Conversinhas de cinema: o som que não quer calar

Por Marilia

O Som ao Redor é um filme brasileiro, de Kleber Mendonça Filho (que, diga-se de passagem, teve louvável atitude ao não demonizar a difusão da obra pela internet), que foi bastante comentado e elogiado por aí. Perdi o filme no cinema, e estava louca atrás de um link pra baixá-lo e saber, afinal, o que tinha de tão especial. E então, essa semana o filme finalmente vazou. E eu descobri porque ele é tão fantástico.

João e Sofia, mais uma sub-trama

João e Sofia, mais uma sub-trama

Vou usar a relação que primeiro pipocou na minha cabeça: achei o som ao redor comparável a um livro do Saramago. Aquela história que o autor vai tecendo, tecendo, cheia de detalhes cotidianos (que nem por isso deixam de ser importantes), pra culminar num final de tirar o fôlego. Pra culminar com a última peça que faz com que toda a figura do quebra-cabeça tenha sentido.

Prédios, grades, cercas. Alarmes, cães de guarda, guardas noturnos, guarda-costas. O medo é latente nos assuntos tratados pelos personagens. Há ameaças mais concretas, como o furto do som de um carro. Outras menos concretas, porém ainda intensas, como o mau agouro no apartamento cuja antiga moradora se jogou da sacada.

Cartaz oficial do filme.

Cartaz oficial do filme.

Ao meu ver, existem na história dois eixos distintos, que se interligam e se complementam mutuamente. O primeiro envolve o cotidiano dos moradores comuns do bairro retratado no filme. Isso inclui as crianças que insistem em brincar de bola no meio dos muros e carros, a reunião de condomínio que como um tribunal condena o porteiro idoso que dorme no trabalho, as festinhas dentro de apartamentos, miniaturas de uma vida. Inclui também a dona de casa entediada e maconheira, que enlouquece com o cachorro barulhento da vizinha. Essa é uma sub-história à parte: o cachorro nunca se cansa de latir, afinal, nem ele escapa daquela prisão disfarçada pelas firulas do conforto. Vou mais longe e me permito fazer uma reflexão: por que todo esse fascínio em colocar um animal num ambiente que não lhe é adequado? Em transformar em ornamento tudo que antes tinha vida própria? Parando pra pensar, é até mesmo surpreendente que o mar apareça uma só vez em um filme gravado no Recife. Até a ausência vira referência para o que se segue.

O segundo eixo da história gira em torno do clã de Francisco, o qual subtende-se que era um antigo senhor de engenho, possuidor de terras e dono da maioria dos imóveis do bairro. Seu neto João ajuda a coordenar os negócios da família, mostrando os apartamentos e cuidando das tarefas administrativas. Aqui, a história começa a tecer mais um fio que tem a outra ponta lá no passado. A visita do neto de Francisco e sua namorada ao velho engenho surpreende pelo susto do banho de sangue na cachoeira. Parece uma piscada, uma ilusão, algo que a gente viu errado. Mas realmente, são alguns segundos de sangue substituindo a água. Outro detalhe que só vai fazer sentido quando se entende o final. O fato é que está tudo lá: a questão da hierarquia familiar, da herança, das mãos que sempre detém a riqueza nesse país. Certamente, o engenho de Francisco deve ter se beneficiado do trabalho escravo num passado não tão distante. Agora, seu neto talvez tente se redimir tratando a empregada como uma protegida. Deixando com que ela traga consigo o marido, que dorme no sofá sem nenhum constrangimento, as filhas, que comem à mesa e brincam livremente pela casa. Há quem diga que o personagem é comparável ao “homem cordial” descrito por Sérgio Buarque de Hollanda. Não tem como descartar essa suposição.

Uma das cenas mais impactantes do filme, a cachoeira de sangue

Uma das cenas mais impactantes do filme, a cachoeira de sangue

Bia, a dona de casa que dopa o cachorro da vizinha pra conseguir dormir

Bia, a dona de casa que dopa o cachorro da vizinha pra conseguir dormir

Permeando esse enredo cheio de sub-temas e histórias esboçadas tanto no presente como no passado, sobressai a questão do medo e da segurança, ou da falta dela. As grades, os alarmes, as telas digitais que aparecem a todo momento como coadjuvantes. Os guardas noturnos que são obrigados a proteger com ressalvas, caso o perpetrante do delito seja parente do dono da rua. E que também cometem seus próprios delitos. Alguns por pura força do hábito, outros já habilmente planejados.

Os guardas noturnos da rua,  os elementos de uma das tramas principais.

Os guardas noturnos da rua, os elementos de uma das tramas principais.

O Som ao Redor de fato me surpreendeu. Mais pela simplicidade do que pelo clímax. Me surpreendeu pelo fato de conseguir ligar tantos assuntos cotidianos e dar um sentido a eles. É claro, não deve ter sido fácil unir todos os pontos de todas as histórias. Algumas ficam apenas desenhadas, outras coisas ficam em aberto. Se tenho uma crítica a fazer, esta se refere à duração do filme. Não sei se teria sido possível costurar todas as tramas e sub-tramas num tempo menor, mas é fato que não é difícil perder o interesse na primeira parte do filme. Por sorte, a personagem da dona de casa Bia nos diverte com o inusitado uso que faz de seus eletrodomésticos. Em suma, esse é um filme pra ver duas, diversas vezes. Para aqueles que gostam de interpretar detalhes. É um filme que não se esgota.

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