mal agradecida e sem educação”, afinal o ASSEDIADOR a abençoou com um elogio (mesmo que não requisitado), e ela deveria se sentir agradecida. Se isso não é cultura do estupro meus caros e minhas caras, eu não sei o que é. Em muitos lugares e para muitas mulheres, andar na rua, uma atividade tão trivial e tão necessária, ainda pode ser um desafio. Como responder? O que fazer?

Uma das coisas que mais me chamou a atenção nos relatos foi o fato de muita das VÍTIMAS (sim, são vítimas, veja bem que estou colocando os termos em caixa alta para tudo ficar muito claro e com os nomes corretos) ainda se lembrarem de assédios que sofreram aos oito, nove, dez, onze anos. O “fenômeno” geralmente começa quando a mulher é muito nova, e não sabe bem como reagir. Ou seja, é todo um sistema cultural que funciona para nos colocar no “nosso devido lugar” desde o momento em que nossa personalidade (e nossos corpos) ainda estão se formando. A prova disso é que todo mundo (digo, as meninas em geral) tem alguma história horrorosa pra contar. Não importa o tipo físico, a roupa da mulher, a idade. Sempre haverá uma “pedreiragem” pra ser ouvida, em qualquer lugar. Lembro de quando fazia faculdade no interior de São Paulo, e tinha de passar ao lado de uma rodovia todos os dias. NUNCA, naqueles quatro anos, se passou um dia sequer em que eu pudesse fazer esse caminho sem ouvir um gracejo ou uma buzinada. Muitas vezes, ao ignorar, ouvia de imediato um “vagabunda, mal amada, mal comida” em resposta à minha indiferença. O que mostra claramente que o intuito desse assédio de rua não é o de elogiar, seduzir, paquerar, como alegam alguns homens. Quem tem interesse genuíno jamais faria isso. O fato de a indiferença gerar raiva e xingamentos (na maoiria das vezes) só demonstra a força do entitlement. Afinal, se a mulher está na rua, é pra isso mesmo, não? NÃO, NÃO É! Aliás, alguém sabe de algum xaveco desses de rua: “Hummm, gostosa!” que tenha resultado em alguma coisa, um namoro, um casamento? Esse desrespeito é simplesmente hábito e não tem objetivo real de conquista, mas serve pura e simplesmente como forma de opressão da mulher, como forma de mostrar que o espaço público não é dela.

nem o brother Obama está a salvo!

Uma outra situação bastante delicada diz respeito às meninas lésbicas. Afinal, se duas mulheres estão ali claramente numa interação amorosa, só pode ser porque… estão querendo agradar os homens. Se duas meninas estão juntas em uma festa, muitos homens entendem aquilo como fetiche, como convite, a menos que se esteja nos guetos ou em ambientes LGBTTTI ou friendly. E muitas vezes, ouvirão das pessoas, inclusive das outras mulheres, que estão ali fazendo aquilo porque querem chamar a atenção, sendo que esse argumento ganha muito mais força se uma delas for bi. Afinal “fulana beija homem, só pode estar de gracinha!” E que jogue a primeira pedra a lésbica que nunca ouviu uma dessas: “nossa, me deixa entrar no meio” ou “isso aí é falta de homem”.

Não sei se é excesso de pornô lésbico (que aliás é péssimo por perpetuar essa visão de que sexo entre mulheres existe somente para o fetiche dos homens) aliado a machismo puro e simples, o fato é que sempre haverão babacas pra dizer que “mulher com mulher eu acho bonitinho”, como faria um clássico Almeidinha. Mais uma vez vamos fazer o exercício de inverter pra escancarar o absurdo da coisa: quando um casal hétero está numa festa se beijando, você chega convidando pra um ménage e dizendo que quer participar? Não, né? Então. Até porque o risco de você apanhar do cara é grande. Já o mesmo raciocínio não funciona quando se trata de duas mulheres…

Lembro-me claramente de uma situação que me incomodou profundamente. Eu estava atravessando a rua e do outro lado um casal de meninas atravessava também, de mãos dadas. Um cara mexeu com elas, falou alguma barbaridade para elas. Uma das meninas se indignou e mostrou o dedo para ele. O cara segurava um capacete que foi arremessado até o outro lado da rua em direção às meninas. O gesto, é claro, foi acompanhado pelos xingamentos comuns aqui já listados. As meninas ficaram desesperadas e saíram correndo.

oi, linda

Tratar lésbicas como fetiche e tratar com fetiche qualquer mulher que passe na sua frente é, sim, um ato machista de opressão da mulher no espaço público. No primeiro caso, tem a ver também com homofobia, além de machismo. No segundo, é a puraobjetificação da mulher. Mas a questão é que não podemos nos calar e deixar que o espaço público seja tirado de nós. Sentimo-nos intimidadas, por exemplo, quando um grupo de homens ocupa a calçada inteira. Minha vontade é sempre a de atravessar a rua, mas eu repenso, afinal a calçada não é deles. E passo ali no meio, mesmo sabendo a chuva de cantadas grotescas a que estarei sujeita com esta atitude.Eu, assim como a maioria das mulheres, não consegui ainda traçar uma estratégia pra escapar disso, afinal, muitas vezes, responder pode ser perigoso. Mas eu faço aqui um apelo para que me ajudem com isso. Afinal, o espaço público é pra quem?

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5 pensamentos sobre “Sobre a mulher no espaço público

  1. Pra mim o mais problemático é confrontar essa atitude.
    Afinal, eu QUERO ocupar esse espaço, eu não quero ter de atravessar a rua ou mudar meu caminho só porque “há uma calçada cheia de homens”, e eu ainda não sei muito bem como responder a essas cantadas. Afinal, xingar pode ser até perigoso, mas eu sei que não quero ficar quieta.

  2. Quando eu era mais jovem, uns oito ou nove anos atrás, eu passei a ficar constrangido com as opiniões e atitudes que ouvia e presenciava em alguns, tantos, homens. Eu ficava tão constrangido e envergonhado por eles que, quando eu saia de casa, mal conseguia encarar as mulheres. Tentava não tornar minha presença, de alguma forma, constrangedora. Depois passei a observar que a maior parte dos homens tinha esse tipo de atitude, mas as atitudes estavam sempre lá independente de ser maioria ou minoria.
    Depois, ainda, passei a observar que, a maior parte das vezes (e não farei uma estimativa em números), quando estão sozinhos eles não demonstram essa atitude, apesar dos olhares que indiscretos (corrijo meu engano dizendo que não demonstram atitudes verbais), e quando estão em grupo essa atitude acaba sendo mais escrachada e agressiva. E a pior parte é “se duas mulheres estão ali claramente numa interação amorosa, só pode ser porque… estão querendo agradar os homens”.
    Confesso que “quando um grupo de homens ocupa a calçada inteira” eu não consigo passar por lá sem uma ligeira vontade de vomitar. Inconscientemente sempre busco uma maneira de desviar o caminho – não é algo tão intenso, mas sempre vem o pensamento.

    Quanto a pergunta: “Espaço público é pra quem?”
    Dês de os primórdios existe a busca pela conquista territorial. Ser o dominante da espécie, eteceteras. Os humanos não estão excluídos disso. Resumindo: muitas vezes o espaço publico acaba sendo daquele que domina, psicologicamente, o lugar. Independentemente do sexo. Aquele que, de certo modo, impõem a sua “força” (intimidando, constrangendo, agredindo, amedrontando, eteceteras).
    Sendo assim, nesse caso, o espaço publico, infelizmente, é para quem confronta esse tipo de situação. Afinal, nem na concepção do governo o espaço tudo é para todos.

    • Eu acho que essa atitude masculina não é intrínseca, apesar de introjetada. Há homens, como vc, que questionam isso e daí agem diferente e, inclusive, sentem nojo daquele tipo de comportamento. Acontece muitas vezes que o homem só é considerado homem se age segundo a cartilha masculina de atitudes deles esperadas. Esperadas por quem? Por mim que não é. Nem por vc e nem por muita gente.

      Quanto ao espaço público, quando ele é pra alguém, mesmo que para quem confronte a situação, ele deixa de ser público. E, na maioria das vezes, tem mais condições de conquistá-lo o homem branco, hétero.

  3. Mais uma vez adorei o texto. O trabalho que estão fazendo me parece muito mais do que necessário!
    Esse machismo que chega a ser introjetado na personalidade de muitos homens também ganha espaço nos tais guetos como maneira e personificação de masculinidade. Temos que ser atentos/as à necessidade de imposição a/o outra/o dos costumes e hábitos que acreditamos condizerem com o gênero que nos apresentamos.
    Espaço público é PÚBLICO, portanto é um espaço onde mais pessoas se encontram e convivem. Até no espaço PRIVADO somos responsáveis pelo que proferimos, que dirá no PÚBLICO!*

    • O machismo é tão introjetado que muitas mulheres ficam lisonjeadas com essas agressões gratuitas na rua. Procurando as fotos para o post achamos um testemunho de uma mulher dizendo que ganha o dia cada vez que recebe uma cantada. E daí fica parecendo, como sempre, que isso é frescura de feminista: tá reclamando do quê? o cara tá te elogiando.

      Mas numa dessa, sei que acabo levando ao extremo achando que qualquer xaveco é uma ofensa! Quase que xingo os coitados. Mas que se tenha bom senso. Há lugares e maneiras de se aproximar de alguém.

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