Virtual x real?

Por Juliana Laet

Is there an useful distinction between online social life and the worlds of ‘real life’? …

icqComecei a usar o ICQ na década de 1990, quando a internet ainda era discada. Para se fazer download de uma música demorava uma hora, o tempo que a gente leva para baixar um filme hoje. Não consigo me recordar qual o processo que fez com que a internet passasse a representar uma parcela significativa da minha vida social, mas lembro como eu ficava ansiosa para poder entrar no ICQ no meio da madrugada, tentando enganar meus pais e ficar conversando por horas no chat. O fato é que a internet me colocava em contato com pessoas que eu, provavelmente, nunca conheceria se não fosse através dela. Além de intensificar as minhas relações com amigos e amigas que eu via só uma vez por semana ou menos.

No ICQ, o chat em grupo não permitia acentos e daí as pessoas começaram a inventar um dialeto específico para que pudessem se entender ali. O sucesso daquele programa de troca de mensagens instantâneas, na minha idade, tinha a ver também com a habilidade de digitar tudo muito rápido. E para isso era preciso, além de evitar o uso de acentuação, escrever as palavras usando o menor número de letras possível. “Que” era “ki” ou “q”, “porque” era “pq”. Só o “não” que nunca entendi o motivo era “naum”, dava ainda mais trabalho pra escrever.

O ICQ tinha um formulário que a gente preenchia falando um pouco de si. Nem me lembro muito bem quais os campos, mas era legal preencher aquilo com um nickname bacana e tentando parecer cool. Depois do ICQ passou a ser moda ter um blog. No começo era como um diário virtual até que as pessoas passaram a querer fazer com que esse diário particular se tornasse de conhecimento público. Estava oficialmente lançada a era da auto-exposição excessiva e desejada.orkut

Daí pro Orkut foi um pulo! Quando recebi o convite lá em 2004 eu não entendi qual era o objetivo daquilo. Minha amiga me convidou e eu perguntei o que era essa coisa de nome estranho:

– Ah, não sei direito, mas você coloca foto sua, escreve um pouco de você. Tem umas comunidades também para se falar dos assuntos que a gente gosta.

– Mas dá para conversar com as pessoas? É tipo o MSN (o ICQ a essas alturas tinha perdido espaço pro MSN)?

– Nãaao! Você só fica lá com um perfil, bota umas fotos e olha o perfil do outro.

– Ah, bom, que coisa tonta!

Mesmo achando uma tontice fiz um perfil no tal Orkut, que ficou em banho-maria até a rede social virar a febre da geração do segundo milênio. Daí comecei a me envolver e mergulhei mais profundamente ainda no oceano virtual. Comecei a perceber o tanto de gente diferente de mim que existia por aí. Até mesmo gente que eu pensava conhecer, por exemplo, colegas da escola, mostraram ali naquele novo espaço social, que poderiam ser ou fingir ser bem diferentes do que aparentavam.

internet

Mas nessas idas e vindas do mundo virtual fiz algumas amizades. Algumas dessas pessoas eu nunca encontrei pessoalmente. Algumas delas encontrei e gostei, outras encontrei e me desesperei. Mas as relações virtuais nunca pareciam realmente sérias. A gente conversava sobre tudo da vida, era mais fácil se abrir com uma pessoa que não fazia parte do círculo imediato de relações. Mas depois de me abrir completamente, de um dia para o outro, eu nem sequer tinha vontade de continuar conversando com aquelas pessoas. E eu dizia para mim mesma: relações virtuais não são reais. Encontrar alguém, namoradx ou amigx, pela internet não era visto como uma relação verdadeira. Eram pessoas inexistentes apesar de serem de carne e osso por trás da tela. Mas ali, dentro daquele monitor pesado, elas se faziam como bem entendiam.

Lembro que na época do blog conheci uma menina e que nos tornamos melhores amigas virtuais e aquilo parecia tão real pra mim que até chegavam cartas dela em casa! Era incrível como aqueles papéis pareciam existir. Como a voz dela soava verdadeira ao telefone. Ela até tinha uma casa no interior do estado à qual me convidou a visitar.

Nessa mesma época retomei contato com uma outra pessoa, uma menina que havia estudado comigo na segunda série. Conversávamos sobre tudo, música, vida, religião, amor. Ela ficou inexistente também por uns dois anos, até que combinamos de nos encontrar no terceiro banco da esquerda na Catedral da Sé. Aquele ficou sendo nosso ponto de encontro. Parecia poético, parecia real.

Tive uns casinhos “amorosos” nessa época também. Neste caso foram romancezinhos com pessoas que nunca encontrei de fato. Mas com quem eu adorava conversar.

O fato é que todas essas pessoas existem de verdade e que, por mais que realmente seja possível ser outra coisa no ambiente virtual, os relacionamentos neste ambiente são uma realidade. Muita gente de outras gerações tende a menosprezar o tipo de relação pessoal que as pessoas da minha geração tem. Afirmam que não sabemos nos relacionar ou interagir porque só o fazemos através da internet. E isso é uma bobagem. Por acaso se relacionar pela internet deixa de ser se relacionar?grupo

Faz 2 anos que me formei e mais de um ano que mantenho esse blog com a Marilia que estudou comigo na faculdade e com quem converso somente pela internet. Isso, por acaso, faz com que nossa amizade seja não uma amizade, mas uma amizade “virtual”? É claro que há diferenças numa relação face a face para uma virtual, porém isso não quer dizer que uma seja melhor que a outra.

Nós, dessa geração, mantemos laços virtuais sim. E que são muito mais numerosos do que os laços que temos com pessoas com as quais sempre nos encontramos. Mas uns não se separam dos outros. Aliás, tenho certeza de que se não fosse por essa coisa irreal que é a internet eu nunca mais teria visto um monte de gente que consegui encontrar depois por conta das redes sociais ou troca de emails.

Tenho minhas críticas à exposição exagerada, às pessoas que vão ao bar pra ficar conversando pelo smartphone, a quem viaja apenas para poder postar fotos no instagram e tudo mais. Já escrevemos um texto a respeito. Mas não gosto dessa crítica classificatória de relações sociais. Que insiste em afirmar que relação de verdade é só aquela que a gente tem face a face.

Estamos na era da internet e essa é a nossa realidade. Protestos, marchas, ocupações são organizadas pelas redes sociais. Manifestações virtuais já pararam o mundo, lembram quando o Anonymous derrubou sites do governo por conta da prisão do fundador do Megaupload? Movimentos sociais globais que ocorrem de fato são organizados através internet, lembram do Occupy Wall Street? Pessoas viram feministas por conta dela. Debates valiosos são travados neste ambiente.

Ainda, há quem conheça suas parceiras ou parceiros também por aqui. O churrasco ou o encontro no bar muitas vezes são arranjados pela internet. E tudo isso acontece de verdade. Convenhamos, a diferenciação virtual e real deixou de fazer sentido há muito tempo.

Increasingly, it seems like the answer is no. The two have blended into one world: the world of real life, as people live it.

(Kozinets no livro Netonography)

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