O que mudou no cinema da sessão da tarde até aqui?

Por Marilia

ju on

Pôster de Ju On (O Grito), com o menino Toshio

Se existe na vida moderna algo melhor que a própria internet, é o ato de baixar filmes por meio da internet. Sempre gostei de cinema, mas morando numa cidadezinha do interior de São Paulo, antes do advento do torrent, era difícil encontrar filmes “diferentes”, por assim dizer. De fato, acho que minha geração tem muito de sessão da tarde. Eu tenho uma formação cinematográfica sessão da tarde. Todos conhecem aqueles filmes, em sua grande maioria, americanos. O tal do ‘soft power’ cultural americano de fato é algo fabuloso. Senão, por quais motivos existiriam pessoas decorando suas árvores de natal com neve artificial num país tropical? Qual era a criança que, nos idos do comecinho dos anos 1990, não sonhava em ter um armário na escola? Além disso, brincávamos de Barbie (eu, no caso, e muitas das minhas coleguinhas), usávamos jeans, all-star, camisetas do Mickey, tomávamos coca-cola e sonhávamos em ir à Disney.

Algumas coisas mudaram, outras nem tanto. Em suma, aquele era um momento em que era cool, era legal ser americano. Não lembro muito da conjuntura política de então, já que eu era bem nova, mas a sensação que eu tenho é a de que era uma época de esperança, de buscar a redenção por meio do nosso próprio projeto nacional, de tirar nosso naquinho daquele furor de globalização. Era ainda, a continuação do sonho americano que se estende até os dias de hoje, da busca por melhores padrões de consumo que se confundem com melhores padrões de vida, melhores condições. O mundo se tornava multi, plurilateral. As coisas se encaminhavam, apesar de tudo.

Mas onde eu estava mesmo? Pois bem, no cinema. Especialmente, nesse final de semana, fiquei em casa e tirei um tempo pra fazer algo que há tempos eu queria fazer: ver filmes de terror asiáticos. Tive uma época, na adolescência, de ver muito filme de terror, adorava. Mas como são repetitivos, acabei me cansando. Mas nesse sábado de tédio, resolvi tentar me divertir com eles novamente. Assisti primeiro Ju-On, em sua versão original, que ficou mais conhecido como “O Grito”, no remake americano com a Sarah Michelle Gellar no papel da protagonista. Eu sei, é antigo, mas eu nunca tinha visto.

Comecei, então, a me lembrar de várias outras refilmagens que existem por aí. Tem o “Deixa ela entrar”, cujo original é um filme sueco sobre vampiros, feito bem antes de Stephenie Mayer sequer pensar em escrever Crepúsculo. Além de outros filmes como Shutter, Dark Water, Ringu (O Chamado), a trilogia Millenium, que foram ganhando, um após o outro, suas versões americanizadas. Percebi então como é irritante essa mania americana de fazer remake dos filmes. Quer dizer, que é irritante todo mundo sabe, mas comecei a pensar o quanto isso dá a impressão de que o americano é uma criança mimada, um bobo, um preguiçoso que não consegue entender uma história a menos que ela seja devidamente adaptada à sua linguagem, à sua cultura. Fecham-se no mundo deles e esquecem que existe o resto do planeta. Um reflexo da política externa? Quem sabe um traço cultural que determine a política externa em alguns momentos? Sim, talvez, não dá pra descartar. Talvez também entre um componente de prepotência nessa história, já que supostamente as técnicas de filmagens e os recursos norte-americanos seriam melhores em geral. E com as “versões ocidentais”, essa é também a cultura que também vai mediar o nosso entendimento da história, já que são essas as produções que majoritariamente ganham terreno por aqui (e, imagino, em grande parte do mundo ocidental).

the grudge 2

Sarah Michelle Gellar na versão americana de Ju On (The Grudge)

Falando especificamente dos filmes japoneses de terror, li algumas críticas ressaltando o teor mais psicológico do gênero em sua variação asiática, a arte de fazer thrillers bem feitos sem tantos efeitos visuais, envolvendo tradições orientais/japonesas do budismo, histórias sobre espíritos, etc. Além disso, aos nossos olhos, é uma vantagem não ter a dualidade deus/demônio nos filmes, tão presentes nas produções ocidentais. Ou seja, extrapola

ndo a questão do gênero cinematográfico, dá pra ver o quanto é legal e enriquecedor observar as outras culturas através do cinema. Mas não somente os norte-americanos, como todos nós, temos a constante necessidade de adaptar tudo ao padrão ocidental. No caso dos remakes de Hollywood, isso fica mais escancarado.

deixa ela entrar

Cena de ‘Deixe ela entrar’, na versão original sueca

No entanto, muitas vezes, o filme perde seu sentido se deslocado do contexto cultural original, ainda que se preserve muito das histórias originais. Mas veja como é difícil, por exemplo, engolir a garotinha de “Deixa ela entrar” num cenário de subúrbio norte americano! Ao copiar alguma coisa, sempre se corre o risco de perder o essencial. É como traduzir um texto. Você busca a palavra que transmita o significado mais próximo, mas sempre se perde alguma coisa. No caso de “Deixe ela entrar” a versão americana é razoavelmente fiel ao essencial da história, e não consigo pensar em algum motivo plausível para terem produzido o remake, a não ser que os americanos sejam de fato preguiçosos demais pra ler legendas ou fiquem incomodados demais em escutar pessoas falando outras línguas. Não posso também deixar de acrescentar que “Deixe ela entrar” na versão americana deixa muito a desejar. Não existe o suspense, o filme é só mais uma historinha vampiresca de qualidade duvidosa. Existe um motivo para a vampira sueca não ser sexy. Ela é praticamente uma andrógena e isso é importante no filme, porque a vampirinha não é humana, logo, sua sexualidade é distinta da humana. No filme americano, ela chega a se apaixonar pelo garoto, o que é um absurdo no contexto do filme sueco em que o romance não é concebível para a vampira. Só uma amostra de quanto se pode distorcer a história, mesmo que se mantenha o mais essencial.

deixa ela entrar americano

A protagonista de ‘Deixe-me entrar’ (interpretada por Chloe Moretz). Repare como a aparência da vampirinha muda!

O fato é que muita coisa mudou dos anos 1990 pra cá (ainda bem!). Tivemos a era Bush, o Iraque, o Afeganistão. A imagem que o mundo tem sobre a nação norte-americana já não é a mesma. E isso também vai refletir no cinema. Hollywood tem boas produções e as superproduções continuam sendo os maiores sucessos de bilheteria. Afinal são feitos para vender e cumprem esse papel.

Embora o que impere nos Cinemarks da vida ainda sejam os filmes pastelões americanos com seus nomes pateticamente traduzidos, muita gente começa a ter mais contato com outras coisas através da internet. Pelo menos aqui no Brasil, os cinemas mais “alternativos” tem sido muito frequentados. Antes víamos Cinemarks pipocando para todo lado, em tudo quanto é shopping, agora vemos crescer alguns espaços diferentes e que exibem filmes vindos de várias partes do mundo. Inclusive, o cinema brasileiro também se fortificou e começou a ganhar o mundo. No ano passado tivemos muitos filmes argentinos de sucesso em cartaz. Esse ano, um filme francês (Os Intocáveis) foi bastante elogiado, embora contenha muitas referências hollywoodianas (quem nunca). Não sei se essa sensação de maior diferenciação no cinema é algo que só eu vejo, mas fico satisfeita pensando na transformação que eu sofri da Sessão da Tarde até aqui.

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Um pensamento sobre “O que mudou no cinema da sessão da tarde até aqui?

  1. Acho que não é tanto preguiça do americano, quanto a crise de falta de criatividade dos roteiristas. Daqui (pela tv) a gente vê um americano esclarecido de cidade grande que não reflete a realidade interiorana da massa americana, que não bebe das águas internacionais. Se pegarem qualquer livro brasileiro e reescreverem vai bombar nos eua. Basta ver a “Vida de Pi”, notadamente plágio do livro do Scliar (investigue). Além disso, a indústria cinematográfica americana atingiu um ponto de comodismo (qualquer porcaria vende) e covardia, que quase não se filmam roteiros originais, apenas livros de sucesso e remakes.
    A propósito, gostei do nome do blog e cheguei aqui pesquisando sobre a nova abertura da sessão da tarde, que me faz crer ainda mais que tem algum sabotador infiltrado na emissora. Ou isso ou é desintelingência crônica!

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