Conversinhas literárias: “Lendo Lolita em Teerã”

Por Juliana Laet

A notícia chocante da semana passada (além dos supersalários dos procuradores de “justiça” de São Paulo) falava sobre uma iraniana que sofreu um ataque de ácido de um rapaz que queria se casar com ela e ganhou o direito de cegá-lo. Ameneh foi ameaçada tanto pelo rapaz que queria se casar com ela, quanto pela mãe dele, durante meses. Até um dia em que ele resolveu agir, fez uma mistura de ácido sulfúrico e jogou no rosto e no corpo de Ameneh. Como se pode ler na notícia, ela ganhou o direito de cegar seu agressor sendo a Lei de Talião aplicada ao caso. Mas, na última hora, Ameneh resolveu perdoá-lo.

Ameneh, que perdoou seu agressor

Ataques com ácido a mulheres ocorrem em diversos lugares do mundo, até aqui na Colômbia houve casos recentemente. Mas ler essa notícia sobre Ameneh me fez lembrar de um livro que li este ano e que me impressionou demais. O livro foi escrito por Azar Nafisi, uma professora de Literatura Americana na Faculdade de Letras de Teerã e se chama: “Lendo Lolita em Teerã”. Confesso que a qualidade da escrita do livro não é muito sofisticada. É bem simples até, mas os assuntos tratados prendem o leitor de uma forma intensa e angustiante.

Azar voltou ao Irã depois de adquirir o nível PhD. e começou a dar aulas na Faculdade de Teerã enquanto a revolução islâmica ocorria no país e o Aiatolá Khomeini assumia o posto do homem mais poderoso do Irã. A sociedade iraniana se dividia entre comunistas e aqueles que apoiavam a revolução islâmica. Mas ambos tinham em comum a rejeição ao governo do Xá que reinava sob a benção e exploração do Ocidente. Ambos os grupos tinham ódio ao Ocidente, ódio aos Estados Unidos e ao Reino Unido e a exploração destes países sobre seu território. Era comum ver muros pichados com frases de ódio e outras que pregavam a submissão das mulheres.

O livro de Nafisi trata de diversos assuntos, mas os mais chocantes são justamente este ódio incontrolável ao Ocidente e a construção gradativa de uma despersonificação da mulher. A autora descreve como, aos poucos, as mulheres foram sumindo.

“Disappearing Females”, projeto do fotógrafo iemenita Boushra al-Moutawakel

Azar Nafisi, a autora do livro.

Nafisi tem um jeito angustiante de descrever esse processo. A foto ilustra bem, do véu para o véu maior, ainda colorido, mas que cubra todas as mechas de cabelo. A cor vai sumindo até que o véu se transforma em xador, uma roupa negra que cubra todo o corpo. No Irã as mulheres não são obrigadas a usar a burqa, como na foto, que cobre até o rosto, deixando somente os olhos à mostra. Mas tornam-se uma sombra negra que paira sobre a cidade e que ninguém se dá conta da sua existência. Com a obrigação do uso do xador, deixar mechas de cabelo à mostra, é considerado um ato de rebeldia. A autora quase que deixou de ir à Faculdade ensinar por ter sido obrigada a se cobrir, mas depois voltou atrás, viu que ensinar literatura e levar seus alunos à reflexão poderia ser mais valoroso.

Depois de um tempo, as obrigações e censuras do governo, finalmente fazem com que a Faculdade feche por um período e que, mesmo depois de reaberta, se torne insustentável para Azar Nafisi continuar dando aulas por lá. Ela então monta um grupo com algumas de suas alunas mais interessadas e inquietas, um clube do livro. E lá passam a estudar e discutir obras de autores que escrevem na língua inglesa.

Sua obra discute e descreve os conflitos políticos, sociais e pessoais de cada uma ali presente naquela sala de visitas. Descreve o que o Irã se tornou quando virou República Islâmica do Irã: as torturas, as prisões injustas, a misoginia, o medo, a censura, o terror. E acabamos também conhecendo um pouco da vida de cada uma daquelas meninas e mulheres. As dificuldades de viverem em um regime assim, suas inquietações diárias e permanentes, o desejo de mudar o rumo das suas vidas e mudar o país. O Irã sempre foi um dos países menos reacionários no Oriente Médio e, de repente, com a revolução islâmica, os radicais tentaram aos poucos minar as liberdades conseguidas até então pelos iranianos. Mas como a autora mesmo diz: eles só fizeram aquilo que os/as próprios/as iraniano/as permitiram.

Com o regime islâmico instaurado, as mulheres passaram a ter de adquirir a permissão do marido para sair do país. Não poderiam mais andar nas ruas com homens que não fossem seus parentes ou maridos. Não poderiam mais escolher onde sentar no transporte coletivo. Nafisi nos faz acompanhar os passos de Sanaz, uma de suas alunas do clube do livro, de uma maneira agonizante. Deixo o trecho como uma forma de incentivar a leitura dessa obra:

ler Lolita em Teerã, um desafio.

Seguimos Sanaz descendo as escadas e saindo para a rua. É possível notar que seu modo de andar e seus gestos estão diferentes. Sua intenção é não ser vista, não ser ouvida, nem notada. Sua postura não está ereta, ela anda de cabeça baixa e evita o olhar dos passantes. Anda rápido e com determinação. As ruas de Teerã e de outras cidades são patrulhadas pelas milícias que circulam em Toyotas brancos, sempre com quatro pessoas, quatro mulheres e homens armados, seguidos algumas vezes por um microônibus. São chamados de Sangue de Deus. Patrulham as ruas a fim de garantir que as mulheres como Sanaz usem seus véus de maneira adequada , não estejam maquiadas, não caminhem em público com homens que não sejam seus pais, irmãos ou maridos. Sanaz passará por muros com slogans, citações de Khomeini e de um grupo chamado Partido de Deus: HOMENS QUE USAM GRAVATAS SÃO LACAIOS DOS ESTADOS UNIDOS, O VÉU É A PROTEÇÃO DA MULHER.  Ao lado do slogan há um desenho de uma mulher: seu rosto não tem forma e é emoldurado por um xador escuro. IRMÃ, PROTEJA SEU VÉU. MEU IRMÃO, VIGIE SEUS OLHOS.

Se  ela entrar num ônibus, o assento é segregado. Ela deve subir pela porta de trás e sentar nos  bancos traseiros, reservados para as mulheres. Nos táxis, que aceitam até cinco passageiros, homens e mulheres podem viajar apertados como sardinhas, como diz o ditado, e o mesmo acontece nos microônibus, em que muitas das minhas alunas reclamam de ser assediadas  por homens barbudos e tementes a Deus.

A menina Marjane enfrentando a “patrulha da moral” no divertidíssimo Persépolis

Por quase duas décadas, as ruas se transformaram em zonas de guerra, onde jovens mulheres que desobedecem às regras são arrememssadas dentro de carros de patrulha, levadas para a prisão, chicoteadas e multadas, forçadas a lavar banheiros e humilhadas, mas assim que são liberadas, voltam a fazer as mesmas coisas. Será que Sanaz tem noção do seu próprio poder? Ela tem ideia de quão perigosa pode ser? Será que ela pensa no quão vulneráveis são os guardas revolucionários, que por mais de 18 anos patrulham as ruas de Teerã, tendo que aguentar mulheres jovens como ela, e de outras gerações, caminhando, falando, mostrando uma mecha do cabelo só para lembrá-los que elas não se converteram?

Chegamos à casa de Sanaz, onde a deixaremos na porta de entrada, talvez para confrontar seu irmão ou pensar em seu namorado. […]

Essas meninas, minhas meninas, têm uma história real e uma história fabricada. Embora tenham histórias de vida muito diferentes, o regime que as governa tenta tornar irrelevantes suas identidades e suas histórias pessoais. Nunca se livraram da definição de mulheres muçulmanas que lhes foi imposta pelo regime.

Nós nos tornamos a fantasia dos sonhos de outas pessoas – não importava a que religião pertencíamos,  se queríamos usar o véu ou não, se seguíamos certas normas religiosas ou não. Um severo aiatolá , um autoproclamado filósofo-rei, chegou para dominar nossa terra. Ele chegou em nome de um passado, um passado que, como ele afirmou, lhe havia sido roubado. E por isso ele queria nos recriar à imagem daquele passado ilusório. Serviria de consolo lembrar-nos de que o que ele nos fez foi o que permitimos que fizesse?”  (Cap. 8 – Parte 1)

Enfim, vale a leitura!

Persépolis e os desenhos ótimos de Marjane Satrapi

Outra dica para saber mais sobre o Irã e as mulheres é o livro/filme de Marjane Satrapi, Persépolis.

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5 pensamentos sobre “Conversinhas literárias: “Lendo Lolita em Teerã”

  1. Estou lendo “Lendo Lolita em Teerã” e estou gostando muito. É terrível o que uma população toda passa quando um maluco chega ao poder e determina o que todos devem pensar, como devem agir nos atos mais simples do cotidiano. As mulheres no Irã acabam sofrendo mais por todas as restrições que lhes são impostas.

    • Oi, Marie, obrigada pelo comentário!
      O que acho mais foda nessa história toda é que boa parte do povo iraniano quis a revolução e lutou por ela. Mas, realmente, lutaram contra uma opressão (a do “ocidente”) para cair em outra, a da religião. Imagina quão triste é pensar que vc lutou numa revolução que acabou tolhendo seus direitos quando o que vc queria era reforçá-los!

  2. Pingback: Guest post: “A outra face do perdão” « Desinteligência crônica

  3. É interessante notar como as mulheres podem se tornar, a partir de uma leitura e interpretação, pessoas frágeis e, a partir de outra, pessoas capazes das maiores transformações.
    A sequência de fotos com os véus é chocante… é a figuração de todo um processo histórico que não deixa de se movimentar.
    Estamos acostumadas/os a aceitar a história como configuração dada. Acho que esse texto deixa claro o quão mutável cada postura pode tornar a história e o quanto participamos dos contextos como “um todo”.*

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