O carnaval das Letras – diários de viagem

vista pedra branca

as pedras brancas que se vê lá de cima

Por Marilia

Apesar de ser uma grande admiradora e consumidora dos quitutes mineiros, nunca tinha pisado no estado das Minas Gerais até o carnaval último. Seguindo a tradição deste blog de publicar impressões sobre viagens, relato abaixo, sem muito compromisso com a realidade, minha visita à mística e adolescente São Thomé das Letras.

Primeiro, fico intrigada com esse “das Letras”.  Por que das letras? Locais me deram informações desencontradas, mas vasculhando o verbete da Wikipédia, concluí (sem nenhum embasamento concreto) que o lugarejo recebeu esse nome por conta da lenda da carta que teria sido entregue ao escravo João Antão, para que este a repassasse ao seu senhor, por um certo velho de vestes brancas. O tal velho teria aparecido enquanto o escravo fugido se escondia numa gruta, que fica hoje no centro da cidadezinha. Na época, era quase impossível que um escravo soubesse escrever e, por isso, quando o senhor recebeu a carta, ficou muito impressionado com a qualidade da redação, e perdoou o antigo escravo. Acho que as Letras do nome vêm daí. Dizem então que, retornando à gruta, tudo que encontraram foi a imagem do apóstolo São Thomé. A gruta é aberta ao turismo, e o tal São Thomé está lá dentro. Me chamaram a atenção para o fato de que ele estava acorrentado ao altar, pois, ainda segundo a lenda, ele desapareceu quando levado à casa do senhor e reapareceu na gruta, por inúmeras vezes. (lembrei do duende da Amélie quando me disseram isso). Não é irônico que o apóstolo São Thomé era justamente aquele que só acreditava vendo?

sao thome pedra

apenas um dos milhares de botequinhos no meio das pedras

A viagem já começa com essa pesquisa nada usual. Poderia estar assistindo um daqueles programas conspiratórios da Discovery, mas só estava checando os pontos turísticos que eu logo visitaria. Outro fato que me chamou a atenção: vi órgãos públicos na cidade que foram nomeados em homenagem a João Antão. Sempre vejo por aí: Escola Estadual Coronel tal, Hospital Público Presidente Fulano, porém nunca tinha visto um órgão público chamado pelo nome de um escravo.  Com o bônus de que outros diversos estabelecimentos receberam o nome de Chico Taquara, um velho curandeiro, segundo outra lenda famosa. Toda a estrutura da cidade gira em torno das lendas, e é isso que a faz tão fantástica e tão procurada por turistas e maconheiros.

Misticismos à parte, não é mesmo difícil encontrar mistério em toda a pedra que dá forma à cidade. Explico: tudo, absolutamente tudo, é feito de pedra, desde o chão das ruas (melhor não ir de carro se você for alguém muito apegado ao seu automóvel) à estrutura das casas. De qualquer ponto da cidade se vê a pedreira branca, no alto da montanha. Uma olhada rápida pelo satélite do google, e se poderia até mesmo pensar que se tratam de picos nevados. No mínimo, interessante, não?

Essa cachoeira se chama vale das borboletas. Dizem que é um portal, e que registra diversas aparições de óvnis. Não se se é verdade, mas a beleza do lugar é real.

Essa cachoeira se chama vale das borboletas. Dizem que é um portal, e que registra diversas aparições de óvnis. Não se se é verdade, mas a beleza do lugar é real.

Das cachoeiras que são ditas portais à pirâmide de pedra no ponto mais alto da cidade (a história dessa pirâmide é outra que poderia estar em um livro de realismo fantástico), tudo transpira o místico, o fantástico, o inexplicável. Moradores contam histórias desencontradas sobre fatos que juram ter acontecido na cidade e afirmam avistar óvnis no céu cotidianamente. Se é verdade ou não, não cabe a mim julgar. Mas convenhamos: a concentração de tantas lendas e casos inexplicados em um só lugar é um tanto intrigante. Dizem que as lendas surgiram para explicar aquilo que o ser humano não tem capacidade ou ferramentas para entender. Mas o que eu vi em São Thomé foi um elo comum entre aqueles que visitam o local em busca de uma energia diferente, de algum respingo de fantasia, em busca de se sentir único por ter presenciado um grande acontecimento. Se há um adjetivo que não se aplica à cidade, é esse: grande. Tudo é pequeno, simples, não há luxos à vista. O que dá o ritmo à cidade é a apreciação da natureza. Os turistas vão em busca das belas cachoeiras e paisagens. E pode-se até mesmo dizer que de fato se vive, em grande parte,  em função da natureza em um lugar como aquele. Resgatando esse elo, percebemos como somos dependentes das dinâmicas naturais que por vezes escapam do nosso entendimento pleno. Afinal, uma simples chuva pode te deixar ilhado num bar, impossibilitado de caminhar três quarteirões até sua cama sem se perder na neblina (o que de fato me aconteceu). Um belo por do sol, um belo céu estrelado. Sendo místico ou não, não há como negar que é de fato mágico se deitar naquele amontoado de pedras brancas para olhar um céu estrelado, esse espetáculo tão cotidiano, para o qual não se costuma pagar a entrada.

a estranha pirâmide no alto da cidade, que sedia o fabuloso pôr do sol.

a estranha pirâmide no alto da cidade, que sedia o fabuloso pôr do sol.

O elemento adolescente da cidade fica por conta dos frequentadores. Essa é uma viagem que eu certamente gostaria de ter feito no auge dos meus quinze anos, mas acho que talvez não soubesse aproveitar. Será que as lendas de São Thomé se propagam por causa da idade e da mente ainda fértil dos seus frequentadores? O que eu sei é que eu era sonhadora, e teria visto muito mais do que vi ali naquele céu hoje, já condicionada pelo modo adulto de pensar as coisas. Falando sobre aspectos mais práticos, há muito adolescente pirando pelas ruas de pedra, mas há também muita gente mais velha que não esqueceu como é gostar de rock. Em cada portinha de bar, há um som estéreo antigo tocando Led Zeppelin, Pink Floyd, etc. De certa forma, resgatei meu passado roqueiro com essa viagem. Acho que nunca vivi um carnaval tão heterodoxo. Pensei nisso ali, sentada na calçada, conversando com um moço que me contava histórias fantásticas envolvendo grutas, cachoeiras, rios, etc. E me senti dentro de um livro estranho.

vista de lá de cima, a matriz do centro de São Thomé

vista de lá de cima, a matriz do centro de São Thomé

“O fantástico irrompe no cotidiano”, diz uma frase do autor argentino Julio Cortázar. Acho que essa frase pode ser usada pra sintetizar a essência de São Thomé.

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2 pensamentos sobre “O carnaval das Letras – diários de viagem

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