O carnaval do crack

Gosto bastante dos blocos de rua aqui em São Paulo. Os da Vila Madalena são os mais cheios e normalmente tive experiências bacanas por lá, apesar da super lotação e de que parece impossível uma multidão não estar permeada de alguns babacas sempre dispostos a assediar alguma mulher.

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Neste Carnaval acabei confundindo os dias e em vez de ir ao Bixiga pular com o bloco dos esfarrapados, fui parar no centro de São Paulo, no meio do bloco do Triunfo. As chuvas torrenciais acabaram prejudicando meu carnaval, mas elas não desanimaram todo mundo. Neste dia, uma tempestade acabou atrasando em algumas horas a saída do tal bloco. Bebendo uma cerveja num boteco depois de procurar em vão o bloco pelas ruas do centro da cidade, ouvimos a bateria ao longe e corremos para nos juntarmos aos triunfantes que, na verdade, seguiam a bateria da Medicina da USP.

Fomos caminhando por algumas ruas famosas: Avenida São João, Ipiranga. O bloco parou por instantes na famosa esquina e continuamos caminhando. Uma mulher de peruca loira, macacão de oncinha colado no corpo e um salto 15 mandava beijos para quem nos olhava pelas sacadas e janelas. Um homem fantasiado de Drácula dançava e girava pelas ruas e pelas calçadas. Tropeçou, caiu assustado em cima de uns móveis quebrados jogados pelo passeio. Levantou-se e voltou a dançar. A menininha sentada nos ombros do pai olhava ao redor, curiosa e alegre. Com um véu rosa enrolado no corpo parecia uma princesinha. A Branca de Neve também estava lá com um amigo travestido de travesti.

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O grupo ia avançando e no caminho outras pessoas iam se juntando a nós. Uma moça descalça com a filha também nos ombros dançava e sorria, com alguns poucos dentes na boca. Um rapaz com as roupas rasgadas e o tênis todo estragado sentara no “carro alegórico” e começara a chacoalhar o corpo e as pernas.

Entramos na rua Vitória. Um menino cabisbaixo andava pelo meio do bloco. Do lado esquerdo um homem grisalho, bem vestido começava uma briga com um outro rapaz enraivecido. O senhor grisalho lhe roubara o cachimbo. Enquanto eu me distraía com essa cena, uma mulher com cicatrizes de queimadura pelo corpo todo passou pulando e dançando ao som do samba.

Ficamos em choque por um tempo. Sem saber muito bem o que fazer. Juntamo-nos no canto da rua. A bateria parou de tocar e o bloco logo se dispersou. Pegamos outro caminho com medo de voltar pela rua Vitória.

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Entramos na Rio Branco em direção à Praça da República. Na Rua General Osório, vimos novamente uma multidão de usuários de crack reunidos como zumbis à procura de uma nova dose.

A moça negra com trancinhas bem feitas nos cabelos, a roupa bem aprumada e brincos dourados, sambava descalça em meio a tantas fantasias. Conforme íamos caminhando, o número de pessoas com olhos vidrados ia aumentando. O cheiro era forte e ruim. Alguns andavam para lá e para cá como zumbis. Outros permaneciam agachados ou sentados nas calçadas com seus cachimbos nas mãos. Uns deles se juntaram a nós e sambaram de um jeito despojado.

Temos lido muitas coisas na internet a respeito da luta contra o crack. Na administração Kassab houve o ataque à cracolândia principalmente focados na rua Helvetia, buscando dispersar os usuários. A medida foi bastante criticada. Era clara a intenção de fazer uma limpeza no local.  Críticas foram feitas à ação do governo, fizeram até um churrascão da gente diferenciada na cracolândia.

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O centro de São Paulo se valoriza a cada dia. Dispersar os usuários dizendo que havia disponível um local para tratamento seria suficiente? Hoje vemos pela cidade várias cracolândias menores. Muitas delas no centro e ainda em Santa Cecília. Há também no sul da cidade, na região do Grajaú e, possivelmente, em várias outras regiões. E isso não está restrito somente à cidade de São Paulo, diversas cidades do interior, e de outros estados também convivem com mini-cracolândias.

Fala-se atualmente em internação compulsória. O governo mostra os números: foram mais de 6 mil ligações de familiares pedindo pela internação de alguns usuários. Tenho lido alguns textos criticando a medida, afirmando que forçar um tratamento não significa eliminar o problema. E não fazer nada, o que significa?

Eu leio críticas e concordo com a maioria delas, mas não leio sugestões cabíveis. Convencer o usuário a se tratar mostrando que há futuro? Eu nunca conheci um usuário de crack, porém os que vi caminhando pelas ruas não me parecem em condição de refletir sobre um futuro que vá além da próxima pedra. A imagem é triste, deprimente. São pessoas que não parecem mais seres pensantes, mas um bando de gente perdida que não percebe que existe vida, só existe crack.

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Todos os grupos de tratamento para viciados em alguma coisa (álcool, drogas, sexo, etc.) partem do princípio de que o vício é uma doença e que o viciado ou a viciada deve decidir por si o momento em que se abre para receber ajuda. Eu concordo com esse princípio porque cada pessoa deve decidir por si e pela sua vida. Mas isso pode ir até um ponto em que essa pessoa tem condições de pensar e decidir.

E se a dependência da droga chega ao nível em que essa pessoa se torna incapaz de refletir sobre si mesma? Ainda mais uma droga como o crack que frita o cérebro de quem a consome e o destrói tão rapidamente?

Talvez a decisão dos familiares possa contar como parâmetro, mas ainda assim é difícil. Sem a determinação genuína de superação do vício, fica difícil conseguir uma recuperação concreta, duradoura. – “vocês dizem isso porque não tem um viciado na família!” – bradam mães, pais, parentes. De fato, não sei o que é isso. Porém sei de uma coisa: o modo truculento como se tentou conduzir a “limpeza” na gestão Kassab com certeza não é uma resposta. São abundantes os relatos de violência, abusos de policiais, maus-tratos. A especulação imobiliária triunfando sobre as esperanças dos familiares. Isso sim está muito errado.

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Não tenho respostas e concordo em parte com as várias críticas que tenho lido. Mas uma coisa é clara, não dá para não fazer nada e deixar estas pessoas nessas condições. A contradição na minha fala parece evidente: sou a favor da liberdade das pessoas de fazerem suas escolhas, mas não sou a favor de deixá-las gozar dessa liberdade. No entanto, me parece que a pessoa deixa de ser livre a partir do momento em que uma substância tóxica e destruidora domina seus pensamentos e atos. E é neste ponto que se deve interferir, privando-a sim de continuar se destruindo por conta de uma inabilidade em julgar seus próprios atos. Mas a linha é tênue demais. Não sei, não sei.

Milhares de pessoas estão pedindo que internem seus familiares, pois já não sabem mais o que fazer. O que deixo são questionamentos e não respostas prontas, pois não as tenho. Mas o que senti passando ali no meio daquelas pessoas ao som de uma bateria e num bloco de carnaval chamado bloco do Triunfo foi que, mais uma vez, o crack sambou na cara da sociedade e que quem triunfou ali foi mesmo ele e ele somente.

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