Guest post: “A outra face do perdão”

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Esse post ainda se relaciona com a temática das mulheres e o islã, mais especificamente, sobre o caso Ameneh e seus significados, que deixou uma de nossas leitoras com a pulga atrás da orelha. Ester Minga, mestranda em Comunicação e Semiótica na PUC, relaciona o que foi escrito sobre o livro de Azar Nafisi com a sociedade iraniana e com a nossa própria sociedade. E pergunta: o que significa de fato o perdão concedido por Ameneh ao homem que lhe havia atacado com ácido e destruído seu corpo e seus olhos? E nos faz pensar: teria sido o perdão um ato de piedade ou resistência?

Boa leitura!

 A outra face do perdão

amenehQuando li a notícia de que a iraniana Ameneh Bahrami havia se recusado a aplicar a Lei do Talião ao seu agressor, conforme a justiça de seu país havia determinado, e, desta forma, absolvido este da pena de ser cegado; não pude deixar de sentir uma enorme admiração por esta mulher.  Enquanto a discussão no meu perfil do Facebook, em que compartilhei a matéria, se limitava a discorrer se os participantes também “perdoariam” em situação análoga ou não; eu só conseguia enxergar na atitude de Ameneh não um ato de misericórdia, conforme os padrões cristãos e ocidentais, mas uma posição de resistência ante o barbarismo que o regime dos Aiatolás emprega no Irã, principalmente sobre as mulheres.

Foi concedido à Ameneh o direito de cegar Majid Movahedi após este ter feito o mesmo com ela ao lhe jogar ácido no corpo. Antes disso, o rapaz havia externado o desejo, também por meio de sua mãe que entrou em contato com a iraniana, de desposá-la, ao que esta declinou; o que deu início a uma série de ameaças e perseguições que culminaram no ataque de ácido.

Sem me debruçar sobre a selvageria da Lei do Talião, cujas noções de Direito e punição são vistas como sinônimas; e conjecturar sobre a enorme força interior de Ameneh que, ao contrário do que deve ter sido um primeiro impulso, se recusou a autorizar a aplicação da lei; quero demonstrar porque vejo sua atitude muito mais como feminista e revolucionária para o contexto atual do Irã, do que o simples ato de permitir o cegamento.

Antes de se classificar este crime como passional e Majid como um louco, o que o tornaria um ato individual de uma mente deturpada, cuja extinção do convívio em sociedade se faz necessária; não seria possível identificar na ação do rapaz a mão desta mesma sociedade, no caso a iraniana? Antes que me acusem de preconceito, não estou afirmando que todos os iranianos são maníacos do ácido prontos a atacar qualquer mulher que se recuse a obedecê-los; mas ao se analisar a situação do gênero feminino atualmente no país, a violência sofrida por Ameneh não parece tão ilógica.

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Se, conforme foi discorrido no post anterior ao se falar do livro “Lendo Lolita em Teerã”, após a revolução islâmica no Irã, as mulheres foram gradativamente despersonificadas e coisificadas; isso por meio, entre outros, da obrigação de se cobrir todo o corpo com um véu escuro, em que só aparecem os olhos, a proibição de poder andar na rua com homens que não sejam da família, de sair do país sem a autorização do marido… Foi irracional da parte de Maijd ter se revoltado com a renúncia de Ameneh em se casar com ele? A negativa da mulher não representou uma afronta terrível de um ser que nem sequer tem o direito de exprimir opinião, que é única e exclusivamente propriedade de homens?

Lembremos que, num primeiro momento, a mãe de Majid, que havia entrado em contato com Ameneh para informá-la do interesse do filho, também começou a ameaçá-la quando esta se recusou a ser sua nora. “(…) ela continuou ligando, dizendo que seu filho era homem e, por isso, tinha direito de escolher quem bem entendesse para ser sua mulher.”.

Diante deste tratamento reservado às mulheres no Irã, acredito sim que o seu governo, que corrobora e institucionaliza este tipo de comportamento, e a sociedade como um todo, também devam ser culpabilizados. Este foi um crime coletivo, não individual e, tristemente, acredito que continuará se repetindo, em inúmeras variáveis macabras, enquanto a mulher continuar coisificada no país.

Mal comparando, uma relação parecida se estabelece entre a cultura do estupro, tão presente em nosso e tantos outros países, e o ato em si. Enquanto o senso comum prefere enxergar o estupro como a ação de uma mente deturpada também levada a cabo em becos escuros contra mocinhas inocentes; se recusa a se questionar sobre a culpabilização das mulheres que são julgadas por suas roupas, comportamento… Além de normalizar atos libidinosos, como o de mexer/constranger uma mulher na rua, o que é visto como mera cantada, passar a mão de leve…

culpaNinguém tem dificuldade em abominar o tipo de estupro acima citado, assim como, acredito, no Irã também julgam escabroso atacar uma mulher jogando-lhe ácido, por não ter aceito uma proposta de casamento, vide a decisão do tribunal em favor de Ameneh. Mas quantas vezes não ouvimos, em outros casos de estrupo diferentes daqueles perpetrados por desconhecidos de madrugada em ruas vazias, que a mulher estava com roupas provocantes, era garota de programa, estava embriagada, foi vista ficando com o suposto estuprador anteriormente…?

Mesmo na situação de “mulher atacada por desconhecido no meio da noite”, ainda são utilizados argumentos desse tipo, assim como no Irã também devem ter alegado quando da discussão do caso de Ameneh, não descarto a possibilidade, que ela “havia sido extremamente hostil com Majid” e etc.

Por isso acredito que, da mesma forma que a nossa sociedade também tem responsabilidade pelos estupros que ocorrem frequentemente e que só haverá uma redução efetiva destes quando se começar a debater e lutar contra esta cultura, a sociedade iraniana também é culpada pela violência sofrida por Ameneh.

Mas, claro que é mais fácil para o regime dos Aitolás, ao invés de discutir a situação das mulheres no país, lançar mão de uma “lei” do antigo testamento, enquanto que, quando ainda havia a possibilidade de recuperar a visão, o presidente Ahmadinejad resolveu cortar a ajuda que Ameneh recebia do governo para se tratar na Espanha, levando-a viver em situação abjeta.

Portanto, mais que um ato de misericórdia de Ameneh, o seu perdão representa uma postura de oposição ao regime de seu país, ao que ele impõe as mulheres. Ameneh afrontou o sistema judiciário do Irã ao se negar a corroborar com a sua noção de “justiça”. Ela não perdoou o seu agressor, continua em busca de uma compensação financeira para prosseguir com o tratamento médico, o que agora será mais difícil de obter, já que a justiça não gostou da atitude de Ameneh e o soltou, mas como ela afirma: “No fundo eu nunca quis aplicar a Lei de Talião. Jamais poderia fazer isso, não sou selvagem. Eu queria mesmo chamar a atenção para o caso e evitar que outras pessoas passem pelo que sofri.”.

Toda a minha admiração à Ameneh Bahrami.

* Aqui, um vídeo em espanhol da euronews conta rapidamente a história de Ameneh e mostra o momento de seu perdão.

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4 pensamentos sobre “Guest post: “A outra face do perdão”

  1. Como eu disse Ester, concordo e apoio literalmente a briga da Ameneh por esse preconceito com a mulher em seu país. Aliás, espero um dia que isso acabe no mundo inteiro! O pior ainda, é a justiça(a justiça é cega) de lá dar o direito a ela de criar outro erro social(lei!?) local. Realmente isso me impressionou tanto quanto! Sobre o texto em si, sou suspeito para falar…mais uma vez vc está de parabéns, vc sabe o quanto eu queria ver você fazendo isso com mais frequência. ;)

  2. Também não imaginava que a Lei do Talião tivesse validade em algum lugar ainda, mas o que pensar de um país que se dispõe a apedrejar adúlteras?
    O que mais me chamou a atenção no documentário, foi a cena em que uma das familiares de Ameneh que defende o cegamento de Majid, o justifica afirmando que na contexto atual iraniano, ele se faz necessário. Do tipo, vamos resolver um problema criando outro… As mulheres tem seus direitos mais elementares, como o de ir e vir livremente, negados, mas não vamos discutir isso, se houver algum “exagero” nesta negação, nós fazemos valer o Talião… Triste.

  3. Confesso que fiquei chocada quando vi que a Lei de Talião ainda tem aplicação válida (pelo menos no Irã)
    De fato, nesse caso, o perdão foi o maior ato de coragem, mais do que o ato de usar a lei a seu favor (a seu favor?). A frase em que ela diz “não sou uma selvagem” é muito simbólica.
    Também fiquei admirada.

    e o texto é ótimo :)

  4. Ester, bastante interessante esse ponto de vista.
    Vi um documentário, que vc também viu, mostrando Ameneh levando a cabo o julgamento que lhe daria o direito de cegar Majid. Ela dizendo que não o perdoaria, apesar de ter pensado nisso algumas vezes, mas ele deveria sofrer para aprender uma lição. Depois vemos uma Ameneh afirmando: “eu não sou uma selvagem”.
    Fica claro que ela queria colocar o caso em evidência e ao negar devolver a violência recebida, ela nega a violência com a qual é oprimida a sociedade e, principalmente, as mulheres. Nega o “remédio” oferecido por um governo que não se dá ao trabalho de “prevenir” os males da sociedade iraniana.
    Faço das suas palavras as minhas: toda a minha admiração a essa mulher incrível.

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