A Revolta do Vinagre já começou

protesto1O som das bombas ainda ecoa na minha mente junto com o som do coro de uma multidão que se ajoelhava no chão e ordenava: “Sem violência!”. Acordei hoje cantando revoltadamente: “o povo acordou!”. Acordei com vontade de chorar de raiva, de desespero, de medo. Uma sensação que não dá para definir. E, no caminho para o ponto de ônibus, algumas lágrimas, contrariando minha vontade e a ordem que eu lhes dava, resolveram rolar mesmo assim.

Quando paro para pensar no que aconteceu nesse dia 13 de junho de 2013, ainda consigo lembrar dos barulhos das bombas, do cheiro do gás, da pele que ardia, das pessoas que distribuíam vinagre e tentavam se ajudar de alguma forma, das barricadas formadas para conter um enxame de coisas cor de chumbo que se divertiam com suas ações deploráveis. Para mim, aquele bando de polícia encapotada com armas na mão, não pode ser considerado gente.

Ainda tento compreender quando foi que reclamar sobre o preço de algo se tornou crime ou motivo de espancamento e bombardeamento. Alguém já foi espancado por reclamar que o preço do tomate estava muito alto? Não consigo lembrar em que lei ou decreto está escrito que é crime carregar vinagre. Só se pode temperar a salada com limão aqui no Brasil?protesto3

O que vi ontem nunca vai sair da minha lembrança e faço questão de tentar descrever para que realmente não saia. Para mim, a ação da Polícia foi de uma histeria incompreensível. Nosso ato começou, como sempre, tranquilamente. Theatro Municipal, Praça da República, Avenida Ipiranga. Ficamos vários minutos esperando em frente à Praça Roosevelt a fim de continuarmos a marcha.

Andamos mais alguns metros quando de repente bombas começaram a explodir. A confusão havia começado. Começamos a gritar: “Polícia baderneira!” Pessoas correram para a Praça Roosevelt e continuamos a marchar na Augusta. A cena era estranha. Milhares de manifestantes caminhavam entre os carros proferindo gritos de guerra. Carros atravessados nas ruas, alguns buzinavam nos apoiando. Alguns subiam nos caminhões e clamavam, “vem pra rua!”. Moradores dos prédios da Augusta saíam às janelas e se juntavam ao coro. Foi aí que a polícia começou a mostrar qual seria a sua truculenta estratégia daquela noite. Com a ajuda de policiais infiltrados sabiam todo o caminho que os grupos iriam percorrer. Na Augusta, barraram o grupo à frente e atrás e nos encurralaram. Mais bombas. O grupo se dividiu.

protesto7Segui com a parte dele que foi pela Bela Cintra. As pessoas assustadas, com cara de pânico atrás das grades dos prédios e apartamentos. Parecia que era um monte de bicho andando por ali. Quando estávamos quase na Consolação, deparamo-nos com a polícia. Quem estava na linha de frente começou a gritar: “volta”. Não havia como voltar, estávamos encurralados. Uma mulher em pânico dentro do carro foi acalmada por algumas manifestantes. Sentamo-nos na rua e esperamos. Mais bombas.

Entramos então na Rua Fernando de Albuquerque e ganhamos a Consolação. Foi um grito de comemoração. Estávamos em êxtase! Conseguimos ocupar uma Avenida grande. Algumas pessoas começaram a colocar lixos nas travessas da Consolação para fazer uma barricada e impedir que a polícia nos encurralasse também pelos lados. Mas, mais uma vez, fomos encurralados pela frente e por trás. Ficamos sentados novamente e de repente todo mundo começou a correr desesperado. O grupo estava já bem menos, a polícia estava cada vez mais perto. Fomos bombardeados cruelmente. Pessoas distribuíam vinagre e passavam umas nas outras. Corremos para um canto com a pele, os olhos a arder intensamente. Não sabíamos se deveríamos tentar respirar ou não. Não tínhamos, na verdade, muita escolha.

Meu grupo que era de cinco pessoas se transformou numa dupla. De braços dados corremos pela Rua Maceió onde outro grupo fazia uma barricada maior. Chegamos à rua Angélica e começamos a descer já sem saber se iríamos continuar. Passamos então por um portal mágico e entramos na Higienópolis. Estávamos em outra dimensão. Pessoas ricas passeavam pela rua e estava tudo bem, nada acontecia por ali. De repente, na Maria Antônia, voltamos à outra dimensão. Lixo espalhado pelas ruas e os gritos de um grupo que vinha logo atrás de nós. Um grupo pequeno agora, de umas 30 pessoas. Não nos juntamos a eles e fomos andando sentido Paulista para tentarmos nos juntar a alguns amigos. Quando estávamos na altura da Caio Prado, um grupo de 10 policiais, em vista das 20 pessoas que tentaram subir pela Consolação, fechou a rua e mandou todo mundo que estava andando por ali descer. E tacaram uma bomba na rua. Coisa totalmente sem sentido. Aqueles caras me pareciam mais crianças birrentas e mimadas do que qualquer outra coisa.protesto5

Minha dupla resolveu voltar pra casa e eu decidi subir sozinha para a Paulista. Estava sem celular e depois de algumas quadras escutei alguém gritando meu nome. Minha dupla corria desesperadamente atrás de mim para me salvar: haviam lhe enviado uma mensagem no celular dizendo que não era seguro subir porque a polícia estava batendo e prendendo gente por lá. Foi quando desisti e pensei: vou para casa. Eram 21h45.

Peguei um ônibus e subi a Consolação para pegar o metrô no início da Paulista. Encontrei um outro manifestante que me contou uma história linda: no grupo em que ele estava, a PM parou atrás dos manifestantes para os encurralar, embaixo de um prédio. Quando moradores do prédio viram os policiais ali, começaram a tacar coisas da janela em cima deles que foram embora dali.

Antes de entrar no metrô correndo, ainda ouvi algumas bombas que vinham do MASP. Não tive mais coragem, nem força para me dirigir para lá sozinha. Entrei no metrô, uma menina tentava localizar seu amigo: “Viu, você pode tentar falar com ele? Há duas horas que estou tentando ligar e não consigo, nos separamos ali na Augusta e não consegui mais falar com ele!” Outras pessoas estavam com o rosto e o corpo cansado.

Cheguei em casa com a sensação de que havíamos perdido a batalha por um lado, mas que a guerra só estava começando. Depois de tudo o que a polícia fez, vai ser difícil a mídia manter a posição de que os manifestantes é que são violentos. Milhares de pessoas estavam lá e viram o que aconteceu. E muitas delas estarão conosco na segunda-feira com os seus criminosos vinagre em punho. A revolta do vinagre já começou!

protesto2

Anúncios

Comente!!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s