Para além dos limites do ativismo de sofá

Protesto-Renan-CalheirosDia sim dia não chega a minha caixa de emails uma petição para assinar. Do Avaaz, do Change.org, Petição Pública, etc. Assino a maioria delas porque geralmente concordo com o que se pede. De todas as petições que assinei até hoje a que teve maior número de adeptos foi aquela contra o presidente do senado Renan Calheiros. O nome de Renan é bastante conhecido aqui pelo Brasil e sempre associado à corrupção, crimes, bandidagem. Existe um asco generalizado contra a figura pública desse homem que já foi acusado e condenado por diversos crimes e continua lá, intocável, presidindo o Senado, um dos órgãos políticos mais importantes do país.

Mas não é só Renan que tem esse escudo invencível contra acusações e condenações. Nós, brasileirxs, já estamos bem acostumados – infelizmente – com a impunidade que reina no meio político.  A governabilidade permite as mais nojentas falcatruas a fim de que todxs ali estejam contentes com a sua parte do bolo, bolo feito e pago por todxs nós.

Mas de qualquer forma, foi incrível a mobilização feita contra Renan através do Avaaz. Foram 1,6 milhões de assinaturas entregues aos senadores, o que os obrigaria a discutir o tema. Porém, até agora, não tivemos notícias de como está isso. Hoje mesmo enviei uma mensagem a alguns Senadores questionando em que pé está o assunto que ninguém parece ter pressa em julgar. A impressão que dá é que a classe política brasileira percebeu a importância da internet como uma ferramenta de divulgação de candidatxs e de alcance político. No entanto, não parecem levar em conta as ações ali realizadas de forma séria. Mas essa insistência em ignorar a insatisfação generalizada expressa nas redes sociais e sites pode custar caro, saberemos em tempo oportuno.

protesto-renan

Que a Internet é uma ferramenta que auxilia na prática democrática, acredito que não haja dúvidas. Mesmo se pensarmos na dificuldade do acesso, até agora, só o Avaaz, possui 3 milhões de brasileirxs cadastrados. Num país de 280 milhões parece pouco, mas não é. Já imaginou uma manifestação popular com 3 milhões de pessoas? Pois é! Tendemos a desclassificar o ativismo de sofá como não sendo real e não tendo o apelo do ativismo “físico”. Talvez seja verdade, no entanto, é uma forma de participação democrática que vem ganhando cada vez mais adeptos.

Na semana passada tivemos o desastre da morte da Comissão de Direitos Humanos e Minorias com a eleição do pastor Marco (in)Feliciano. Claro que a minha rede de conexões no Facebook é bastante específica, no entanto, li uma enxurrada de posts e frases que demonstravam o desespero de ter um pastor racista e homofóbico presidindo a comissão que justamente deve cuidar dos direitos de negros e homossexuais, dentre outras pessoas que representam as referidas Minorias. Marco é tão limitado intelectualmente, que o seu raso debate esbarra em absurdos e jargões como “ditadura gay” e “discriminação de heterossexuais”. O fato é que até a mídia mainstream pareceu inconformada com essa eleição e não parou de divulgar escândalos envolvendo o atual presidente da comissão.

Marco-Feliciano

Está mais do que claro que essa nomeação é só mais um nefasto resultado da tão ovacionada governabilidade petista. O PT mantém uma estratégia política simples e fácil de ser compreendida. Abre mão de comissões que julga menos importantes para manter sob seu poder aquelas que lhe ajudam na hora de conseguir votos. E que comissões são estas até agora? A do meio ambiente é presidida por um notório devastador de florestas, Blairo Maggi. Educação nas mãos de Chalita, acusado de desviar verbas da… Educação. E a dos Direitos Humanos e Minorias, presidida por: 1) pastor, 2) racista, 3) homofóbico, 4) para todos os efeitos, bandido (paga salário a funcionários fantasmas, além de empregar pessoas que trabalham em seus programas televisivos,  5) etc., a lista é grande demais. O nome da comissão já diz tudo: MINORIA e o PT quer o voto da MAIORIA, então, passemos essa comissão desimportante para as mãos de quem a julga extremamente importante por uma questão moral e religiosa, num Estado que é, ou deveria ser, laico: o PSC.

Esse cartaz foi feito por um perfil falso no Facebook, mas parece verossímil, não?

Esse cartaz foi feito por um perfil falso no Facebook, mas é verossímil, não?

Porém, vimos que a revolta contra essa eleição não foi pequena. Além das manifestações virtuais, houve atos contra inFeliciano em dezenas de cidades e em frente a igrejas lideradas por ele, organizados pela internet. Inclusive, houve movimentação contrária num conselho de igrejas. Mas os atos não foram as únicas manifestações de desagrado. Basta visitar a página do pastor no Facebook e ver o tanto de mensagens contra ele e contra sua postura preconceituosa.protesto feliciano

O fato é que estas duas ondas de revolta que presenciamos nos últimos dias contra estes dois homens públicos, demonstram que uma ação iniciada na internet pode ter um alcance bastante grande e gerar ações e atos contra aqueles que não são bem vistos e queridos pela população ou por parte dela. E que, a internet tem sido o instrumento utilizado para que a sociedade se organize contra estas pessoas. E que é bom que a classe política comece a perceber que uma ação organizada pela internet, além de manifestar sim a vontade popular, pode gerar resultados.

O que os recentes acontecimentos parecem mostrar, no entanto, é que de fato há uma maior catalisação da oposição quando o que está sob ameaça são direitos individuais, particulares. O direito de se casar, de não ser discriminado, direitos que afetam diretamente a vida cotidiana das pessoas – isso é materializado pelo caso do Pastor. No caso de Renan, vimos menos manifestações físicas nas ruas, menos mobilização. Na esfera do interesse público, se poderia deduzir que, infelizmente, o Brasil ainda se sente distanciado dos assuntos da “alta política”, ainda guardamos um distanciamento quando se trata do dinheiro, nosso dinheiro, que sustenta todo o aparato executivo e legislativo do Estado. A política permanece como um assunto chato e desinteressante, mesmo porque “todo político é corrupto e safado”.

Por um lado, de fato isso é algo com que se preocupar. De outro lado, podemos esperar que a fagulha certa catalise toda a oposição que se articula na internet para algo mais sólido e mais efetivo. Para que as pessoas percebam que assuntos políticos são assuntos que dizem respeito à sua vida diária e que as atitudes desses corruptos e safados interferem em assuntos da nossa vida privada e que são de nosso interesse particular. Que a política não é uma esfera à parte daquilo que vivemos todos os dias, mas algo que está presente em tudo a nossa volta.

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