Reality shows e realidade: um ciclo perverso

Por Marilia

Em plena época de Big Brother Brasil, comecei a ler o famoso livro teen de Suzane Collins, os “Jogos Vorazes”, Hunger Games no original. Já tinha visto o filme e simpatizei com a história da protagonista Katniss, apesar do ritmo bastante hollywoodiano do filme, afinal de contas, estamos falando de um blockbuster. Clichês à parte, na minha opinião, livro/filme é válido como entretenimento, e a heroína caçadora, interpretada pela formidável e desastrada Jennifer Lawrence, tem sido apontada como um ícone da força feminina – o que rendeu, inclusive, críticas ao filme (estão ensinando as mulheres a serem menos femininas e mais violentas! zzzzz, ai que preguiça). É claro que a história tem lá suas falhas e é bastante adolescente. Mesmo assim, o filme passa no Bechdel test* com louvor!

poster oficial do filme

poster oficial do filme

Algumas semanas atrás, me chamou a atenção esta notícia sobre um outro livro, escrito por uma socióloga da FGV, que analisava os reality shows igualando-os a ritos de tortura. Ainda não tive acesso ao livro mas, com base somente na matéria, as idéias parecem fazer bastante sentido. De cara, no começo da notícia, chama a atenção a comparação com a série de filmes sangrentos “Jogos Mortais”. É claro que os Jogos Vorazes também me passaram pela cabeça. Parece muito radical? Logo perceberemos que não é tanto assim.

Logo no começo, a socióloga – que se chama Silvia Viana – explica que sua motivação na pesquisa também incluía traçar a relação entre a realidade produzida para a tevê e seus paralelos no mundo real, em nosso cotidiano. Há treze anos, assistimos, confortáveis em nossos sofás, às peripécias dos chamados “Brothers”, enquanto estes se submetem a todos os tipos de caprichos da produção, desde passar horas em pé sobre uma corda suspensa, a ficar mais de um dia com as mãos sobre um carro, e até mesmo rendendo-se à prisões em quartos brancos e quartos surpresas, numa tortura totalmente monitorada e televisionada. Tais “provas” supostamente buscariam incitar  a desistência do participante devido ao cansaço psicológico ou ao estresse provocado deliberadamente em nome do puro entretenimento. No que diz respeito ao mundo real, a autora chama a atenção para a semelhança dessas situações com o mundo do trabalho. A maioria dos universitários, por exemplo, já se submeteu a dinâmicas para selecionar estagiários para grandes corporações, onde provavelmente tiveram de seguir ordens que poderiam ser consideradas ridículas em outros contextos, sem saber seu propósito real. A estratégias do RH se tornam cada vez mais obscuras e estranhas. Como ex-participante de processos desse tipo, achei o paralelo impressionante. Lembram da agência que promoveu um processo seletivo baseado em show de calouros para contratar um estagiário? Pois nem isso despertou protestos substanciais da parte dos submetidos. O mesmo acontece num reality show: vale tudo, de relacionamento fake a conversar com as câmeras como estratégia de dialogar com a audiência. Não importa que a ordem da produção seja completamente despropositada, os participantes usarão roupas ridículas e entrarão no jogo para satisfazer o público, sem jamais contestar a razão de sua submissão.

O infame quarto branco

O infame quarto branco

Um prêmio de um milhão e meio seria um motivo capaz de causar essa cegueira toda? Considerando que as chances de cada participante são bem pequenas e que a estratégia de jogo nunca pode ser considerada segura, a socióloga alega que não. Indo mais além, em minha opinião (baseada em minhas impressões apenas, quero enfatizar), acho que também é possível afirmar genericamente que poucos universitários questionam o sistema em que estão inseridos os processos dos quais tomam parte, e, menos ainda, questionam o desejo de trabalhar para uma grande corporação. Por que consideramos esse um símbolo de sucesso? Não deveríamos repudiar justamente quem cria os pilares para que um sistema extremamente desigual funcione? A mesma cegueira que alimenta a dinâmica dos reality shows também mostra sua face no mercado de trabalho. E na vida em geral, eu diria. Basta lembrarmos do acertado “Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord. E Jogos Vorazes faz uma crítica bastante boa a respeito disso.bbb

E então, chego em Katniss de novo. Tentarei fazer minhas conjecturas sem revelar muito a história, mas o fato é que, a todo momento, Katniss se mostra insatisfeita com a razão de ser dos Jogos Vorazes**. Mesmo durante o decorrer do jogo (que só acaba quando restar apenas um participante vivo na arena), a heroína busca um jeito de mostrar quem é, e de demonstrar o seu desprezo pelo sistema que a colocou na situação de precisar se tornar uma assassina para sobreviver***, para poder continuar ao lado da mãe e da irmã colocando comida em sua casa. Mesmo seu romance produzido é considerando puramente como uma estratégia de sobrevivência. Katniss engole seu orgulho e se submete também ao rito do jogo, encarnando sua personagem nas roupas cuidadosamente pensadas, nas entrevistas ensaiadas e na busca por patrocinadores que a ajudem a sobreviver. Porém, quando cede à seus impulsos, acaba demonstrando todo seu desprezo por tudo aquilo, como na cena das amoras (só posso dizer isso, senão vira spoiler).

Katniss e sua felicidade ao se voluntariar para os jogos no lugar da irmã

Katniss e sua felicidade ao se voluntariar para os jogos no lugar da irmã

Afinal, apesar de todas as câmeras e tecnologias, será que estamos apenas reeditando as dinâmicas de arenas de gladiadores na Roma antiga? Será que incorporamos esse modo de viver em nosso dia a dia, em nosso trabalho e relacionamentos? A comparação seria por demais simplista, mas é inegável que existe algo de muito errado com o mundo quando consideramos entretenimento assistir à algumas pessoas enlouquecendo num quarto branco, por mais ar condicionado e frigobares à disposição elas tenham. E, mais grave, há algo de muito podre quando essas pessoas se sentem privilegiadas por fazerem parte disso. Exatamente como o jovem estagiário escolhido após uma performance tosca à frente dos jurados, ou empregadores, como queiram. Pois é, viramos todos carreiristas****

Por mais clichê que seja o livro, seguirei lendo a trilogia. Por enquanto, Katniss está me dando alguma esperança.

*O Bechdel Test é bem simples, e é utilizado para identificar viés de gênero na ficção. O filme (ou livro, ou outra obra) passa no teste se 1) Tiver pelo menos duas personagens femininas; 2) Que dialogam uma com a outra; 3) Sobre algo que não seja um homem. Parece simples, certo? Agora pense em quantos filmes você conhece que se encaixem nesses critérios!

**os Jogos Vorazes, dentro da história, são o principal evento de um país distópico chamado Panem, que teria tomado o lugar dos Estados Unidos no futuro imaginado pela autora. Panem se estrutura em 12 distritos e uma Capital, que extrai sua riqueza e exuberância dos distritos, cada um deles especializado na produção de um bem (carvão, agropecuária, artigos de luxo, etc). Também existia um décimo terceiro distrito, que liderou uma revolta contra a Capital. A Capital venceu e exterminou o distrito de número 13 e, para lembrar a todos do ocorrido, promove os Jogos Vorazes, para o qual seleciona um garoto e uma garota de 12 a 18 anos (os chamados tributos), provenientes de cada distrito, para entrar num reality show onde lutam até a morte, até que só reste um distrito/tributo vencedor.

*** Eu não tinha pensado nisso, mas a Ju me lembrou do último filme de Tarantino, Django Unchained, onde algo parecido ocorre. Mesmo não se tratando do tema dos reality shows, as lutas de mandingos encenadas no filme nos lembram que afinal a tecnologia não nos distancia tanto assim de práticas animalescas como eram aquelas.

**** No livro de Suzane Collins, os chamados “Carreiristas” são os tributos de distritos mais privilegiados, que passam a vida se preparando para os Jogos.

Katniss, implacável na arena com seu arco e flecha

Katniss, implacável na arena com seu arco e flecha

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3 pensamentos sobre “Reality shows e realidade: um ciclo perverso

  1. Te entendo completamente, Fabinho! Sempre me senti deslocada nessas dinâmicas. Fazia o maior esforço pra mergulhar de vez no “teatrinho”, achando que era isso que o mundo queria de mim, mas nunca consegui aceitar completamente, no fundo achava tudo aquilo ridículo e sem sentido. O que mais me espanta é como todos se submetem, sem questionar. Tem-se a impressão de que quem formula esses processos sabe o que é melhor, e que nós é que precisaríamos nos adequar… Enfim, isso me chateava muito!

  2. Gostei do post de hoje, aprendi sobre o Bechdel Test e nunca tinha associado deste jeito as dinâmicas de grupo com realities shows…são bem bizarras essas dinâmicas modernosas, e não só no processo seletivo; quando tava em Brasília, participei de uma oficina chamada O Elemento Humando (!) e parte dela envolvia ficar tocando e sentido o rosto uns dos outros, olhando nos olhos…(claro que a gente fazia, segurando a risada, e se achando rídiculos…). A toda uma construção de cientificidade da psicologia moderna e às vezes a gente para de questionar mesmo, e pensar se eles sabem mesmo que merda eles tão fazendo, se selecionam mesmo quem eles querem e se o processo mesmo ajuda a escolher quem eles querem…e outra coisa, esses processos impõem um modelo de pessoa, que eu vi num livro sobre pessoas introvertidas, é o ideal da extroversão como sinal de sucesso…vai ficar quieto, discreto, sério numa dinâmica, e outros situações carreiristas…nossa, desculpa o livre fluxo verborrágico virtual…hahahaha

    • Também sempre achei uma crueldade esses programas de trainee.
      Vc vê que as pessoas ali só faltam te bater tentando mostrar como são extrovertidas, felizes e inteligentes. Lembro de um cara no trainee do Itaú que já tinha morado em uns 10 países e tinha uns 24 anos.

      Dá pra vc ver que aquilo é falso. Mas foda-se, eles querem gente falsa mesmo, gente que minta muito bem e que seja egoísta. Pq como vc vai enfiar produto nos outros como eles fazer se vc tem sentimentos? Odeio trainees.

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